Lugar de
Esses dias, visitando meus pais, tive minha cota anual de TV
Globo. Fiquei impressionada ao perceber que as demandas dos movimentos sociais
não estão restritas às universidades, mas também chegaram à maior veiculadora
de cultura de massa. As novelas agora têm personagens gordas, negras e gays em
posições protagonistas, não só nos núcleos cômicos. Elogiável a decisão de
finalmente parar de esconder essa grande parcela da população. Por outro lado,
nós bem sabemos que não será a Globo que implantará uma revolução real, ela só
está reproduzindo um pedacinho das mudanças promovidas a altos preços lá fora
por agentes sociais.
Além disso, acho importante frisar, ainda são poucos esses
personagens, seguindo mais ou menos um modelo de cotas para atingir o
politicamente correto, e não para representar a proporção real dessas pessoas
na sociedade brasileira. Duas mulheres negras bem-sucedidas (uma advogada,
outra psicóloga) numa mesma novela já é um recorde! Acho que isso é em I
(coração) Paraisópolis, uma novela que não me parece ter nenhum outro mérito.
Retratar os bandidos da favela como atores brancos – e nem precisa dizer
“bonitos”, porque no mundo das novelas todo mundo é impressionantemente bonito
– é uma tentativa de driblar um preconceito (“negros são bandidos”), mas que
acaba mascarando um dado gritante: a maioria da população encarcerada no Brasil
é negra. Não adianta esconder, os negros no geral vivem em condições piores do
que os brancos e, por isso, têm mais entrada no crime. Não é uma questão moral,
é uma questão econômica.
Enfim, há tanto mais para comentar, mas essa não é a
intenção deste post, mesmo porque criticar a Globo é tipo chutar cachorro
morto. Minha opção é não assistir a TV, pra não ser bombardeada com tanto
absurdo, já me basta o que vejo ao vivo. Na verdade, eu gostaria de dar minha
contribuição à atual mobilização midiática para enfrentar os preconceitos
contra as minorias no Brasil. Pensei em uma campanha publicitária composta de
frases preconceituosas sobre mulheres (causa a que sou, obviamente, mais sensível)
seguidas de imagens que as desconstruiriam. Por exemplo:
Lugar de mulher é em casa.
* Foto de mulher fazendo um reparo técnico na casa de outra
pessoa.
Lugar de mulher é na pia.
* Foto de mulher em posição sacerdotal batizando uma criança
na Igreja Católica.
(Meu sonho!)
Lugar de mulher é no tanque.
* Foto de mulheres dirigindo ou construindo um tanque de
guerra.
(Não tenho especial simpatia pelas forças armadas, mas gosto
da ideia de uma mulher exercendo este nível de engenharia ou de pilotagem)
Lugar de mulher é em todo lugar. Chega de restrições
machistas!
Pensei que poderia haver uma variação desse mesmo modelo de
propaganda tratando dos clichês sobre negros no Brasil. Com relação aos termos
politicamente corretos, ainda tenho dúvida do que seja mais adequado, por isso
me desculpem se minhas escolhas ofenderem alguém. Se eu tiver trocado as bolas,
me ensinem como devo fazer. Justifico as minhas opções lexicais: ouço a palavra
“preto” muitas vezes em frases racistas, do tipo “serviço de preto”, por isso
as mantive no discurso preconceituoso. Já “negro”, embora também possa ser
usado de forma pejorativa – tudo depende da intenção de quem diz, né –, me
parece a opção mais corrente em discursos não ofensivos, logo, é a que eu uso
normalmente.
Lugar de preto é na cozinha.
* Foto de pessoa negra na posição de dona de restaurante
chique fiscalizando o trabalho de seus funcionários.
Lugar de preto é na cadeia.
* Foto de pessoa negra trabalhando como delegada.
Lugar de preto é na rua.
*Foto de pessoa negra a) distribuindo panfletos de
conscientização política; b) criando uma obra de arte (escultura, pintura,
instalação etc.) numa praça; ou c) na posição de presidente, desfilando no
Rolls Royce no dia de posse.
A ideia é essa. Executá-la está além de minhas habilidades,
por isso, a ofereço a quem quiser usar. Se der certo, divulguem aqui nos
comentários pra eu ver.
PS: Aproveito o tema do post para indicar duas obras artísticas sobre preconceito que me comoveram muito recentemente. Uma é a série Mildred Pierce (2011), com Kate Winslet – nada a ver como o péssimo filme protagonizado por Joan Crawford (1945)! Não trata apenas da dificuldade feminina de se estabelecer economicamente pelos próprios esforços, mas da relação complicada entre mãe e filha. A crueldade de Veda (a filha) é algo que me gela o sangue até hoje. Outra indicação é o filme Selma (2014), menos comentado do que deveria. Gostei desse Martin Luther King tão humano, nos faz acreditar que coisas dificílimas podem ser realizadas por qualquer um de nós.
PS: Aproveito o tema do post para indicar duas obras artísticas sobre preconceito que me comoveram muito recentemente. Uma é a série Mildred Pierce (2011), com Kate Winslet – nada a ver como o péssimo filme protagonizado por Joan Crawford (1945)! Não trata apenas da dificuldade feminina de se estabelecer economicamente pelos próprios esforços, mas da relação complicada entre mãe e filha. A crueldade de Veda (a filha) é algo que me gela o sangue até hoje. Outra indicação é o filme Selma (2014), menos comentado do que deveria. Gostei desse Martin Luther King tão humano, nos faz acreditar que coisas dificílimas podem ser realizadas por qualquer um de nós.
PPS: Ainda sobre estas duas questões, a luta das mulheres e a dos negros, gostaria de sugerir também uma excelente autora de ficção, Flannery O’Connor, escritora americana sulista e grande fã de Martin Luther King. Estou impressionada com a capacidade dela de criar imagens literárias tão reais e dinâmicas quanto cenas de cinema! Nunca li nada parecido. Se ela fosse homem, talvez fosse mais lida e comentada. Vai saber. O fato é que seus contos completos estão publicados pela Cosac Naify, portanto, disponíveis para quem tiver o interesse de conhecer uma excelente ficcionista.
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