Me cago no leite da conexão 45 kbps
O título é só para expressar que quase desisti de usar Internet em casa.
Mas sabe que é maravilhoso viver como nos tempo pré-conexão rápida? Só não é às vezes, quando quase surto pensando que minha caixa de e-mails pode estar lotada de problemas que precisam ser resolvidos imediatamente. Fora isso, é ótimo estar alienada ao mundo.
Outro dia até estava de boa vontade e comprei o Estadão de domingo. Mas que porcaria, hein? Sério mesmo, não percam tempo e dinheiro comprando jornal nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Não sei dizer se é escrito por focas, se os jornalistas avacalham de propósito, se extremistas aproveitam a vista grossa do editor para expor seus ideais semifascistas... Por isso, eu apóio o movimento: “Já que (quase) ninguém lê jornal entre o Natal e o Carnaval, para que fazer o jornalista trabalhar de má vontade e produzir um punhado de piiiiii?”.
**
Capítulo 2: Fuga e rendição
Não sei dizer como chegamos a este ponto. Mas, para não acharem que eu não tenho domínio sobre a minha história, vou pegar emprestado um recurso do cinema. A última cena descrita – eu fugindo correndo – vai escurecendo lentamente até virar preto total. Um segundo de silêncio. De repente, aparecemos noutro lugar, noutro tempo (poucas horas depois, na verdade). Estamos eu, Bia, Ana e Ana P. Entramos animadas num supermercado do grupo Wallmart.
“O que viemos fazer aqui?”, pergunto um pouco confusa, embora não menos feliz.
“Compras, oras!”, me responde Ana P.
Ah, tá. Tudo esclarecido. Minhas amigas – talvez não tenha ficado claro que as três garotas mencionadas acima eram minha companheiras de presídio – tomaram a frente empurrando suas carteiras-carrinho. Não conhece esse objeto peculiar? É perfeitamente compreensível, porque foi uma invenção da Bia naquela hora. Como havíamos fugido do colégio carregando nossas carteiras, para não levantar suspeitas, fingimos que aquele trambolho era um carrinho de compras. O disfarce perfeito. Entramos no estabelecimento empurrando as carteiras-carrinho bem faceiras com a nossa genialidade.
Mas não é que uma funcionária do mercado nos descobriu? Quanta perspicácia daquela matrona vestida no ridículo uniforme da empresa (qualquer coisa semelhante ao traje clichê de uma aeromoça; e tasca sombra azul!)! Sem hesitar, ela correu até nós com passos de Godzilla e nos expulsa do lugar.
Desembocamos numa rampa interminável em forma de espiral. Eu não lembrava de ter passado por ela na entrada, mas, já que estava lá, que outro jeito havia senão enfrentá-la? Era como se estivéssemos no topo da torre de Pisa e fosse preciso descer contornando-a. O lugar era lúgubre e fedia. Havia doentes encostados na parece. Cadê Madre Teresa para atendê-lo? Minhas amigas pareciam não se importar com aqueles obstáculos. Eu, no entanto, tive medo de cair e me igualar a eles. Não, a minha juventude de tudo me pouparia. Até da moléstia e da morte.
Seguimos.
Como se já não houvesse tensão suficiente no ar, umas espécies de agente Smith apareceram. Só que não eram adultos assexuados metidos em ternos engomados, e sim figuras mais próximas a nós: os meninos da nossa turma. Bandidos! Vinham no nosso encalço, meio desajeitados dentro daquelas roupas largas Child, Drop Dead e Bad Boy. E não pareciam ter misericórdia, como as estampas das camisetas sugeriam.
Foi uma perseguição bizarra. Não só corríamos como também utilizávamos outros artifícios, como camuflagem, fingir de morto, fazer de conta que nos entregávamos e, quando os caçadores tivessem baixado a guarda, sair correndo... Essas coisas que pessoas quase-adultas fazem.
Fugíamos já há um bom tempo. A rampa parecia se aproximar do fim, assim como nosso fôlego. Sabíamos que mais um pouco e nos seria dado o golpe fatal.
Isso se não tivéssemos encontrado nosso álibi. No chão, jazia uma carta lacrada, selada e carimbada pelos Correios. Não era para nenhuma de nós. O destinatário também não era conhecido. Só vimos lá: Rio de Janeiro – RJ. Literalmente, a nossa carta na manga.
Quando um dos moleques se aproximou, o Bruninho, Ana estendeu a carta a ele.
“Veja, estava aqui no chão, mas pode ser urgente! Precisamos levar ao destinatário”.
“Tudo bem, eu levo”, respondeu ele. E nos olhando desconfiados: “Vocês prometem que vão me esperar aqui?”.
“Siiim”, respondemos no tom mais doce que pudemos alcançar. Praticamente um coro celeste.
Aliviado com a nossa garantia, ele se foi até o tal do Rio de Janeiro – RJ, que, embora nenhuma de nós conhecesse, devia ficar a mais de dez minutos dali. Tempo suficiente para sumirmos no mundo.
Quase atravessávamos o portão de saída, quando alguém nos chamou de dentro da torre. Minhas três companheiras atenderam e seguiram de volta. Eu fiquei por inércia, afinal, ninguém me deu o impulso para a direção das outras. No fim, não foi tão aborrecedor, porque não demorou mais do que cinco minutos para as meninas voltarem.
Quando as vi, todas ilesas, trazendo no colo um pequenino e gorducho filhote de cachorro, exultei. Ah, antes houvesse motivo para louvor! Nunca imaginaria por mim mesma o que vi a seguir. Ana me olhou de um jeito maligno, adiantando seus planos para aquele bichinho. Ana P. e Bia consentiram sem hesitar. Eu sacudi a cabeça.
“Não, Não!”.
“É preciso, senão nada do que passamos valerá”.
Você não acreditará no que vi então ali pertinho. Minha cara amiga Ana torceu o pescoço do bebê canino e mordeu-lhe a carne tenra do pescoço, bebendo seu sangue. Não, ela não se transformara em uma vampira. Continuava sendo a mesma Ana de sempre. O que deixava tudo pior.
Chorei desesperadamente, exatamente como choraria pela morte do mais querido dos entes. Minhas amigas, em seguida derramam lágrimas também ardidas. Só que não lamentavam o assassinato do animal, mas a minha fraqueza.
Morais da história (ou clichês para uma manifestação feminista):
1. Os meninos só são assim chatos por tédio. Dêem-lhes uma tarefa para se ocuparem, e eles nos deixam em paz.
2. Nada nos impede de sermos livres senão nós mesmas.
Mas sabe que é maravilhoso viver como nos tempo pré-conexão rápida? Só não é às vezes, quando quase surto pensando que minha caixa de e-mails pode estar lotada de problemas que precisam ser resolvidos imediatamente. Fora isso, é ótimo estar alienada ao mundo.
Outro dia até estava de boa vontade e comprei o Estadão de domingo. Mas que porcaria, hein? Sério mesmo, não percam tempo e dinheiro comprando jornal nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Não sei dizer se é escrito por focas, se os jornalistas avacalham de propósito, se extremistas aproveitam a vista grossa do editor para expor seus ideais semifascistas... Por isso, eu apóio o movimento: “Já que (quase) ninguém lê jornal entre o Natal e o Carnaval, para que fazer o jornalista trabalhar de má vontade e produzir um punhado de piiiiii?”.
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Capítulo 2: Fuga e rendição
Não sei dizer como chegamos a este ponto. Mas, para não acharem que eu não tenho domínio sobre a minha história, vou pegar emprestado um recurso do cinema. A última cena descrita – eu fugindo correndo – vai escurecendo lentamente até virar preto total. Um segundo de silêncio. De repente, aparecemos noutro lugar, noutro tempo (poucas horas depois, na verdade). Estamos eu, Bia, Ana e Ana P. Entramos animadas num supermercado do grupo Wallmart.
“O que viemos fazer aqui?”, pergunto um pouco confusa, embora não menos feliz.
“Compras, oras!”, me responde Ana P.
Ah, tá. Tudo esclarecido. Minhas amigas – talvez não tenha ficado claro que as três garotas mencionadas acima eram minha companheiras de presídio – tomaram a frente empurrando suas carteiras-carrinho. Não conhece esse objeto peculiar? É perfeitamente compreensível, porque foi uma invenção da Bia naquela hora. Como havíamos fugido do colégio carregando nossas carteiras, para não levantar suspeitas, fingimos que aquele trambolho era um carrinho de compras. O disfarce perfeito. Entramos no estabelecimento empurrando as carteiras-carrinho bem faceiras com a nossa genialidade.
Mas não é que uma funcionária do mercado nos descobriu? Quanta perspicácia daquela matrona vestida no ridículo uniforme da empresa (qualquer coisa semelhante ao traje clichê de uma aeromoça; e tasca sombra azul!)! Sem hesitar, ela correu até nós com passos de Godzilla e nos expulsa do lugar.
Desembocamos numa rampa interminável em forma de espiral. Eu não lembrava de ter passado por ela na entrada, mas, já que estava lá, que outro jeito havia senão enfrentá-la? Era como se estivéssemos no topo da torre de Pisa e fosse preciso descer contornando-a. O lugar era lúgubre e fedia. Havia doentes encostados na parece. Cadê Madre Teresa para atendê-lo? Minhas amigas pareciam não se importar com aqueles obstáculos. Eu, no entanto, tive medo de cair e me igualar a eles. Não, a minha juventude de tudo me pouparia. Até da moléstia e da morte.
Seguimos.
Como se já não houvesse tensão suficiente no ar, umas espécies de agente Smith apareceram. Só que não eram adultos assexuados metidos em ternos engomados, e sim figuras mais próximas a nós: os meninos da nossa turma. Bandidos! Vinham no nosso encalço, meio desajeitados dentro daquelas roupas largas Child, Drop Dead e Bad Boy. E não pareciam ter misericórdia, como as estampas das camisetas sugeriam.
Foi uma perseguição bizarra. Não só corríamos como também utilizávamos outros artifícios, como camuflagem, fingir de morto, fazer de conta que nos entregávamos e, quando os caçadores tivessem baixado a guarda, sair correndo... Essas coisas que pessoas quase-adultas fazem.
Fugíamos já há um bom tempo. A rampa parecia se aproximar do fim, assim como nosso fôlego. Sabíamos que mais um pouco e nos seria dado o golpe fatal.
Isso se não tivéssemos encontrado nosso álibi. No chão, jazia uma carta lacrada, selada e carimbada pelos Correios. Não era para nenhuma de nós. O destinatário também não era conhecido. Só vimos lá: Rio de Janeiro – RJ. Literalmente, a nossa carta na manga.
Quando um dos moleques se aproximou, o Bruninho, Ana estendeu a carta a ele.
“Veja, estava aqui no chão, mas pode ser urgente! Precisamos levar ao destinatário”.
“Tudo bem, eu levo”, respondeu ele. E nos olhando desconfiados: “Vocês prometem que vão me esperar aqui?”.
“Siiim”, respondemos no tom mais doce que pudemos alcançar. Praticamente um coro celeste.
Aliviado com a nossa garantia, ele se foi até o tal do Rio de Janeiro – RJ, que, embora nenhuma de nós conhecesse, devia ficar a mais de dez minutos dali. Tempo suficiente para sumirmos no mundo.
Quase atravessávamos o portão de saída, quando alguém nos chamou de dentro da torre. Minhas três companheiras atenderam e seguiram de volta. Eu fiquei por inércia, afinal, ninguém me deu o impulso para a direção das outras. No fim, não foi tão aborrecedor, porque não demorou mais do que cinco minutos para as meninas voltarem.
Quando as vi, todas ilesas, trazendo no colo um pequenino e gorducho filhote de cachorro, exultei. Ah, antes houvesse motivo para louvor! Nunca imaginaria por mim mesma o que vi a seguir. Ana me olhou de um jeito maligno, adiantando seus planos para aquele bichinho. Ana P. e Bia consentiram sem hesitar. Eu sacudi a cabeça.
“Não, Não!”.
“É preciso, senão nada do que passamos valerá”.
Você não acreditará no que vi então ali pertinho. Minha cara amiga Ana torceu o pescoço do bebê canino e mordeu-lhe a carne tenra do pescoço, bebendo seu sangue. Não, ela não se transformara em uma vampira. Continuava sendo a mesma Ana de sempre. O que deixava tudo pior.
Chorei desesperadamente, exatamente como choraria pela morte do mais querido dos entes. Minhas amigas, em seguida derramam lágrimas também ardidas. Só que não lamentavam o assassinato do animal, mas a minha fraqueza.
Morais da história (ou clichês para uma manifestação feminista):
1. Os meninos só são assim chatos por tédio. Dêem-lhes uma tarefa para se ocuparem, e eles nos deixam em paz.
2. Nada nos impede de sermos livres senão nós mesmas.
minha nossa!
ResponderExcluirno começo pensei que fosse a descrição de um sonho - já tive um desses, que a gente quer entender ou só não quer esquecer, daí escreve sobre ele.
depois pareceu-me uma história de RPG, então tornou-se RPG Vampiro e então não faço idéia.
hahahahaha
que mente fértil você tem.
Atualiza o blog e aparece no msn,sua sumida!
ResponderExcluirBy Hikaru =x
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