O homem, a Mulher, o amante, a esposa do amante e um voyeur
Um casal que dorme em quartos separados. Aliás, importante mencionar, vivem numa base militar. Ele é major, bonitão embora um tanto retraído, corretíssimo em suas tarefas (a ponto de parecer maníaco). Treina expressões no espelho, por não saber como agir naturalmente. Observando melhor, os colegas militares não o respeitam. Quando cavalga, seu traseiro se move estranhamente, os outros riem. A Mulher tem em abundância tudo o que lhe falta. Extrovertida, falante, adora galopar com seu cavalo, o imponente Firebird, e não se incomoda com a nudez – a sua ou a alheia –, pelo contrário, excita-se.
Ela tem um caso com o militar que mora na casa vizinha. Aparentemente todos sabem, mas não comentam. A esposa do amante, essa sim, é motivo de piada na base. A pobre é paranoica e pajeada por um filipino supergay (seus passatempos consistem em dançar balé e pintar aquarela). Num passado recente, a companheira cortou os mamilos com uma tesoura de jardinagem, conta o marido e completa: não consegue superar a morte da filha recém-nascida. O expectador, de um ângulo privilegiado, sabe que o maior e talvez único sofrimento dela é ver o marido traindo-a na frente do todos.
O quinto personagem, um aspirante. Não fala dez palavras o filme todo. Jovem, viril, retraído entre colegas. Solta-se apenas quando cavalga nu em pelo – ele e o cavalo. Diante da cena, o major fica transtornado, intenta censurar o rapaz. Para que?, questiona a Mulher, admirando o jeito do outro com o animal, e apontando as deficiências do marido.
Entre as tantas estranhezas do moço, a maior é o voyeurismo em relação ao casal principal. Mais adiante descobrimos que seu verdadeiro alvo é a Mulher. Passa todas as noites sentado na penumbra do quarto dela, cheirando suas roupas íntimas. Ninguém sabe disso, apenas a louca, que uma vez o flagrou da janela. (Esta história é sobre ver e ser visto, quase não se fala – exceto pela tagarelice alegre da Mulher.)
Vale mencionar que o voyeurismo começou um dia em que o rapaz trabalhava no jardim do casal e flagrou esta cena. O marido irritava-se com o jeito largado da Mulher. “Você vai receber os convidados vestida assim?”. Para provocá-lo, ela despiu-se por completo e subiu lentamente a escada. O cônjuge só olhava de longe e se contorcia furioso. Mais de longe ainda, os olhos do aspirante gravavam a imagem daquele corpo nu.
Um dia o major sai escondido com Firebird. Vingança contra a mulher que o humilha com seu jeito expansivo? Sim. E também outro motivo, que o expectador ainda desconhece. Quer provar algo para si e para o rapaz que arrancou olhares lascivos da esposa. Precisa domar o garanhão, dar evasão ao seu próprio instinto animal. Testa a coragem do cavalo fazendo-o descer por um morro, mas o cavaleiro não aguenta a resposta do bicho; na disparada, cai e é arrastado por alguns metros. Isso acontece justamente às vistas do aspirante (aliás, por que ele sempre está nu no meio da floresta?). Humilhado, o militar açoita o cavalo tantas e tantas vezes. Desnecessário. Cai em prantos. O jovem, em silêncio, aproxima-se e leva o bicho de volta ao estábulo. Sequer olha para o homem.
Quando descobre que o marido espancou o adorado Firebird, a Mulher o chicoteia. Golpes diretos na cara, no meio de uma festa, à vista de todos. Ninguém comenta o fato, apenas a própria algoz, depois, gargalhando junto ao amante.
Reviravolta. Eis que a doce e paranoica esposa traída explode por ver que todos os homens orbitam em torno da vizinha libidinosa – a louca manteve seus olhos bem abertos o tempo todo. “Ela engana não só o marido, mas também você!” Grita para o esposo. “Eu quero o divórcio!”, completa. A partir daí as coisas são meio obscuras até para o expectador. O marido a envia a um sanatório, logo em seu momento de maior lucidez, e pouco depois ela morre (suicídio? assassinato? morte natural?).
Eram cinco, ficaram quatro. A relação entre mulher e amante esfria. Este não para de lamentar a ausência da falecida e do leal filipino. O marido também muda bastante. Divaga, emociona-se até na frente dos alunos. Persegue obsessivamente o aspirante.
Uma noite como outra qualquer, o jovem invade a casa do casal principal para vigiar o sono de sua musa. Uma única diferença: o major percebe a presença dele. Os olhos brilham de ansiedade, ajeita o cabelo, acredita que enfim é correspondido. Mas o aspirante passa direto pela sua porta e adentra o quarto da mulher. O marido o segue e, abrindo bruscamente a porta do dormitório, mete vários tiros no peito do outro. Liz Taylor acorda, vê o cadáver e grita, grita, grita. Marlon Brando, com a arma na mão, desespera-se, exatamente como quando chicoteara Firebird. Não conseguindo possuir, ele destrói.
Esse é o enredo de O pecado de todos nós (Reflections in a golden eye, 1967).
Ela tem um caso com o militar que mora na casa vizinha. Aparentemente todos sabem, mas não comentam. A esposa do amante, essa sim, é motivo de piada na base. A pobre é paranoica e pajeada por um filipino supergay (seus passatempos consistem em dançar balé e pintar aquarela). Num passado recente, a companheira cortou os mamilos com uma tesoura de jardinagem, conta o marido e completa: não consegue superar a morte da filha recém-nascida. O expectador, de um ângulo privilegiado, sabe que o maior e talvez único sofrimento dela é ver o marido traindo-a na frente do todos.
O quinto personagem, um aspirante. Não fala dez palavras o filme todo. Jovem, viril, retraído entre colegas. Solta-se apenas quando cavalga nu em pelo – ele e o cavalo. Diante da cena, o major fica transtornado, intenta censurar o rapaz. Para que?, questiona a Mulher, admirando o jeito do outro com o animal, e apontando as deficiências do marido.
Entre as tantas estranhezas do moço, a maior é o voyeurismo em relação ao casal principal. Mais adiante descobrimos que seu verdadeiro alvo é a Mulher. Passa todas as noites sentado na penumbra do quarto dela, cheirando suas roupas íntimas. Ninguém sabe disso, apenas a louca, que uma vez o flagrou da janela. (Esta história é sobre ver e ser visto, quase não se fala – exceto pela tagarelice alegre da Mulher.)
Vale mencionar que o voyeurismo começou um dia em que o rapaz trabalhava no jardim do casal e flagrou esta cena. O marido irritava-se com o jeito largado da Mulher. “Você vai receber os convidados vestida assim?”. Para provocá-lo, ela despiu-se por completo e subiu lentamente a escada. O cônjuge só olhava de longe e se contorcia furioso. Mais de longe ainda, os olhos do aspirante gravavam a imagem daquele corpo nu.
Um dia o major sai escondido com Firebird. Vingança contra a mulher que o humilha com seu jeito expansivo? Sim. E também outro motivo, que o expectador ainda desconhece. Quer provar algo para si e para o rapaz que arrancou olhares lascivos da esposa. Precisa domar o garanhão, dar evasão ao seu próprio instinto animal. Testa a coragem do cavalo fazendo-o descer por um morro, mas o cavaleiro não aguenta a resposta do bicho; na disparada, cai e é arrastado por alguns metros. Isso acontece justamente às vistas do aspirante (aliás, por que ele sempre está nu no meio da floresta?). Humilhado, o militar açoita o cavalo tantas e tantas vezes. Desnecessário. Cai em prantos. O jovem, em silêncio, aproxima-se e leva o bicho de volta ao estábulo. Sequer olha para o homem.
Quando descobre que o marido espancou o adorado Firebird, a Mulher o chicoteia. Golpes diretos na cara, no meio de uma festa, à vista de todos. Ninguém comenta o fato, apenas a própria algoz, depois, gargalhando junto ao amante.
Reviravolta. Eis que a doce e paranoica esposa traída explode por ver que todos os homens orbitam em torno da vizinha libidinosa – a louca manteve seus olhos bem abertos o tempo todo. “Ela engana não só o marido, mas também você!” Grita para o esposo. “Eu quero o divórcio!”, completa. A partir daí as coisas são meio obscuras até para o expectador. O marido a envia a um sanatório, logo em seu momento de maior lucidez, e pouco depois ela morre (suicídio? assassinato? morte natural?).
Eram cinco, ficaram quatro. A relação entre mulher e amante esfria. Este não para de lamentar a ausência da falecida e do leal filipino. O marido também muda bastante. Divaga, emociona-se até na frente dos alunos. Persegue obsessivamente o aspirante.
Uma noite como outra qualquer, o jovem invade a casa do casal principal para vigiar o sono de sua musa. Uma única diferença: o major percebe a presença dele. Os olhos brilham de ansiedade, ajeita o cabelo, acredita que enfim é correspondido. Mas o aspirante passa direto pela sua porta e adentra o quarto da mulher. O marido o segue e, abrindo bruscamente a porta do dormitório, mete vários tiros no peito do outro. Liz Taylor acorda, vê o cadáver e grita, grita, grita. Marlon Brando, com a arma na mão, desespera-se, exatamente como quando chicoteara Firebird. Não conseguindo possuir, ele destrói.
Esse é o enredo de O pecado de todos nós (Reflections in a golden eye, 1967).
Antes de ser sobre ver e ser visto, me parece ser sobre recalques. (Não vi o filme, só me baseio nos seus escritos.)
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