lunedì 26 dicembre 2016

Por que a gente curte postagens no Facebook?

Porque:
1) gostou do conteúdo.
2) quer mostrar empatia por quem postou.
3) quer se engajar ou militar em alguma causa.
4) quer ser notado e/ou gostado pelo(a) autor(a) do post.
5) não quer que pensem que você está com inveja do "amigo".
6) quer deixar claro que viu o post.
7) não quer ter que explicar por que não gostou daquilo.
8) 200 pessoas ou mais já curtiram aquilo.
9) ninguém curtiu aquilo (semelhante ao 2).
10) foi mencionado no post.

Essas foram as razões que me ocorreram. Conseguem pensar em mais alguma? Postem nos comentários!

O passo seguinte seria perguntar: quais desses motivos são os mais recorrentes?

sabato 3 dicembre 2016

Uma opinião sobre o aborto em mais de 140 caracteres

Enquanto todo mundo discute a questão do aborto nas redes sociais, eu fujo de me posicionar ali, pois, inevitavelmente, a gente acaba sendo tachada disso ou daquilo antes mesmo de apresentar qualquer argumento para defender um ponto de vista. Prefiro escrever neste espaço que acessa só quem quer, sem forçar amigos, colegas e familiares a curtirem minha opinião para que eu descubra se ela (e, consequentemente, toda a minha pessoa) é válida ou não. Nada disso. Estou segura desde já de que construí uma posição sólida, porque pensei com seriedade sobre o assunto, permitindo-me mudar de ideia quando apareciam dados convincentes e, claro, continuo aberta a ouvir outras perspectivas que apresentem informações de fonte segura para respaldá-las.

Por muito tempo repeti: sou pessoalmente contra o aborto, não o praticaria em nenhuma circunstância nem incentivaria uma mulher próxima a cometê-lo, mas quem sou eu para determinar o que as outras devem fazer? Portanto, se uma mulher decidir isso para si, nem a lei nem a minha opinião devem se sobrepor à sua decisão pessoal. Desse modo, sentia-me bem comigo e com o gênero feminino, afinal, esse discurso parecia bem coerente, não feria meus valores e, de quebra, ainda deixava clara minha discordância com essa interferência excessiva do Estado na nossa vida privada.

É muito difícil, estando ciente das condições de vida feminina na nossa sociedade, ser contra a legalização do aborto, pois seria no mínimo hipócrita da minha parte dizer a uma mulher: vamos proteger a vida! Sendo que, na prática, isso significa: você é obrigada a ter essa criança indesejada e, mesmo se não tiver condições psicológicas e financeiras de criá-la, vire-se para ser uma boa mãe, senão você será punida como uma criminosa. É fácil proteger a vida teoricamente. Agora, você vai lá limpar, alimentar, amar e educar essa criança que você “salvou”? Não vai, você está se lixando para ela, apenas joga toda a responsabilidade no colo da mãe.

Só recentemente me dei conta de que esse discurso é perigoso e, infelizmente, está desviando minhas companheiras feministas da essência do problema. Gente, porque vivemos numa sociedade desigual, que empurra toda a responsabilidade da criação dos filhos para a mãe, vamos começar a matar crianças para aliviar a pena das mulheres? O problema não é a existência dessa criança, o problema é o entendimento de que a mulher deva ser a única ou principal responsável por criá-la. O direito que deveríamos estar exigindo não é a legalização do aborto, mas que toda a sociedade se responsabilize pelos cuidados dispensados às crianças e aos jovens.

Isso, na prática, seria possível não só com a mudança do pensamento (divisão de tarefas igualitárias entre os membros das famílias), mas com a criação e a universalização de estruturas comunitárias, como unidades médicas especializadas na saúde da criança e da mulher, creches, escolas, centros culturais e esportivos, em resumo, uma gama de serviços de qualidade que possibilitariam à mulher, durante e após a gestação, seguir a vida que ela escolher para si sabendo que o filho estará bem amparado. Utópico? Então para que escreveram lá no ECA: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”? Só para enfeitar?

No papel, essas crianças já deveriam estar sendo cuidadas por toda a sociedade, mas por que continuamos delegando todo o ônus às mulheres a ponto de achar que tirar a vida do feto é igual a deliberar sobre o próprio corpo? A mãe e a criança são a mesma pessoa? No entendimento da nossa sociedade, parece que sim, de modo que até muitas feministas reproduzem o bordão “meu corpo, minhas regras”, mas não deveria ser. São dois indivíduos, por isso deve haver dois tratamentos diversos. Meu corpo, minhas regras. Corpo do bebê, regras dele.

O aborto legal não salva mulheres, já que, conforme apontam dados do Ministério da Saúde (vejam o vídeo que eu sugiro mais abaixo), a maioria esmagadora dos óbitos maternos não são decorrentes de abortos, mas de atendimento médico inadequado às parturientes. Tentei encontrar por mim mesma outros dados, mas infelizmente o site do Ministério da Saúde é desatualizado e um tanto confuso; de específico, achei só este documento, só que os dados são de dez anos atrás.

Mais uma vez, cito o ECA: “É assegurado a todas as mulheres o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde”. O descumprimento dessa lei é que mata pessoas, tanto mulheres como crianças – e cuidado, gente, pois acabamos de aprovar uma lei que corta os gastos em serviços públicos (a famigerada PEC 241/55) e temos um ministro da Saúde (vamos dar nomes aos bois, sr. Ricardo Barros) que não se conforma que o SUS não gere lucros. Em vez de lutar pela vida de todos, vamos sacrificar crianças para "aliviar a consciência", achando que ao menos as mulheres estarão sendo salvas? Com a legalização do aborto, mulheres que efetivamente querem ter seus bebês continuarão morrendo, porque o sistema público de saúde é péssimo e o particular é caríssimo. Esse é o ponto que deveria estar sendo discutido.

Amigas feministas, eu sou não o inimigo e espero que não me tratem como tal. Sou uma de vocês, uma mulher revoltada com o modo discriminatório como somos tratadas e tentando pensar em formas de a vida ser melhor para todas nós. Minha proposta é que nos direcionemos para o ponto central desta questão de maternidade (desejada ou não): em vez de legalizar o aborto, nossa vida seria muito melhor se houvesse serviços bons e disponíveis para as mães e as crianças.

E o caso das mulheres que engravidaram, por falta de informação ou descuido, e não querem o filho? Sem problema, basta que elas conduzam a gestação até o fim e depois passem o cuidado do bebê a quem o queira e seja capaz disso. Preocupada com como essa gestação afeta sua vida profissional? Pois é, mais uma vez, o problema não é o bebê, é o mercado de trabalho, que marginaliza as gestantes, tratando-as como mera despesa para a empresa. Preocupada com a discriminação por "abandonar" o filho que saiu do seu ventre (você não vai depositá-lo numa lata de lixo, certo? Então não seria abandono)? De novo, não é culpa do bebê, é da sociedade que acha que existe o tal do “instinto materno”. O amor se constrói com base na reciprocidade, as relações sociais são mais complexas do que o ideal da mãe que se sacrifica pelo filho. Não somos obrigadas a sermos amáveis nem a exercermos o papel de cuidadoras, esse fantasma "Marcela Temer" não deveria nos assombrar, precisamos exorcizá-lo de nós – inclusive da própria primeira-dama, coitada.

Meu ponto é: vamos nos concentrar nos problemas reais, por favor, em vez de achar que matar crianças resolve tudo. O buraco é bem mais embaixo. Cansei de postagens ofensivas sobre legalização do aborto, gente chamando o outro de burro e toda essa guerrinha desinformada que o Facebook é experto em proporcionar.

Segue um vídeo com dados que me convenceram de que o aborto não vai melhorar a vida de ninguém (https://www.youtube.com/watch?v=7QI5ZN9jQKI). Vinte minutos é longo demais? Claro, porque é mais fácil repetir slogans e palavras de ordem em vez de gastar um pouco mais de tempo para se informar sobre questões sociais importantes... Seu tempo, suas regras.

Ah, e o ECA na íntegra: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm. É chocante ver a disparidade entre o texto da lei e a realidade.

venerdì 18 novembre 2016

CEPíada (epopeia de uma jovem professora)


Homenagem aos 170 anos do Colégio Estadual do Paraná

― Filha, não vá nesta jornada!
A luta é árdua –
                          chorou-me a mãe.
Súplica vã:
                          jovens são surdos.
― Mestre sou, eu sei, mudo tudo.

Pura arrogância, mudei nada.
Emudeci.
                          Faltou-me esteio,
fugi rasteira.
                          Estudo indigno
foi que aprendi a amar nos livros?

Após quimeras e ciclopes,
mais favoráveis
                          ventos sopraram.
Olhos pousaram
                          numa torre alva.
Depus as armas, vi-me salva.

Este Colégio Estadual
pede olhar alto,
                          vontade régia,
tomar a rédea
                          dos próprios medos:
saber, primeiro, ser si mesmo.

Sou passageira nesta escola
e neste mundo.
                          De sala em sala
(mais outra escada!),
                          num mar de alunos,
respiro, atiro-me ao profundo.

Águas revoltas, águas calmas,
marés humanas.
                          A expressão da alma
vaza em palavras.
                          Literatura
é o que conforta esta ventura.

Meus companheiros de viagem,
jovens vivazes,
                          passam mais rápido
que eu tenho ido.
                          Ainda bem...
Saiam ao mar vocês também!

Rogo atenção, como a mãe disse,
porém não temam
                          fora daqui.
Insistam no ir!
                          Breves são dores,
risos, pessoas. Fica a história.

mercoledì 13 aprile 2016

Discurso de formatura

Homenagem a Deus
(discurso apresentado na colação de Letras da UFPR, turma 2/2015)

Como estudiosa da língua, estou ciente de que os discursos não são neutros, e sim marcados ideologicamente. Por mais que desejemos representar o todo, somos limitados por nossa história. Essa limitação humana provoca divergências até nas questões mais fundamentais. Por exemplo, a experiência do divino. Ao tentar expressá-la, acabamos nos desentendendo. O que é o divino? Onde ele se manifesta? Como devemos nos relacionar com ele? São muitas as respostas. Poderíamos passar eras discutindo, como muitos já fizeram e ainda fazem, sem descobrir qual é a certa. Deus se comunica conosco em diversas línguas, e mesmo que alguns de nós sejam poliglotas, muitas vezes somos incapazes de ouvir ou não sabemos o que fazer com aquilo que nos foi dito. Eu venho aqui numa postura humilde, assumindo a possibilidade de estar errada, e desde já peço desculpas se minhas palavras não derem conta (e certamente não darão) de expressar a religiosidade de todos aqui presentes.

Comecei falando das diferenças, agora vou tentar destacar o que há de comum entre aqueles que creem: a fé. Esse é o aspecto mais humano da experiência divina – ou o aspecto mais divino da experiência humana. Citando um trecho da carta de Paulo aos Hebreus (com a licença daqueles que seguem outros textos sagrados), explico melhor esse conceito: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb, 11:1).

Os românticos – nossos velhos conhecidos das aulas de teoria literária – leram essa tradição ao modo deles, elevando a imaginação e a fantasia, ambas forças criadoras, ao mesmo patamar do divino. E até que não soa absurdo se substituirmos, no trecho que acabei de citar, “fé” por “imaginação” ou mesmo por “arte”: A arte é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem. Sem corroborar o pensamento romântico, sob o risco cair em heresias, o que gostaria de apontar é a proximidade entre a experiência divina e a artística. As duas despertam o que há de mais sublime em nós: a beleza, o amor, a empatia, a compaixão, o desejo de justiça. Aristóteles, na Poética, nomeou essa experiência mais intensa e ampla da vida de catarse, algo que perdemos de vista quando nos limitamos aos fatos comezinhos. Essa proximidade entre arte e religião decerto não é gratuita. Entendo a arte como uma possibilidade de reencontrarmos o divino aqui e agora. A capacidade de imaginar, praticada pelos escritores que tanto admiramos e por nós mesmos em nossos momentos mais inspirados, é uma graça divina.

Deus precede o próprio tempo e está em tudo o que existe. Está no verbo que originou o mundo e no silêncio com que o contemplamos. Está na vida e na morte. Está no espírito e no corpo. Esses paradoxos da natureza divina são mistérios que só conseguimos acessar graças à imaginação e à linguagem, esses dons divinos pelos quais agradeço na ocasião de nossa formatura no curso de Letras. Obrigada, Deus, por ter nos criado seres à sua semelhança, isto é, indivíduos capazes de imaginar e conceber mundos fascinantes.

Em minha caminhada religiosa, muitas vezes me perguntei: “se Deus é perfeito e onisciente, para que verbalizar agradecimentos em público? Ele já não sabe o que se passa em nosso coração?”. Hoje entendo essa questão da seguinte forma. Não agradecemos nem louvamos para agradar a Deus. Ele não é como nós, que precisamos de elogios para nos alegrarmos. Se o louvamos é para nosso próprio bem, para nos tornarmos mais humildes e compassivos. Enquanto o mundo defende uma meritocracia quantificada pelo dinheiro, a adoração do divino nos lembra que nada do que possuímos hoje é nosso. Todas as oportunidades e as habilidades nos foram dadas de graça. Por isso, gostaria de dizer diante de todos: obrigada, Deus, pela a vida, pela inteligência e pela sensibilidade! Agradecemos para nos lembrarmos da nossa pequenez. Pequenos, sim, mas também munidos de fé. E é essa fé que nos possibilita a compreensão do infinito e nos aproxima daquele que nos concebeu.

Para encerrar, gostaria de pedir força e resiliência em nossa vida profissional. Como professores, pesquisadores, tradutores, revisores, editores ou em qualquer carreira que sigamos, precisamos da sua graça para investirmos nossas forças nas boas lutas. Que meus colegas e eu sejamos instrumentos de paz e justiça neste mundo, enquanto esperamos pelo reencontro definitivo com o divino.

Obrigada, obrigada, obrigada!

venerdì 1 aprile 2016

Mundo Chernobil

Agora em abril a Companhia das Letras lança “Vozes de Chernobil”, a tão esperada estreia de Svetlana Aleksiêvitch, a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, no Brasil. Tomei conhecimento pela revista piauí, que divulgou um trecho da obra na edição de março. Achei excelente essa prévia, tão excelente que, se eu ler o livro na íntegra, talvez nunca mais funcione. Explico melhor. A jornalista bielorrussa não apenas expõe o horror daqueles que testemunharam o desastre em 1986 como reflete sobre o abismo para o qual estamos todos caminhando. Nas palavras da autora: “Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro”.

Que abismo é esse? Um mundo construído por nós mesmos e que nos expulsa. Evoluídos, sofisticados, nós conhecemos os termos científicos que explicam todo o processo da enrascada, sem entendermos o que é essa nova realidade. Apenas seguimos e reagimos, fazendo o que temos que fazer. Construir uma redoma para isolar a fonte radioativa. Construir hospitais para isolar os homens que isolaram a fonte radioativa. Construir memoriais para isolar as saudades. Construir cidades modernas para isolar as pessoas. Construir arquivos para isolar o conhecimento.

O cenário de Chernobil é silencioso, bucólico, como o orco – vejam lá no ensaio da National Geographic. Já a cidade em que me encontro, com radiação dentro dos níveis de normalidade, é rumorosa. Corrigindo, porque rumor soa muito sutil, como o renc renc do fantasma no assoalho: Curitiba tornou-se estrondosa. O adjetivo é propositalmente ambíguo. Há quem festeje o acontecimento – até que enfim saímos do provincianismo! Eu, velha de espírito, sinto saudades do silêncio entre as 20 e as 8 horas e aos domingos o dia todo, mais ou menos como a Internet discada da minha adolescência. Esta cidade nunca cala a boca. E não estou falando de um carro solitário na madrugada, mas de uma legião que vai o tempo todo sei lá para onde. Para onde vão esses carros todos?, eu me pergunto todos os dias.

Após o desastre, a população de Chernobil foi evacuada por questão de segurança pública. Embora a minha cidade não seja radioativa, considero o êxodo como solução, pois aqui também fico doente de um modo que não sei explicar claramente – e sem palavras científicas nem parece algo real. Veja se você entende: sinto que ninguém está vivendo o tempo que lhe foi dado, todos parecem estar só correndo para um lugar que ninguém sabe bem qual é, e a vida se esvai sem que tenhamos sequer conhecido nós mesmos, quanto mais os outros. Este diálogo é um dos que mais ouço e pratico na rua: “como vai a vida?”, “só na correria, e você?”, “também”, “preciso ir, tchau”, "tchau, nos falamos depois, com mais tempo". Mas nunca há tempo, nunca falamos as coisas importantes – as conversas em que a gente se conecta com o outro são raras.

O que me prende a Curitiba? Sequer tenho um carro para estar, junto com todo mundo, sempre indo a algum lugar que sei lá qual é. Há anos penso em partir, nunca mais voltar. Penso em vidas possíveis noutras cidades, comunidades menores e mais tradicionais. Cheguei a visitar alguns desses lugares para tomar uma decisão mais embasada. Descobri que lá também tem carros e gente indo sei lá para onde. Às vezes até encontrava pessoas que não estavam sempre correndo, que gostavam de conversar, que olhavam nos olhos, que viam graça no cotidiano, e eu me enchia de esperanças. Mas como começar uma vida nova sem dinheiro?

Aí está o combustível da nossa sociedade doente, o dinheiro. Nenhuma novidade, os românticos já identificaram isso lá no fim do século XVIII. Vamos lá, lição de marxismo em um parágrafo e meio. A gente precisa comer e morar, por isso, arruma um trabalho para custear a sobrevivência. Mesmo que a profissão seja de nosso gosto e para a qual nos preparamos com dedicação (isso se tivemos sorte de vir de uma classe abastada, senão é a primeira que surge), a rotina vai minando o prazer (se é que um dia ele existiu). A gente compensa a insatisfação do trabalho no tempo livre: compra muitas coisas bonitas, tem muitas experiências deslumbrantes, beija muita gente atraente e compartilha tudo pelo iPhone para acreditarmos nisso e fazermos inveja nos outros. Para sustentar esses pequenos luxos, é preciso trabalhar mais ainda, de modo que a gente exulta quando surge hora-extra, arruma bicos nos finais de semana e nas férias. A gente trabalha pensando na próxima coisa que vai comprar e assim se mantém motivada. Pior ainda: crê-se bem-sucedida quando recebe um aumento que possibilitará comprar ainda mais coisas.

Alguém, como eu, pode decidir que não vai mais trabalhar oito horas por dia (fora as duas de ônibus, não remuneradas). Acha que recuperou a dignidade até chegar o fim do mês, quando não sabe como pagar as contas. Não tem nem para a comida e a moradia, passa o dia todo pensando em dinheiro e descobre que precisa voltar a trabalhar, pega o primeiro serviço que surge. E a roda volta a girar, não tem como sair dela senão pela revolução social. Alguém conseguiu isso na prática? Não que eu saiba, porque o dinheiro corrompe aqueles que teriam condições de liderar a revolução. Não há salvação para um indivíduo se todos não se salvarem juntos, disseram os revolucionários românticos. Talvez não haja salvação para ninguém, nunca, disse Schopenhauer.

Oscilo entre uns e outro, tendendo mais para esse último. No fundo, o sistema proposto por ele me parece o mais possível, talvez até o mais otimista: não buscar uma salvação terrena, levar uma vida ascética, combater os desejos, diminuir o sofrimento. Depende só de a gente se disciplinar. A revolução, por sua vez, acaba sempre boicotada pela ganância de um ou outro. Enquanto o humano for volúvel aos seus desejos, haverá muitos que trocarão, sem hesitar, o bem-estar coletivo pelo individual.

Chernobil, nosso ponto de partida, é o maior exemplo da falta de escrúpulos do ser humano. Já fizemos uma vez isso de trocar o bem geral por um punhado de dólares e ainda faremos outras tantas, está aí o desastre da Samarco bem recente na memória nacional. A gente não presta, e não há educação humanista, religião, poesia ou filosofia que nos salve. Aleksiêvitch escreve que, poucos dias após o incidente de Chernobil, resquícios radioativos circulavam pela atmosfera, atingindo outros continentes. Em outras palavras, não há tecnologia que isole o mal, ele chega conforme mudam os ventos, e a gente o inala e vai reagindo. Você pode pegar o carro, buzinar até estourar os tímpanos e correr (se o trânsito permitir) para um lugar que não sei qual é. O mal é muito mais antigo e duradouro. Nas metrópoles ele está explícito na feiúra do cimento, no cheiro fétido, no gosto podre da água e dos alimentos, na dor de cabeça constante. Mas ele também está na cidadezinha, mais escondido, na ignorância, na raiva, no descaso. Não há para onde fugir: os ventos circulam, o mundo é o mesmo.

Depois dessas reflexões me digam: alguém tem estômago para ler “Vozes de Chernobil”?

mercoledì 30 dicembre 2015

Por uma alimentação melhor

Na infância, minha dieta se constituía de leite com Quick Morango e mais uma colherada de açúcar, gelatina do Bocão coberta de leite condensado, Tang, sopa instantânea Knorr, Choco Krisps. E essa era a parte nutritiva, conforme anunciavam os rótulos de que nunca duvidávamos: “fonte de vitaminas e sais minerais”. Depois ainda vinham os salgadinhos e as sobremesas, ingeridas pelo simples prazer gustativo: Cheetos, sorvete Kibon, bolacha Bono, bombons Nestlé. Os refrigerantes foram os únicos que não conseguiram enganar minha mãe e, felizmente, não entravam em casa.

Mais tarde, já adulta e influenciada pelo crescimento do discurso pró-alimentação saudável, substituí essas coisas por Chocolate em pó Dois Frades, pudim de aveia Quaker, suco de soja Ades, chá gelado Lipton, barra de cereais Nutry, bolo integral Nutrella, granola Kellogs. Achava que assim havia revolucionado minha alimentação, que me tornaria mais saudável. Eu havia sido uma criança meio adoentada, sempre a primeira vítima de epidemias, fora os sucessivos desmaios que os médicos nunca explicaram direito. Mas os novos exames de sangue me desiludiram: colesterol quase estourando, déficit de vitaminas, triglicérides alta. “Como pode isso, se só como coisas saudáveis?”, eu perguntei à médica. Ela culpou a genética da minha família, repleta de diabéticos e cardíacos.

Neste ano, a leitura de alguns livros me deu a resposta tão óbvia que os médicos por algum motivo continuam silenciando: o problema são os alimentos processados. Não importa se os rótulos vendem um estilo de vida saudável, a lista de ingredientes no verso não mente: açúcar, gordura, sal e uma série de aditivos sintéticos que a gente nem sabe direito o que é. Se passou por um processo industrial é impossível que seja realmente natural. Mesmo essa nova onda de sucos 100% fruta deve ser vista com desconfiança. As vitaminas das frutas se deterioram em poucos minutos quando perdem a proteção da casca, e as fibras se arruínam na liquidificação. Suco bom é aquele feito e bebido na hora. Melhor ainda é consumir a fruta direto.

Sinto muito, adeptos da praticidade, mas não há e talvez nunca haja alimentação saudável mediada pela indústria. O jeito é ir à feira e aos mercados hortifrútis (sorte a nossa que eles ainda existam!), escolher ingredientes de qualidade, chegar em casa, armazenar com cuidado e, cada vez que tiver fome, pôr a mão na massa, picar, cozinhar, assar, usar temperos frescos. Isso não significa um retorno à escravidão do fogão, afinal, somos uma sociedade diferente (ao menos, pensamos que sim). As mulheres não têm mais a obrigação de alimentar sozinhas toda uma extensa família, trabalhem elas fora ou não. Hoje é inaceitável que os homens se esquivem das atividades domésticas. Outra vantagem atual é haver menos filhos ou até nenhum. Mais ajuda, menos trabalho.

Cozinhar não precisa ser um martírio, pode até virar um hobby como vários programas televisivos vêm mostrando, um momento de conexão com os familiares. Se a gente só come coisas prontas, perde essa oportunidade de diálogo e depois investe o tempo poupado como? Em ver TV, jogar videogame, navegar na web ou qualquer outra atividade que nos isole. Ganhamos tempo e depois temos que encontrar atividades para nos distrair, caso contrário morreríamos de tédio. Um dos tantos paradoxos da modernidade.

Os livros que me ajudaram a repensar a alimentação foram:
- “O livro negro do açúcar” (2006), de Fernando Carvalho
- “Sugar blues” (1978), de William Dufty
- “Sal, gordura, açúcar” (2015), de Michael Moss

Eles oferecem reflexões e dicas mais preciosas do que eu, uma novata do slow food, poderia dar aqui. Só me arrisco a registrar um testemunho pessoal. Faz dois meses que cortei o açúcar (branco, demerara e mascavo), farinhas e grãos refinados; mantive apenas o mel e o melado em ocasiões raras, porque têm nutrientes e aumentam minhas possibilidades culinárias. A consequência mais imediata foi a perda de peso, mesmo sem ter eliminado a gordura (descendente de italiana, uso o azeite sem dó) ou diminuído as porções das refeições. Não foi nenhum milagre, isso aconteceu graças a um mecanismo natural muito importante no controle do peso, a saciedade. Devemos comer prestando atenção ao nosso corpo; quando ele nos diz “estou satisfeito”, é hora de parar. O açúcar, porém, é uma das tantas estratégias da indústria para enganar nosso organismo: em vez de satisfazer, ele aumenta o apetite. Sabe quando você se sente estufado, mas repete o prato só porque está bom? Pois é, isso dificilmente ocorre com frutas, saladas e grãos integrais, por mais que eles estejam saborosos, mas acontece com massas e doces. Não é gratuito, esses produtos foram pensados para ser assim: insaciáveis ainda que altamente calóricos.

Outras consequências do corte de açúcar foram a cura da minha rinite alérgica (em plena primavera! Agora posso parar de odiar essa estação do ano...), o alívio dos incômodos físicos antes e durante a menstruação, o aumento de energia à noite e, consequentemente, da produtividade em atividades físicas e intelectuais. A longo prazo, espero fugir do destino da família e não ser diabética nem cardíaca.

Outro dia, em uma entrevista, Bela Gil explicava por que não queria se enquadrar em um movimento específico (vegano, macrobiótico etc.). Ela come com moderação tudo aquilo que faz bem ao seu corpo e se, de vez em quando ingere algum quitute (um doce ou uma bebida alcóolica), é capaz de perceber o efeito disso. Nesse Natal, constatei que ela está certa. Quando a gente para de comer alimentos processados, as nossas papilas gustativas ficam mais sensíveis, não sentem falta de sal e açúcar e descobrem outros sabores. Aí, quando você come um doce numa ocasião especial, uma colherada que seja, é como uma explosão no seu organismo: primeiro um gosto muito forte, depois um aumento súbito de energia, seguido por uma sonolência. Em resumo, você fica tão desintoxicado que consegue se drogar até com um bombom! Nossa sociedade, pelo contrário, está tão embotada de estímulos, que os 32 quilos anuais de açúcar que cada pessoa consome não fazem nem cócegas.

E se me vierem com o argumento “não tenho tempo nem dinheiro para preparar comida saudável”, vou lhes apresentar à boa e velha fruta. Compre as da estação, que são as mais baratas, sendo que muitas não dão o trabalho nem de abrir a embalagem, é só morder.

Ficam pendentes ainda questões sobre o consumo de carne repleta de hormônios e vegetais cheios de agrotóxicos. É possível ter uma alimentação apenas orgânica? Quero dizer, é economicamente viável em larga escala ou apenas um luxo para minorias? Apesar de a oferta de produtos sem aditivos químicos ter aumentado, o preço ainda não cabe no meu bolso, mas acredito que, quando essa se tornar uma prioridade na alimentação do brasileiro, talvez se encontre a tal viabilidade econômica – sim, dinheiro manda na nossa vida mesmo quando a gente não dá muita bola para ele. No meio tempo, faço o que posso e vou percebendo a diferença de tratar o meu corpo com o respeito que ele merece.

domenica 4 ottobre 2015

Uma ideia para a educação

Outro dia me ocorreu que é preciso ter coragem para fazer mudanças radicais no sistema de ensino, coragem que ninguém teve até agora. Por enquanto, ficamos em timidezes como aumentar o repasse nacional de verbas (e, logo depois, cortar), implantar um currículo parcialmente unificado (ainda em discussão), incentivar professores a se afastarem para especializações, sendo que, quando voltam para a sala de aula, reencontram as mesmas condições de trabalho e precisam se readaptar a elas. Não é isso que vai criar uma pátria educadora.

Na verdade, essas pequenas mudanças são apenas um alívio de consciência para os gestores de educação – para não os acusarmos de não terem tentado. Sequer chegam a tocar no problema maior: nosso sistema de ensino básico, e até o técnico e o superior em muitos casos, é uma linha de produção. Às 7h15, uma dose de binômio de Newton; às 8h05, um toque de fenóis; às 8h55, uma amostra dos milhares de tipos de concordância verbal de sujeitos compostos; às 9h45, atualizar Whatsapp e Facebook; às 10h, pela milésima (mas não última) vez, uma pitada de Simple Past x Present Perfect; às 10h50, uma porção light de Durkheim; às 11h40, um bocadinho de campos elétricos. Pronto, às 12h30 sai o aluno acabado (em todos os sentidos), mais próximo da máquina brilhante que ele se tornará no fim do Ensino Médio.

Poucos realmente se moldam conforme os planos da escola. Esses são os alunos que entrarão nos cursos mais concorridos das boas universidades públicas, e é dessa minoria que eu sinto mais pena: mentes brilhantes (e tão persistentes, para terem aguentado aquilo tudo) moldadas para pensar sempre dentro da caixinha. A maioria dos estudantes, instintivamente, percebe que tem algo muito errado ali e vai se desencantando da escola ao longo da adolescência. Alguns, com sorte, criticarão o sistema por dentro, tentando implodi-lo. São os alunos que questionam os professores, expressam opiniões diferentes da maioria, se recusam a acreditar na receita de bolo da escola e determinam sua própria formação pessoal (por leituras, filmes, músicas, conversas, viagens etc.). Uma grande parcela, contudo, mesmo achando a escola “nada a ver”, atribui a falta de sucesso escolar a si própria e se conforma em trabalhar em profissões desprestigiadas e mal remuneradas. Por fim, um pequeno grupo, passa toda vida escolar away, não consegue se encaixar nas opções profissionais que a sociedade oferece a alguém com “instrução rasa” e, em vez de lutar pelo seu espaço, aceita viver na marginalidade.

Queremos mudar mesmo a educação do nosso país, ou só fingir que uma autoridade mais preparada está resolvendo a questão? Eu posso ser uma ninguém, mas tenho um cérebro, então gostaria de dar uma ideia para os senhores do MEC: chega desse sistema de ensino dividido em disciplinas! O conhecimento é múltiplo e se origina da curiosidade humana de querer saber mais sobre si e o mundo. A escola apresenta os resultados das investigações dos pensadores do passado, mas mata a possibilidade de os alunos seguirem seus próprios interesses, darem continuidade à história do conhecimento. Na minha opinião, o ideal seria usar o período escolar para que os jovens, em grupos pequenos orientados por um professor, desenvolvessem projetos de pesquisas interdisciplinares que durariam períodos médios de tempo.

Um exemplo de aula para o Ensino Médio: quatro meses para estudar fontes de energia. Nesse tempo, o professor (com formação em engenharia e especialização em educação) sugeriria leituras sobre a história dos meios de produção energética, analisaria o impacto econômico de cada uma, reforçaria conceitos de matemática e física que fossem necessários para entender o funcionamento desses mecanismos, levaria os alunos para conhecerem a Itaipu e outros sistemas de geração de energia, auxiliaria os estudantes na escrita de projetos e na concretização de protótipos.

Ideia maluca? Cara? Impraticável? Talvez. Mas, se a gente sabe que do jeito atual não está funcionando, ou admitimos que não queremos nada melhor ou mudamos – e não superficialmente, mas a partir da fundação do sistema. Tenhamos coragem, levantemos ideias ousadas, por mais que, na nossa época de estudante (e foram 12 anos sentados em bancos escolares!), nos tenham desestimulado a pensar diferente daquilo que estava escrito nos livros. Oras, escrevamos nossos próprios livros, então!

Alô, alô, elite do nosso país: não estou falando só de escola pública, onde estão os filhos dos seus empregados, estou falando também dos colégios privados, até daqueles caríssimos, que também adotam o sistema “linha de produção”. Eles colocam aulas de teatro, dança e atletismo no contra-turno para vocês acharem que seus filhos estão tendo um ensino muito inovador; você paga uma nota preta no fim do mês e dorme feito um anjo à noite, acreditando que é isso mesmo, que está garantindo o melhor para o seu filho. Eu vim para dar a má notícia: acorda, acorda, acorda!

martedì 1 settembre 2015

Para que servem os professores de português?

Examinando um site de concursos públicos, constatei que a demanda por professores de ramos técnicos e científicos é muito superior às vagas de língua portuguesa, justo essas que eu procuro. Após desistir do jornalismo, devido ao encolhimento da mídia impressa e ao meu desinteresse por comunicação empresarial, encarei uma segunda faculdade (Letras) e, às vésperas de me formar, levo esse baque de novo. Ora, eu tinha raciocinado quatro anos atrás, enquanto o ensino básico fosse obrigatório e o português integrasse o currículo, professores seriam sempre necessários!

Parece que não.

O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ideia da “solução” adotada. No ramo privado, o problema é outro: exigem indicação e/ou comprovação de experiência, um repelente aos novatos sem amigos ilustres feito eu.

Outra possível causa para a escassez de vagas na rede estadual foi a redução da carga horária de português após a entrada de novas disciplinas humanísticas no currículo: filosofia, artes e sociologia. No Ensino Médio, são apenas duas aulas de português por semana. Bom, se a grade ficou assim, certamente há quem veja vantagem nesse arranjo, e até imagino os argumentos: português não ensina nenhum conteúdo, apenas uma forma; todo mundo sabe português; qualquer um pode melhorar o português sozinho, basta ler mais; leitura é uma prática individual; todos os livros clássicos de literatura já estão explicados pela crítica, basta repetir o que ela diz.

Disso tudo, eu concordo apenas com uma coisa: todo mundo sabe português. Oras, somos falantes nativos! Muitas vezes, a escola, em vez de melhorar a proficiência nas várias modalidades da língua, convence o aluno de que aquilo que ele fala não é o “verdadeiro português”. Isso remete a uma ideia muito tradicional de professor de língua: aquele sujeito que sabe o significado de todas as palavras, que não erra uma concordância e que recita de memória os grandes clássicos da literatura nacional. Eu achava que isso já estivesse superado, dado que o Plano Curricular Nacional não incentiva mais o ensino de gramática normativa, e sim o estudo de variadas expressões da língua devidamente contextualizadas.

Parece que não.

Descobri que a gramática normativa ainda está com a bola toda quando comecei a dar aulas de reforço. Não tenho nenhuma reclamação contra o lugar onde trabalho (pelo contrário, adoro o ambiente!), até porque eles não trabalham com currículo próprio: as aulas são preparadas de acordo com a demanda da escola de origem do aluno. Assim, minha crítica se direciona aos colégios em si. Ao entrar em contato com o material didático das escolas mais conceituadas (e caras) de Curitiba, descobri que é tudo a mesma coisa: no sexto ano, os alunos têm que saber os tipos de pronomes; no sétimo, classificação de conjunções; no oitavo, a diferença entre sujeito e agente da passiva; no nono, os tipos de orações subordinadas etc. etc.

Há vantagem em pagar colégio particular se o currículo de português é tão retrógrado? Talvez as outras disciplinas compensem, com boas estruturas laboratoriais e esportivas, não sei. O fato é que, ricos ou pobres, a grande maioria dos alunos está recebendo uma formação precária de português. Sorte a deles serem falantes nativos, assim podem se virar na comunicação diária. Agora, eles vão ler bem? Vão escrever textos em que consigam dar forma para a riqueza de seus pensamentos e emoções? Vão se fazer entendidos na expressão oral? Não sei. Será que dá para contar com a sorte sempre?

Parece que não.

Afinal, qual é a função do professor de português? Se for só para ensinar um monte de nomenclatura gramatical, o que contribui muito pouco para a melhoria da leitura, da fala e da escrita, então concordo que somos desnecessários – duas aulas são até demais! Do jeito que se ensina o português, estamos aqui só para aborrecer e silenciar os alunos. Tudo isso já foi melhor discutido por Bagno e Perini (informem-se). No meio acadêmico é até uma questão superada, a escola é que a mantém viva. Só consigo pensar em um motivo para essa resistência: em turmas que variam de 30 a 200 alunos, é mais fácil ensinar e avaliar regras gramaticais do que leitura e escrita.

Já na escola pública, não há a exigência curricular de se ensinar gramática, mas muitos professores (os ruins) entendem isso como “vamos sentar aqui e conversar sobre qualquer coisa, afinal, na prova é só interpretar os textos, e não tenho como ensinar isso”. Os alunos leem pouco, escrevem menos ainda – basta ver a letra da maioria: grande, desajeitada, indicando a falta de intimidade com a caneta – e, quando escrevem, os professores só dão um visto ou atribuem uma nota, sem qualquer comentário que ajude no aperfeiçoamento.

O caminho ideal, aquele que, a meu ver, resgataria a serventia do professor de português, seria a prática intensa de leitura, debates e escrita. O professor, com a ajuda de monitores (condição essencial, já que o volume de trabalho é muito grande), conheceria intimamente as características de cada aluno e lhes daria feedbacks personalizados. Nas aulas, se fortaleceria a noção de que a língua é uma construção coletiva e de que os textos discutidos em comunidade, em especial os literários, adquirem mais valor – não são apenas um prazer solitário, dizem respeito a todos nós. Ao fim da vida escolar, o jovem teria intimidade com textos de diversas modalidades e teria condições de responder (a atitude responsiva dos gêneros, tão enfatizada por Bakhtin) usando a expressão mais adequada para a situação. Ele sairia proficiente em uma grande quantidade de “portugueses” e munido de estratégias de leitura que o habilitassem a continuar aprendendo sozinho na vida adulta.

Bom, mas cá estou eu repetindo coisas que já estão no PCN. Vivemos num país em que se tenta promover justiça e igualdade por meio de despachos oficiais. “A partir de hoje, todos serão ótimos leitores, oradores e escritores”, decidiu algum doutor a respeito da massa de iletrados – problema resolvido! Pronto, agora todos já dominam as diversas modalidades da nossa língua! É por isso que não há vagas para professores de português, está explicado! Talvez seja o caso de arriscar minha terceira graduação. Desta vez, preciso ser esperta, nada dessas futilidades de Humanas, talvez alguma Engenharia. O país precisa é de tecnologia, produtos inovadores, facilidades, modernidades, toda essa geringonça que nos mantenha ocupados, para não pensarmos quem somos, quem é o outro, o que queremos, do que precisamos, para onde vamos etc. etc. Deixemos que o Google decida por nós: você quis dizer Candy Crush?

Autoconhecimento? Oxe, tem tudo sobre mim lá na minha página do Facebook, vê lá, curte lá.

PS: Nem tudo vai mal. Eu agradeço à gramática por dar um nó na cabeça da molecada, assim eles solicitam as aulas que põem o pão na minha mesa. Quando algum aluno ou pai mais sensato percebe o problema é a redação, eu tenho que lhe explicar que uma aula não vai transformá-lo em Rui Barbosa (quem, a praça?), mas que será preciso anos de prática. Aí ele pode pensar que eu estou sendo gananciosa, que quero forçá-lo a marcar mais aulas. Problemão, né? Gramática não tem erro, tem gabarito, dá para ensinar em uma hora.

PPS: Desabafo escrito no clima de “Como ficar sozinho”, ótima coletânea de ensaios sobre os tempos atuais escritos por Jonathan Franzen.

venerdì 28 agosto 2015

Os Arnolfini


Mulher vestida de azul e lenço branco, 
Não fossem manto de veludo verde, 
Metais no punho e no pescoço, rendas, 
Na Renascença, a virgem Mãe seria –
Adolescente com tão dura sina.
Toma-lhe a mão o homem que compra tudo.

Noiva amorosa a se entregar inteira
A tal sujeito, Carniceiro-Mor. 
E o troco dele? Nem sorriso volta. 
Rico não sofre culpa: pilha ouros, 
Assina acordos, tranca em cofre todos. 
Cada estação, o homem só veste luto.

N’águas vermelhas, ela nasce Vênus.
Promessas velhas renovadas sempre –
Todo o poder e a glória, a prole e o nome.
Nem assim fica satisfeito, o rico
Não ri. Até afeto poupa o rídico.
Salve esta bela união: bens conjuntos.

Graça da casa, o cachorrinho dela, 
Atrevidinho vem, amor da moça. 
Mete-se à frente de qualquer humano, 
Hierarquia interespécie ignora.
“Nojo me dá tanto xodó, senhora”.
Nada suporta um homem tão casmurro. 

A dama brilha no pincel do intruso, 
O que vê tudo, e tudo dá a ver. 
O artista cria perfeição, decoro 
De academia foi o senhor que quis, 
mas grita o gênio atrás: “estive aqui!”
Um homem posa; o outro ri ao fundo. 

“Ali no canto, é seu tamanco, musa?” 
Pobre pintor! Onde está pé desnudo, 
Bem precioso que o veludo encobre?
O admirador, por fim, diz: “Venha, amiga!
Ao carrancudo cansam obras-primas. 
Se ele não olha, você ganha o mundo”.

PS: Já tive a oportunidade de visitar alguns museus fabulosos, mas a National Gallery provavelmente é meu favorito. Ali naquele acervo no centrão de Londres, a gente encontra essa pequena (em sentido literal) joia de Jan van Eyck, The Arnolfini Portrait. Nunca soube explicar por que o quadro me fascina tanto, até que eu decidi tentar. Foi daí que veio este poema, infelizmente muito inferior à tela.

mercoledì 19 agosto 2015

O estranho

Dentro de uma galeria comercial, dessas que cortam prédios ligando duas avenidas, descobri uma pequena lanchonete. Deve ser suja – não era. Então deve ser cara – também não era. Fiquei. Pedi pão-de-queijo e laranjada e me acomodei numa mesa de canto, de frente para a porta.

O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas.

Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam sozinhos e encaravam o vazio, ruminando esfihas, bolinhos, mistos, sanduíches sortidos. Logo, porém, fui flagrada nessa posição indiscreta e, como não me responderam com sorrisos amistosos, baixei meus olhos para o pão-de-queijo e laranjada, que tinham finalmente chegado.

Sentia, por dentro, a massa gordurosa preenchendo a barriga e, por fora, a clientela me envolvia indistinta. Ouvi passos vindo direto para minha mesa. Alguém parou bem atrás de mim, eu intuía um par de olhos fixos nas minhas costas, decerto era um amigo que me pregaria uma brincadeira. Nada aconteceu, comecei a ficar tensa. O sujeito avançou para a cadeira à minha frente, também parecia tenso, sentou-se e disse:

― Eu sempre sento aqui – e se entregou ao seu x-salada.

Atestei que não se tratava de um conhecido, apesar de se parecer com as pessoas com quem convivo: trinta e poucos anos, cabelo loiro-ninho, óculos Lennon, mochila de escalada a tiracolo. Esperei que ele fizesse algo louco, como me encarar ou até mesmo conversar. O fato é que ele não ligava para mim, apenas comia seu lanche muito satisfeito.

Matei meio copo de suco num gole, paguei a conta e saí pensando naquele homem esquisito. Esquisito por quê? Por sentar na mesa de uma desconhecida quando havia outras disponíveis? Não. Esquisito por fazer o que fosse preciso para manter um hábito. Que importava a cadeira? Tinham que importar, isso sim, as pessoas, o afeto que desenvolveríamos uns pelos outros. E, no entanto, quando alguém se destaca da massa-corrente, chega bem perto, parece estranho, fica difícil amá-lo assim.

Saí da galeria, a luz da rua me cegou por uns instantes, relembrei os assuntos que tinha para resolver.