Pangloss e suas discípulas no cinema

Agora que terminei de assistir a todas as temporadas de “The Office” disponíveis na minha locadora posso voltar a locar filmes inteligentes e tornar meus finais de semana um pouco mais produtivos intelectualmente. Não que a trama do meu amado escritório seja burra, mas, sendo uma série americana, existe um limite máximo de inovação na dramaturgia. É aquela velha regra da TV: nivelar por baixo, ou melhor, supor que todo o público pensa como uma criança.
Essa é uma afirmação que a gente sempre ouve na faculdade, mas posso dizer que senti sua veracidade na pele. Até os meus dez ou onze anos eu acompanhava fielmente todas as novelas da Rede Globo e algumas do SBT (Fascinação, Chiquititas, Pérola Negra, A Usurpadora e as três Marias-Qualquer-Coisa da Thalia). A partir da adolescência, passei a gostar cada vez menos e hoje, quando assisto, sinto que a programação em geral está me xingando de idiota. No entanto, creio que o cinema fora do circuito hollywoodiano tem um pouco mais de liberdade para fugir dessa regra. Bem, mas antes que você pense que eu sou uma típica estudante de jornalismo que coloca bottons anti-Globo na bolsa, deixo essa divagação de lado e começo de fato a falar daquilo que havia planejado para o post, isto é, do filme a que assisti hoje: “Viridiana”, de Luis Buñuel (1961).
Esse é um daqueles filmes cuja importância foi bastante enfatizada pelo meu professor de História do Cinema, mas que eu sempre via na locadora e pensava “qualquer dia pego, não hoje”. Fiquei nessa procrastinação por mais de um ano, mas ontem decidi acabar com isso. Na verdade, esse foi só o primeiro passo de um grande plano: vou amarrar as inúmeras pontas soltas da minha vida. Isso mesmo, hora de ler aquele livro em francês que eu comecei há quatro meses, as piauís de junho e julho, os artigos para o TCC que estão sempre jogados (e intocados) sobre a mesa... enfim, todas essas coisas que eu vim adiando infinitamente. Já disse Snow em 1959: “O perigo é que fomos educados para pensar que temos todo o tempo do mundo. Temos muito pouco tempo. Tão pouco que não ouso sequer imaginá-lo”.
Pois bem, assisti à tal da “Viridiana” e me surpreendi – não é que ela tem realmente muitas qualidades? Esse não é como certos os filmes que você sabe de antemão que são excelentes, mas que exigem de você determinação para os ver até o fim sem dormir – quer melhores exemplos do que “2001” e “Solaris”? Pelo contrário, o filme de Buñuel é bem dinâmico, prende a atenção e tem o bônus de estar carregado de simbolismos. Depois que meu professor me ensinou a detectá-los, é uma grande satisfação encontrar algum diretor que use esse recurso.
Você que é fã de blockbusters não precisa torcer o nariz, pois isso não é uma prática exclusivamente cult. Vários diretores pop de Hollywood também a empregam ou se divertem fazendo referência a algum diretor ou roteirista consagrado. Sabe aquela comédia romântica “De repente 30”? (Em geral, odeio esse gênero de filme, mas essa é tão legal!) No último feriado, estava passando na TV, não resisti e o revi pela segunda ou terceira vez. Então percebi que o diretor, Gary Winick, deve ser muito fã de Martin Scorsese, porque notei duas referências a “Táxi Driver”. Primeiro um pôster desse filme no apartamento do mocinho e depois uma cena em que a protagonista entra no táxi e esse acelera passando por cima de um bueiro e espalhando a fumaça densa que sobe. Viu só, comédias românticas não precisam ser de todo estúpidas.
Lembram o começo do livro “Lolita” – que por sinal tem uma adaptação maravilhosa para o cinema assinada por Stanley Kubrick – em que Humbert descreve como o nome da garota desliza sensualmente em sua boca? (Não leu? Corra já atrás do prejuízo, é uma obra fundamental para qualquer biblioteca básica e tão gostoso de ler que você termina em uma ou duas sentadas.) Agora idealizem a sensação exatamente oposta. O nome de Viridiana é áspero, sério e não sugere fantasias – “só” para o pervertido de seu tio, o primo urbano-liberal e os mendigos amorais. A protagonista, que dá o nome à história, é boa, sincera e centrada, mas sem qualquer senso prático (a cena da ordenha da vaca explicita isso), fato que a equipara a Cândido e D. Quixote. Que ela queira deixar o convento após a investida e o suicídio de seu tio é até compreensível – afinal, ela estava maculada pelo mundo real e não poderia voltar para a pureza de sua vida anterior –, mas quem em sã consciência levaria para casa uma dezena de mendigos desconhecidos? A Bíblia diz que é preferível, sob o ponto de vista da caridade, convidar para a sua ceia pedintes maltrapilhos em vez de amigos. Só que isso era para ser figurativo, certo? Alguém que faz isso na realidade não está praticando o bem, e sim a insensatez. O comportamento dos mendigos, inclusive, demonstra que eles não querem o tipo de ajuda que a protagonista propõe.
Algo semelhante ocorre em “Dogville”. Lembrei-me de Grace várias vezes enquanto via “Viridiana”. Diversos elementos são comuns a ambas: a sobriedade, o exercício voluntário do trabalho pesado, o lenço no cabelo simbolizando o pudor, a exploração em vez de gratidão, a fé na bondade dos oprimidos e, por fim, a ingenuidade. Um breve spoiler: não pode ser coincidência que Lars Von Triers tenha dado à personagem de Nicole Kidman um desfecho tão semelhante ao da heroína de Buñuel, ou seja, o sentimento de frustração e, por fim, a desistência de que o lado bom das pessoas triunfará.
De novo divaguei e me perdi do “Viridiana”. Mas isso foi até bom, porque eu pretendia fazer uma análise e dissecar a pobrezinha (mais ainda do que Buñuel já o fez). Pensei melhor e vi que estragaria o prazer daqueles que ainda não assistiram. Então farei o seguinte, deixarei essa sugestão para quem ainda não decidiu o que fazer neste sábado à noite e depois, quem a tiver seguido e estiver afim de conversar, estou à disposição.
Uma última observação, para deixar o título bem claro. Pangloss era o mestre de Cândido. Era tão otimista que beirava a ingenuidade e a loucura. Um trecho de “Cândido” que eu amo: “Está demonstrado, dizia ele [Pangloss], que as coisas não podem ser de outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo está necessariamente destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar óculos, e por isso nós temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para as calças, e por isso temos calças”. Não poderia haver um mundo melhor do que este. Isso não lhes é evidente?
A Fada do Siso
(Jogando água naquela patricinha que fica uma semana sem lavar o cabelo para manter a escova de sábado – “ops, foi sem querer, claro”.)
Assista ao filme que foi citado umas vinte vezes neste post e entenda por que todos dizem “Eu te amo, Viridiana” e de que forma o fazem. Não quero dar spoiler, mas já adianto que o desfecho é excelente, um dos melhores que já vi.
Pulei logo pro final, pq sabia que ia ter spoiler ai no meio.
ResponderExcluirNão vou na locadora (eu nem tenho ficha em nenhuma), mas já tá baixando via torrent, huahauhau.
http://www.igrejainternacional.com/testemunhos-de-fe/fui-universitario-mas-me-salvei/
ResponderExcluirHAHAHAHAHAHAHAHA
ResponderExcluirsussu!carta a caminho.
ResponderExcluiralguém pegou meu livro do voltaire emprestado e eu nunca mais vi ;( Adooro Cândido. Mas não gosto mto desses filmes alternativooos u.u
bjo
saudaaade
ana
Um filme legalzinho pra caramba do Buñuel que eu vi uma vez é o Ensaio de Um Crime... Não sei por que me lembra o Chaves do Oito... Enfim, me animei a ver esse filme, mas me animei mais a ler este livro citado aí do Voltaire. Entrou para minha lista!
ResponderExcluirDov'è il latte... sempre uma boa referência!
Eu quero ver esse filme, Su!
ResponderExcluirAh, acho que nesse semestre (finalmente!)vou conseguir encaixar a matéria de cinema no meu horário!
Esse filme é absurdamente bom.
ResponderExcluirA história é mto sarcastíca e o ritmo realmente não nos faz dormir. E ainda o filme te dá aquele "soco no estomago" sutil pra quem é meio Viridiana e acredita na ligação bondade-pobreza.
Aquela parte dos mendigos na casa foi bem perturbadora O_o E aquele momento que a mendiga "tirou foto" deles na msm posição da santa ceia foi íncrivel!
Ah, e eu consegui ver um monte de simbolismos msm não tendo nenhuma ajuda de alguem mais experiente (tp, o gato pulando no rato na parte que o bastardo pega a governanta, o canivete escondido no crucifixo, a coroa de espinho indo pra fogueira no final). Agora fico imaginando se há mto mais coisas do que vi O_O Sinto cheiro de simbologia naquela corda q o cara se enforcou, a menina pulou e o mendigo usou de cinto, mas não consigo pensar em algo =/
ahhh, ok, parei de divagar >_<