Poemas pornográficos



Hilda Hilst foi uma das maiores poetisas brasileiras. Por mim, diria até que a maior. Só que, no começo da década de 90, ela já estava com seus 60 anos, e o público em geral mal conhecia sua obra. Ela ficou tão frustrada por não receber reconhecimento proporcional à dedicação que depositava em seu trabalho que desistiu de tentar fazer tudo certinho. Em 1992, então, ela lança "Bufólicas", coletânea de poemas pornográficos ilustrados por Jaguar. (Informações do site da Editora Globo.) São histórias leves, descompromissadas e muito divertidas. Até nessa tentativa de ir contra a corrente, a danada não perde a qualidade.

Em homenagem à querida Hilda, colo dois poemas deste livro e os convido para conhecer o resto do trabalho dela. Tem produções para todos os gostos. Ela criou contos, novelas, poemas, teatro... Tem uma coleção que saiu pela editora Globo no começo nos anos 2000 bem boa. Livros de preço acessível e muito bem editados. Fica a dica.

(Sobre a falta de reconhecimento, tenho uma teoria de que era puro preconceito pelo fato de ela ser bonita. No fundo, as pessoas julgam como se o gene da beleza inibisse o da inteligência. Mas isso é assunto para um outro post...)

O reizinho gay

Mudo, pintudão
O reizinho gay
Reinava soberano
Sobre toda nação.
Mas reinava...
APENAS...
Pela linda peroba
Que se lhe adivinhava
Entre as coxas grossas.
Quando os doutos do reino
Fizeram-lhe perguntas
Como por exemplo
Se um rei pintudo
Teria o direito
De somente por isso
Ficar sempre mudo
Pela primeira vez
Mostrou-lhes a bronha
Sem cerimônia.
Foi um Oh!!! geral
E desmaios e ais
E doutos e senhoras
Despencaram nos braços
De seus aios.
E de muitos maridos
Sabichões e bispos
Escapou-se um grito.
Daí em diante
Sempre que a multidão
Se mostrava odiosa
Com a falta de palavras
Do chefe da Nação
O reizinho gay
Aparecia indômito
Na rampa ou na sacada
Com a bronha na mão.
E eram os agudos
Dissidentes mudos
Que se ajoelhavam
Diante do mistério
Desse régio falo
Que de tão gigante
Parecia etéreo.
E foi assim que o reino
Embasbacado, mudo
Aquietou-se sonhando
Com seu rei pintudo.
Mas um dia...
Acabou-se da turba a fantasia.
O reizinho gritou
Na rampa e na sacada
Ao meio dia:
Ando cansado
De exibir meu mastruço
Pra quem nem é russo.
E quero sem demora
Um buraco negro
Pra raspar meu ganso.
Quero um cu cabeludo!
E foi assim
Que o reino inteiro
Sucumbiu de susto.
Diante de tal evento...
Desse reino perdido
Na memória dos tempos
Só restaram cinzas
Levadas pelo vento.

Moral da história:
a palavra é necessária
diante do absurdo.

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A cantora gritante

Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os homens maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Malidizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tantas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
cuida que não seja um grito.

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