Capitães de areia

Nessa semana fiz uma descoberta. Percebi que há um bando de garotos (de rua? Não posso afirmar, não sei se têm casa para onde voltar no fim do dia) no meu bairro. Justamente o meu bairro, que eu julgava um reduto de segurança e moralidade na grande Curitiba. Explico o ‘moralidade’: os habitantes daqui em sua maioria são velhos cujo ápice da existência é a missa de domingo. A maior parte de classe média ou alta, portanto, totalmente alérgica à miséria e a outras realidades duras. Critico, mas talvez eu já tenha adquirido essa mentalidade que atribuo à terceira idade local...

Bem, voltando ao assunto. O fato é que todo dia tenho visto em bando esses garotos. O veterano do grupo não deve ter mais do que doze anos. São entre 5 e 10 moleques, andam por aí sujinhos, maltrapilhos, mas às vezes de bicicletas – prefiro não pensar como as conseguiram. Por onde passam fazem um barulho danado e vão pedindo esmolas aos transeuntes.

Da primeira vez que os vi, fiquei preocupada. Pensei que me acuariam, arrancariam os poucos trocados que carrego para o ônibus, descobririam onde eu moro e destruiriam minha vida. Mas daí um dia a presença deles me pegou desprevenida e acabei os vendo como são na realidade. Têm grande amizade entre eles, são fortes apenas quando estão juntos, ajudam um ao outro para entrar sem pagar no ônibus. E definitivamente não são maus. Como pode ser ruim alguém que ainda brinca de pega-pega? Achei uma cena bonita ver dois deles se divertindo à solta. Mas logo em seguida fiquei apreensiva. Meu deus, eles têm casa? Como se alimentam? Usam drogas? Certamente não estão na escola, então... Que chances têm de sair dessa vida?

Mas daí eu pensei... Apesar dos apesares, viver assim livre – sem etiquetas, regras, leis de mercado – não deve inspirar vontade de querer outro tipo de vida. Mas em breve eles não serão mais crianças sem más intenções, como o bando de Jorge Amado (a inocência, sem dúvida, já perderam, como os personagens do livro do autor baiano, mas não creio que isso seja um ponto ruim; o problema será quando perderem os escrúpulos). Fiquei tão desesperada com essa perspectiva! Meu deus, salve o futuro dessas crianças! Ou mostre o que eu posso fazer.

Vim o caminho todo rezando, idiota que sou, como se isso fosse valer de algo.

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Adianta dizer que está em época de as camélias florescerem e que a cidade está linda? Será que existe mais alguém que pare no meio da calçada para admirar as camélias de quintais particulares? Se houver outro louco, que se manifeste para sermos estranhos juntos.

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Agora entendi por que jornalistas costumam morrer solteiras. Um dia explico.

Comentários

  1. Anônimo8/6/08 16:03

    por favor! me explique amanhã! hahaha
    *medo*

    toda vez que preciso ir pra faculdade à noite fico com medo daqueles caras/crinaças que ficam ali na pracinha... depois de quase ser assaltada eu me dei conta da realidade :/

    Beijo!

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  2. Su! Que frase estranha e nada animadora para terminar um texto tão bonitinho...

    E que bom que você tem amiguinhos novos na sua rua além daquela gente anciã... Em breve você também poderá brincar de pega-pega!

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