Futuro maravilhoso, presente detestável


Acabo de voltar de uma palestra com Marc Giget, fundador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e de Inovação. Ele era, em resumo, um francês para lá de otimista em relação ao futuro da humanidade. Em seu discurso, apresentou projetos de melhorias de vida nas cidades que devem ser implantados no tempo de uma geração, isto é, entrariam em vigor já por volta de 2040.

Algumas coisas pareceram malucas e supérfluas demais para se concretizarem no dia a dia, como espelhos com memória visual, no qual você poderia acessar um banco de informações e manipulá-las - uma versão high-tech do espelho da Madrasta da Branca de Neve -, o uso massivo de robôs androides e o emprego de super-armaduras que multiplicariam nossa força (esses dois últimos são coisas já reais no Japão, de onde mais poderia ser?).

Outras perspectivas apresentadas me deram um certo alívio em relação ao estilo de vida futuro. Moradia principalmente. Os apartamentos não serão laboratórios frios cheios de aparatos mecânicos como prevêm alguns filmes de sci-fi. Segundo Giget, o contato com a natureza deve aumentar. Já existem construções com telhados verdes, isto é, com verdadeiros jardins e parques suspensos. Lembro de ter visto um ensaio desses na National Geographic há cerca de um ano (foi de lá que peguei a foto do início). A tendência de muitos arquitetos é projetar moradias toda cobertas de plantas. Seria como se vivêssemos em uma toca de hobbit. Nada mal, né?

A principal ideia de Giget é o que ele chama de Cidades Colinas (Cités Collines). Ainda no mundo da ficção nerd fica fácil exemplificar. Lembram-se de Gondor, a Cidade Branca, de "O Senhor dos Anéis"? É uma estrutura semelhante. O argumento favorável a isso, além da óbvia economia de espaço (alguma hora as grandes cidades não terão mais como se expandir horizontalmente, pois inviabilizaria o trânsito), é a aproximação das pessoas. Não só fisicamente, mas no modo de organização social, com um fortalecimento das redes e da vida em comunidade.

Saí da palestra com a cabeça fervilhando de ideias. Que maravilha será presenciar tudo isso, pensava comigo. Os alarmistas são fracos de imaginação etc. etc. Enquanto isso, esperava o ônibus para voltar para casa. Nove horas da noite. Vinte minutos e nada de o comboio aparecer. Eu olhava em volta e não via vivalma. Até os postes de iluminação pareciam menos eficientes naquelas bandas. Na final da rua, ali a uma quadra, começava uma favela, conhecida pela violência e o tráfico de drogas predominantes. Pensei em correr, mas para onde? Estava tudo deserto, deserto.

A coisa piorou quando vi um grupo de moleques se arrastando em minha direção. Criança na rua a este horário e com esta ginga, coisa boa não deve ser. Corri, não conseguia nem disfarçar, para perto da guarita do centro de convenções. Lá havia uma senhora que saía do trabalho e também tinha medo de esperar no ponto de ônibus. Ela me explicou que já tinha combinado com o motorista de pegá-la ali mais adiante. Eu esperaria com ela, estava salva.

A poucos metros vi os três meninos no ponto de ônibus trocarem algum objeto. Crack, minha companheira disse. Só quando entrei no ônibus, passados cinco minutos presenciando o que eu não queria ver, pude sair do estado de tensão e voltar a pensar na palestra. Marc Giget, então, me pareceu ainda mais sonhador do que a princípio. Duvido que a tecnologia vá nos salvar desta vida miserável de medo. Infelizmente, continuo no lado dos pessimistas.

Comentários

  1. Meu pensamento tbm não consegue ser otimista...
    Gostei do final, ou melhor, da maneira como você contou o final, ficou bem próximo da realidade, coisa que você vivenciou. Gosto de escritos assim.

    ResponderExcluir
  2. 2040? Acaba tudo em 2012 mesmo...

    ResponderExcluir
  3. adorei esse post su
    o formato, a forma como vc conduziu ate chegar no final e apresentar a realidade e o desenrolar da sua opinião

    parabéns, bichona

    ResponderExcluir
  4. Gibson's Soul8/4/10 16:35

    Bah, deixe uma realidade feiosa estragar a mais última "Tecnoutopia da Moda." Embora, visão futurista por visão futurista, a visão de Neuromancer ou de qualquer autor Rybofunk é muito mais interessante do que qualquer francês ( e quem leva esses sujeitos a sério? Ele não vencem guerra alguma desde a Revolução Francesa )

    ResponderExcluir

Postar um comentário