Regras de boa vizinhança

Resumo: um post com um quê de autoajuda, além uma indiretinha para o meu vizinho de cima e para todos que se instalaram em andares elevados como se estivessem acima da carne seca, o que também pode ser lido como metáfora social.

Quem mora no andar de cima não pode se esquecer dos que estão abaixo. Com efeito, essa pessoa que pode pagar um aluguel mais caro para morar no alto tem a obrigação moral de ser a mais altruísta de todas, pois tudo o que ela fizer interferirá na vida dos demais. Os mimos ela crê merecer, já que pagou por eles, têm um preço altíssimo na vida dos que não puderam ou não quiseram ter essas coisas. Cada desfile de salto alto para empinar o bumbum em frente ao espelho, cada móvel arrastado para melhorar o feng shui, cada aspirador ligado de madrugada porque estava com insônia, cada bolinha arremessada para seu filho (humano, animal, ou humano-animalesco), cada birra de criança à meia noite porque ela passou o dia todo ingerindo açúcar em doses cavalares e nunca ouviu um "não" na vida, cada grito com o parceiro, cada passo dado com mais energia...

Carinha que mora em cima, agora vou falar direto a você. As pessoas de baixo não suportam mais ficar de vigília junto com você só porque seu casamento é uma porcaria. O que está acontecendo, na verdade, é que seu vizinho de baixo, no caso eu, tem um ódio tremendo de você e acha seus filhos uns monstros mal-educados. Seu vizinho de baixo, por enquanto ainda sou eu, te xinga o dia todo e planeja formas de se vingar que só não executa por saber que ser você, esse merda que você é, já deve ser terrível.

Cada vez que eu escuto você fazendo sexo, eu torço para que esteja usando algum método contraceptivo, porque pessoas tão individualistas não deveriam ter tantos filhos e, bizarramente, são as que mais procriam. Fico feliz de ouvir que os seus gemidos recentes têm sido só uns rápidos e solitários no banheiro pela manhã. Sei bem que sua mulher está cansada de ter que ficar o dia todo em casa com aqueles dois monstrengos dos seus filhos, eu também estou exausta. Você pagará pelos comprimidos que eu tenho tomado por causa dessa sinfonia de horrores sobre minha cabeça à uma da manhã em dia útil? Você não se importa com ninguém, está convencido de que, por ter trabalhado duro, merece levar a vida como bem entender, não é?

Estou me mudando e preciso aproveitar esta última oportunidade para lhe agradecer por duas coisas.

Primeiro, por ter sido decisivo na minha decisão de não ter filhos. Não é nem o medo de os meus serem monstrengos como os seus, mas percebi que apartamento realmente não é o melhor lugar para se criar crianças, elas vivem estressadas e não sabem no que canalizar essa tensão. Fora que eu tenho um medo secreto. Imagine se, por uma ironia do destino, meus filhos se casassem com os seus e eu ficasse eternamente amarrada a você? Não, não, nada de filhos, pois preciso desta liberdade para ir embora, como de fato estou fazendo.

O segundo agradecimento é por você me alertar, ainda que sem perceber, para a minha responsabilidade caso eu consiga um dia morar no andar de cima -- a doce ilusão de ascensão social num país em que só ricos enriquecem. Se tive noites bem dormidas antes de me mudar para cá, foi graças a vizinhos generosos. Eu não percebia o esforço que eles faziam para não incomodar, parecia que era o estado normal das coisas... Agora, mais do que nunca, valorizo aqueles que se contêm para não incomodar os demais. Esses são os verdadeiros heróis da sociedade contemporânea, os zeladores do silêncio, esse direito universal que vem sendo diariamente atacado nas grandes cidades.

Estou indo, finalmente. Cuide bem dos meus sucessores. Você será capaz disso?

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