A outra

 É cedo, o DJ apenas começou a esquentar. Ninguém ainda está tão bêbado, só as mulheres mais perfeccionistas fazem o primeiro retoque na maquiagem. Quando tocar Lady Gaga, e já está quase na hora, elas querem estar prontas para cair na pista e garantir o seu.

Há uma pequena fila no banheiro feminino. Olha lá culpa de quem. Uma ruiva ocupa todo o espelho, onde caberiam perfeitamente duas moças mais modestas. Quem essa pensa que é? Nem tem cara bonita, também pudera demorar tanto.

Então aquela colegial entra. Morena, reconchudinha, muito lápis preto nos olhos. Mal abriu a porta e quase deu de cara na última da fila – oito metros quadrados, dez mulheres, urina por todo chão. Localizou imediatamente o motivo do tumulto. Por um segundo, apertou as pálpebras, medindo o que sentia. Não queria parecer afetada pelo álcool, embora tivesse virado na última hora pelo menos dois blood maries, seu drink favorito entre os três que conhecia.

Conseguiu perguntar num tom bastante sóbrio:

― Você que é a ruiva do Fernandinho?

― Sim, sou eu. – respondeu a outra calmamente, desocupando o espelho para o alívio geral – E você, quem é?

― Eu costumava ser a ruiva do Fernandinho antes.

― Ah... – foi tudo o que a zinha se dignou a dizer. Claro que ela pensava: “feia”.

A morena engoliu a seco. Tomou ar e rebateu:

― Só diz para ele que eu não vou poder na quarta, ok?

E a ex-ruiva saiu triunfante do banheiro. Depois de cinco segundos rindo sozinha, lembrou que sua bexiga ainda estava cheia.

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