Mais uma resenha: a única coisa que sei fazer (e nem isso faço direito)
Só o que tenho feito ultimamente, quando não estou no jornal, é requentar. Por isso, lá vai uma resenha que produzi há alguns dias.
(Sobre a foto: só falta eu deixar crescer a barba, e vocês não notarão diferença entre mim e este personagem do Russel Crowe.)

(Sobre)vida longa ao jornalismo
Em tempos de crise nos jornais e de uma enxurrada de opiniões especulativas avançando sobre a informação checada, Intrigas de Estado (State of Play, 2009) é, de certa forma, um consolo. Apesar de o filme dirigido por Kevin McDonald se basear em uma série de televisão, ele defende a superioridade do jornal de papel sobre as mídias eletrônicas. O argumento central é que, em detrimento de seu enfraquecimento comercial, o texto impresso é uma ferramenta poderosa de justiça.
O personagem principal da trama, Cal McAffrey (Russell Crowe), é o típico jornalista-herói que o cinema consagrou – aquele que vai até as últimas consequências para ter a notícia. Ele trabalha sob a pressão direta do conselho editorial, que cobra dele matérias atrativas que aumentem as vendas. Mas, ao mesmo tempo, tem a seu favor aquela malandragem de veterano com uma caderneta repleta de fontes.
No início do filme, Cal está investigando um assassinato misterioso e simultaneamente se compromete a limpar a imagem de um amigo que está envolvido em um escândalo sexual, o congressista Stephen Collins (Ben Affleck). O problema é que esse último caso estava sendo acompanhado por sua colega Della Frye (Rachel McAdams). A repórter principiante escreve para o blog do Washington Globe e quer levantar informações inéditas sobre a história, sem se importar em preservar o político.
A partir desse conflito de motivações já se presume que o primeiro contato entre a velha guarda e a nova geração não seria nada amigável. Mas, como Cal e Della descobrem que suas matérias são, na verdade, partes de uma mesma história, eles se veem obrigados a trabalhar juntos. Nessa convivência quase forçada, a dupla encontra a harmonia em nome da boa reportagem. (Essas soluções mágicas não são a cara de Hollywood?)
Um breve parêntese sobre a seleção do elenco. A escolha faz um jogo interessante entre ficção e realidade. Como os atores principais carregam consigo predicados que estão bastante arraigados no imaginário popular, o diretor usa isso a favor da trama. Russell Crowe, por exemplo, já interpretou diversos personagens que colocavam sua profissão acima de si próprios (Gângster, 2007, e A Luta pela Esperança, 2005). Rachel McAdams, tal qual Della, é quase uma estreante no cinema “sério”. Seus filmes anteriores (Penetras Bons de Bico, 2005, e Meninas Malvadas, 2004) passam uma ideia de imaturidade e, consequentemente, o público não espera que ela faça um trabalho excepcional. Intrigas de Estado se apropria dessas imagens preconcebidas sobre os atores para enriquecer seus personagens.
Quando se fala em uma dupla de jornalistas, um experiente e outro novato, investigando um crime protagonizado por figurões da política, Carl Bernstein e Bob Woodward são os primeiros nomes que vêm à cabeça. De fato, o diretor Kevin McDonald, que também assinou o excelente O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006), não esconde a admiração por Todos os Homens do Presidente (All the President’s Man, 1976). As referências a esse clássico são constantes e culminam na cena de perseguição em uma garagem – esse era o local onde Bob encontrava Garganta Profunda, a fonte que foi decisiva na solução do Caso Watergate.
Intrigas de Estado tenta repetir algumas lições do bom jornalismo praticado por Bob e Carl – como não publicar a matéria até se terem todas as informações essenciais –, mas, infelizmente, não tem o mesmo brilhantismo de seu predecessor. Apesar disso, a iniciativa de abordar no cinema questões polêmicas do jornalismo não deixa de ser louvável. Além dos pontos que são apenas tangenciados, como a ética (ou sua falta) na obtenção de informações, o principal dilema da trama é o esforço do jornalismo impresso em sobreviver comercialmente versus o desinteresse dos editores em fazer reportagens investigativas e o do público em as ler.
Em dado momento do filme, o delegado repreende os jornalistas do Washington Globe por se meter naquela investigação e diz que ele só via aquele tipo de coisa na TV. Cal, então, insinua que era óbvio que o chefe de polícia só visse na TV, porque esse era o único meio de comunicação com o qual tinha contato. Disso vem a dúvida: se a maioria das pessoas não tem o hábito de ler jornal, será que vale a pena tanto esforço para fazer uma boa matéria impressa?
Na visão do cinema americano tradicional, o “bem” – e aí se incluem o conhecimento, o engajamento e a justiça extensivos a todos – sempre triunfa. No mundo real, isso não é garantido. Mas, particularmente, ainda acredito que o idealismo de Kevin McDonald não seja tão sem fundamento: o bom jornalismo nunca passa desapercebido. As vendas de diversos jornais importantes podem estar caindo, mas é um alívio saber que, em última instância, as escolhas feitas no dia a dia da redação ainda são o fator determinante no jornalismo.
**
Trailer:
**
Não percam no próximo post, que só Deus sabe quando sai, "Por que comprar jornal".
(Sobre a foto: só falta eu deixar crescer a barba, e vocês não notarão diferença entre mim e este personagem do Russel Crowe.)

(Sobre)vida longa ao jornalismo
Em tempos de crise nos jornais e de uma enxurrada de opiniões especulativas avançando sobre a informação checada, Intrigas de Estado (State of Play, 2009) é, de certa forma, um consolo. Apesar de o filme dirigido por Kevin McDonald se basear em uma série de televisão, ele defende a superioridade do jornal de papel sobre as mídias eletrônicas. O argumento central é que, em detrimento de seu enfraquecimento comercial, o texto impresso é uma ferramenta poderosa de justiça.
O personagem principal da trama, Cal McAffrey (Russell Crowe), é o típico jornalista-herói que o cinema consagrou – aquele que vai até as últimas consequências para ter a notícia. Ele trabalha sob a pressão direta do conselho editorial, que cobra dele matérias atrativas que aumentem as vendas. Mas, ao mesmo tempo, tem a seu favor aquela malandragem de veterano com uma caderneta repleta de fontes.
No início do filme, Cal está investigando um assassinato misterioso e simultaneamente se compromete a limpar a imagem de um amigo que está envolvido em um escândalo sexual, o congressista Stephen Collins (Ben Affleck). O problema é que esse último caso estava sendo acompanhado por sua colega Della Frye (Rachel McAdams). A repórter principiante escreve para o blog do Washington Globe e quer levantar informações inéditas sobre a história, sem se importar em preservar o político.
A partir desse conflito de motivações já se presume que o primeiro contato entre a velha guarda e a nova geração não seria nada amigável. Mas, como Cal e Della descobrem que suas matérias são, na verdade, partes de uma mesma história, eles se veem obrigados a trabalhar juntos. Nessa convivência quase forçada, a dupla encontra a harmonia em nome da boa reportagem. (Essas soluções mágicas não são a cara de Hollywood?)
Um breve parêntese sobre a seleção do elenco. A escolha faz um jogo interessante entre ficção e realidade. Como os atores principais carregam consigo predicados que estão bastante arraigados no imaginário popular, o diretor usa isso a favor da trama. Russell Crowe, por exemplo, já interpretou diversos personagens que colocavam sua profissão acima de si próprios (Gângster, 2007, e A Luta pela Esperança, 2005). Rachel McAdams, tal qual Della, é quase uma estreante no cinema “sério”. Seus filmes anteriores (Penetras Bons de Bico, 2005, e Meninas Malvadas, 2004) passam uma ideia de imaturidade e, consequentemente, o público não espera que ela faça um trabalho excepcional. Intrigas de Estado se apropria dessas imagens preconcebidas sobre os atores para enriquecer seus personagens.
Quando se fala em uma dupla de jornalistas, um experiente e outro novato, investigando um crime protagonizado por figurões da política, Carl Bernstein e Bob Woodward são os primeiros nomes que vêm à cabeça. De fato, o diretor Kevin McDonald, que também assinou o excelente O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006), não esconde a admiração por Todos os Homens do Presidente (All the President’s Man, 1976). As referências a esse clássico são constantes e culminam na cena de perseguição em uma garagem – esse era o local onde Bob encontrava Garganta Profunda, a fonte que foi decisiva na solução do Caso Watergate.
Intrigas de Estado tenta repetir algumas lições do bom jornalismo praticado por Bob e Carl – como não publicar a matéria até se terem todas as informações essenciais –, mas, infelizmente, não tem o mesmo brilhantismo de seu predecessor. Apesar disso, a iniciativa de abordar no cinema questões polêmicas do jornalismo não deixa de ser louvável. Além dos pontos que são apenas tangenciados, como a ética (ou sua falta) na obtenção de informações, o principal dilema da trama é o esforço do jornalismo impresso em sobreviver comercialmente versus o desinteresse dos editores em fazer reportagens investigativas e o do público em as ler.
Em dado momento do filme, o delegado repreende os jornalistas do Washington Globe por se meter naquela investigação e diz que ele só via aquele tipo de coisa na TV. Cal, então, insinua que era óbvio que o chefe de polícia só visse na TV, porque esse era o único meio de comunicação com o qual tinha contato. Disso vem a dúvida: se a maioria das pessoas não tem o hábito de ler jornal, será que vale a pena tanto esforço para fazer uma boa matéria impressa?
Na visão do cinema americano tradicional, o “bem” – e aí se incluem o conhecimento, o engajamento e a justiça extensivos a todos – sempre triunfa. No mundo real, isso não é garantido. Mas, particularmente, ainda acredito que o idealismo de Kevin McDonald não seja tão sem fundamento: o bom jornalismo nunca passa desapercebido. As vendas de diversos jornais importantes podem estar caindo, mas é um alívio saber que, em última instância, as escolhas feitas no dia a dia da redação ainda são o fator determinante no jornalismo.
**
Trailer:
**
Não percam no próximo post, que só Deus sabe quando sai, "Por que comprar jornal".
Eu só compro jornal pra ver os classificados. O resto eu leio pela internet, hauhauhauh
ResponderExcluir