"Eu sou cult, e daí?"


Venho ao blog para fazer uma pausa em “O tempo recuperado” e, assim, prolongar um pouco mais a leitura. Puro medo da despedida. Vocês já sentiram isso em relação a alguma obra ficcional longa? Nem me lembre de “Guerra e paz”! Pois é, desta vez, trata-se da última parte de “Em busca do tempo perdido”, obra maior (em todos os sentidos) de Marcel Proust (1871-1922).

Ela entrou em minha vida há quatro anos, quando emprestei “O caminho de Swann” na biblioteca da universidade. Fazer o que se o meu curso de graduação me deixava tanto tempo livre? Gostei de cara, só que essa série não é do tipo que se lê numa sentada. Decidi, então, que leria um livro a cada janeiro (são sete no total).

Esse era um ritual de férias delicioso. Pena que, depois do nascimento de minha sobrinha, as farras literárias do verão ficaram seriamente comprometidas. Como resistir aos grands-bleus? Impossível! Eu passava facilmente todo o verão sem me aproximar de leituras pesadas, só rolando pelo chão e assistindo a TV Cultura com o bebê – o que, confesso, não era nem de longe ruim.

Chegou 2010, tudo na mesma. Fazia dois anos que eu lera “Sodoma e Gomorra”, o quarto livro, e não tinha perspectivas de começar “A prisioneira”. Pelo menos não até três semanas atrás, quando o desemprego e o tédio me trouxeram de volta esse velho prazer. Sozinha em Curitiba, comecei o quinto volume. O final em aberto me obrigou a já emendar a leitura de “A fugitiva” e, por fim, “O tempo recuperado”.

“Em busca do tempo perdido” é um daqueles catataus que são obrigatórios no histórico de qualquer leitor “sério” (seja lá o que isso signifique), assim como “Ilíada”, “Os irmãos Karamazov”, “Guerra e paz”, “A montanha mágica”, “As mil e uma noites” e por aí vai. A lista é longa, eu nem conseguiria lembrar todos.

Um dos pontos mais interessantes de “Em busca...” é a relação entre fatos e memórias, presente e passado, sensações e lembrança de sensações. Particularmente, também me intriga bastante saber o limite entre a ficção e a realidade, já que o narrador lembra muito Marcel Proust e até tem o mesmo primeiro nome. Sei que isso é futilidade perto do que a narrativa apresenta de concreto, mas como evitar aquela coceirinha do demônio que nos impele a investigar a vida privada daqueles que nos acompanham tantas noites a fio?

(Este post até agora me dá viva impressão de que meu raciocínio não está caminhando para lugar algum, mas sigo até sua conclusão por falta de um texto substituto.)

Acredito que haja certo preconceito em relação ao escritor francês, às vezes tachado como pedante ou elitista. Isso porque os parágrafos longos e o grande número de personagens exigem do leitor mais concentração do que o usual. Mas só isso também. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Garanto que o desenrolar da trama é bem mais dramático e surpreendente do que sua novela ou série favorita. Não posso falar mais para não dar spoiler. Dê uma chance a Proust e a si mesmo de ser feliz.

Uma pérola para encerrar um texto que foi escrito para ser esquecido. Perdoe-me, Proust!
 

Comentários

  1. uhu
    postei antes do Andarilho
    Vencer

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  2. Daqui a pouco começam a colocar comentários tipo "first" aqui, hauhauhauhau.

    Pra mim, leitor sério tem que ler no mínimo, Senhor dos Anéis, hahahah.

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  3. ahhh terminei o livro das nuvens sussu
    agora finalmente posso começar outras coisas
    vou ver se me atenho às suas sugestoes, já que decidir o que ler normalmente é o meu maior problema

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  4. bem, para mim, decidir o que ler não é problema, já que são mil e um livros na fila, quase todos literários (soma-se a isso os da facul).
    falando em mil e um, acho que vc esqueceu do "s" em "As Mil e Uma Noites" no quinto parágrafo (hehe é para o seu bem :P).
    quando eu crescer, digo, me formar quero ser tão grande leitora como vc. puxa, para essa obra de proust, realmente, haja fôlego! e paciência, e determinação, e persistência...

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