As mentiras que eu conto (parte II)


Ah, os malditos CDs de bossa nova! Primeiro que eles fazem meu namorado reclamar que eu fico aérea demais – duvido que ele repetiria isso nos meus momentos de extremo estresse. E depois, essa coleção me obrigou a procurar o cafetão de olhos vazados.

Era a semana do Johnny Alf – o bom crioulo com voz levemente desafinada e fascinante. Não achei o CD em nenhuma das bancas mais próximas de casa. Não havia outra solução: eu precisaria me submeter ao velho. Eu já conhecia essa caverna do diabo. Entrei lá pela primeira e última vez quando saiu o primeiro número da Rolling Stone brasileira (há dois anos?). Senti tanto nojo que prometi a mim mesma que nunca mais retornaria.

Por isso repito: – Malditos CDs!

Me levaram a esse lugar insalubre. Para vocês terem uma vaga noção, a banca tem forma de C, então há um pedaço onde não circula o ar, meio escuro e úmido. Como se não bastasse, o dono da bagaça, o tal velho asqueroso, fica lá dentro fumando um cigarro atrás do outro. Sempre odiei fumaça emitida pela queima de tabaco, mas aquela em particular me fez amar todas as outras. É a coisa mais fedida que já senti na minha vida. Dá um embrulho no estômago, você sente a comida semidigerida subir até a garganta, as narinas se contraem, você sufoca.

“Não seja preconceituosa. Não é porque ele cheira como o diabo que é o próprio”, penso.

Tento puxar conversa, agir como cristã.

— Está tão difícil de achar os últimos CDs de bossa nova, né...

— Eu recebo pelo menos dez de cada. Pode vir aqui que sempre tem.

A sua voz é um ganido, feito um Nazgûl urrando de raiva. Dentes podres de orc. Cuspe azedo direto na minha cara e na minha roupa. Mas, calma, essas são justamente as qualidades do velho. Ainda não falei do pior. Meodeos, ele está olhando para mim! Seus olhos estatelados, assimétricos, as pupilas brancas inumanas. Das órbitas escorre sem parar pus esverdeado. Esse homem está morto! E, se ainda caminha sobre a Terra, é um morto muito, muito mau. Morto!

Vejo que ele não consegue se levantar. É só manter a distância que eu estarei a salvo. A barriga grande demais cobre seu sexo e parte das coxas. Percebo na hora sua condição; ele exerce a profissão mais antiga do mundo: a de cafetão – a de puta é a segunda mais velha, pois, pela lógica, primeiro veio Adão e depois Eva. Menininhas são obrigadas a sentar na parte descoberta das pernas varizentas se quiserem levar uma paçoquinha ou uma revista da Mônica.

— Esfregue a barriguinha do tio, minha linda – ele se deleita.

O sebo daquela pele em decomposição fica sob as unhas das pequenas. Ah, essas crianças... nunca lavam a mão! Daí, na hora de devorar a paçoquinha, vai pedaço de velho pra dentro também. Depois ficam com dor-de-barriga, e a mãe acha que é verme. Não, minha senhora, antes fosse. É canibalismo, necrofagia, ou melhor, arquenecrofagia.

Não ouso perguntar quanto custa o CD – já sei o que ele dirá, melhor não dar a deixa. Atiro o dinheiro em cima do balcão. Nada de ultrapassar a linha de segurança. Ah, se eu não fosse tão pão-dura, nem teria esperado o troco. O velho coloca as moedas na minha mão, quase me tocando. Estremeço, sinto como se tivesse apertado a mão melequenta do morto.

A saída parece tão distante. E se fechar de repente? Corro para sua direção, levando em minha carteira o dinheiro sujo do cafetão. Quantas meninas não devem ter se prostituído por aqueles R$ 2,10? Muitas, afinal, são quase dois RUs.

Comentários

  1. ill, dentes de orc é barra hein!
    aprenda com suas experiências:
    lugar feio tem gente feia u.u
    ah, conta mais, adoro suas "mentiras"/aventuras :D

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  2. coitado do tiozinho...
    só pq ele é feio ;/

    bjo
    saudade
    e vê se me escreveee

    ana

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  3. só pra relembrar:
    adoro seus escritos ^^
    comenta lá no meu, agora a onda dramaqueen já passou, hehe

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  4. Su,
    você agora ultrapassou a barreira do meu entendimento.
    Dou-me por vencida.

    o_O

    Maro

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  5. Uau, você acusou o velho de pedofilia. :P

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