Postagens

Uma questão de método

Depois de inúmeras crises existenciais nos últimos meses, cheguei a um dilema que, acredito, é a base de todos os outros. Alguém tem um palpite de como resolvê-lo a fim de levar uma vida menos sofrida e mais significativa?

Segue. O melhor método para se viver é: a) assumir nossa fragilidade e excessiva dependência do afeto alheio, estabelecendo o maior número de conexões com as pessoas para se cercar de uma rede de proteção emocional, ou b) cortar de vez todos esses vínculos, viver radicalmente a solidão para se fortalecer fora da ilusão de que haja uma possibilidade de salvação individual?

(Como os últimos, imagino que os próximos posts devem seguir nesta linha, estão avisados.)

Como encontrar um bom companheiro

Imagem
“Melhores sites de encontro”, “Como conhecer homens”, “Sites de encontro para pessoas inteligentes”, “Experiências afetivas autênticas”. Acabo de confirmar que o Google não tem resposta para tudo, ao menos não conseguiu responder a essas pesquisas satisfatoriamente, por isso escrevo este texto. Quando vocês fizerem as tais buscas e também se frustrarem com os resultados, me encontrarão aqui, igualmente frustrada, então poderemos sentar e conversar sobre aquilo que nos chateia ou só ficarmos em silêncio, nos sentindo menos pressionados ao perceber que esse não é um problema exclusivo nosso. Talvez esta seja até uma das grandes questões do nosso tempo. Podem estranhar: encontrar namorado é a grande questão da atualidade? Não diretamente, mas tem relação, sim, já explico.

Não é segredo para ninguém que as redes sociais atingiram seu sucesso com base na solidão e nas inseguranças de seus usuários. Basicamente todos se sentem mal com relação à própria vida em algum momento (ou quase sempr…

Crise existencial acadêmica

Imagem
Alguém se reconhecerá no desabafo abaixo? Pensei em dividir estas angústias para lhes dizer: não estamos sozinhos em acharmos que estamos sozinhos. Porém, mesmo não estando sozinhos no sofrimento, a sensação de solidão ainda é imensa, então não acaba sendo verdade que estamos mesmo sozinhos? Bem-vindos ao clube da eterna crise da pós-graduação! E olhe que nem comecei o doutorado ainda...
Diálogo mental com meu escritor favorito (preencha aqui o nome de sua preferência):
Você que chegou lá, que eu tanto admiro por publicar livros de verdade, me diz como se faz para atingir um ponto em que você se sente seguro de que sabe muitas coisas ou pelo menos sabe muito bem poucas coisas? Quanto mais eu leio e penso, mais evidente fica minha ignorância sobre tudo. Isso na boca de um Sócrates, cujo valor intelectual está bem provado, parecem palavras de sabedoria, mas num contexto de modernidade, em que você é um novato precisando provar para pessoas capacitadas a sua capacidade quando você mesmo…

Minha súdita

Imagem
Outro dia assisti ao filme “Meu rei” por indicação de um amigo. Perguntei de que se tratava, ele disse que era um drama francês sobre relacionamentos. Com essas indicações vagas, comecei a vê-lo. As primeiras cenas mostram uma mulher fazendo tratamento para recuperar o joelho (são cenas fortes, demos graças a Deus pelos ligamentos sãos que evitam nosso joelho de dobrar para frente...) e essa mesma personagem cerca de dez anos antes, quando ainda não era mãe. Seu nome é Toni, ela é advogada, parece divertida e segura de si. Na fase da juventude, ela conhece Georgio, formando aquele casal autêntico, cujos encontros iniciais são meio doidos e que a gente acompanha com um sorriso no rosto. Assim segue a narrativa, intercalando o presente (tratamento ortopédico) e o passado, que vai avançando ao encontro do momento atual. O espectador rapidamente entende que essa é a história de como aquele relacionamento começou e se deteriorou. Não posso reclamar de propaganda enganosa, de fato, trata-s…

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida.

A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou!

Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos!

Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições para…

Discurso de premiação do Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Clève 2017

Nota preliminar:

Meu conto "O chiqueiro" foi classificado em quarto lugar no Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Cléve deste ano. Eu descobri que não teria direito a publicação quando anunciaram o resultado e que eu apenas receberia um certificado na cerimônia Mulheres Paranaenses, tirariam uma foto minha (aqui: http://www.unibrasil.com.br/noticias/detalhes.asp?id_noticia=14523) e era só isso. Então comecei a imaginar como seria bom se eu pudesse me fazer ouvida naquele evento por cinco minutos que fossem. A partir desse cenário hipotético, escrevi o discurso que se segue, imprimi-o e levei-o na bolsa. Claro que não tive direito à palavra, por isso posto o texto abaixo para conhecimento amplo.


Para não dizerem que eu sou muito intransigente com os organizadores do evento da Unibrasil, devo confessar minha emoção ao ver uma mesa de homenageadas composta apenas de mulheres ilustres em suas áreas de atuação. Gostaria que aquela não fosse uma exceção devida às comemorações do 8…

O chiqueiro: esboço de uma nova teoria do afeto humano

Imagem
Quatro ou cinco profissionais do Judiciário debatiam, numa tarde de domingo, questões da mais alta importância nacional, como o preço da soja, os novos modelos de colheitadeira, a ignorância do povo em geral. Explico aparentes incoerências. Primeiro, não estavam em seus escritórios e gabinetes como os cargos fazem supor, afinal, era dia de descanso; encontravam-se, isso sim, num leilão de gado promovido pela igreja matriz de Ângulo, embora nada impedisse que também conversassem sobre aqueles assuntos em seus locais de trabalho, como de fato faziam. Segundo, o número de participantes da conversa oscilava devido à natureza do evento, em que os lances disputavam a atenção desses fazendeiros de fim de semana, ávidos por aumentar seus rebanhos. Um pouco mais, um pouco menos grisalhos, eram cidadãos de bem: um juiz, dois advogados e um cartorário, além de um sujeito que ninguém sabia exatamente o que fazia, mas que tinha sido incorporado à roda por sua constância no fórum, onde aparecia de…

Uma opinião sobre o aborto em mais de 140 caracteres

Enquanto todo mundo discute a questão do aborto nas redes sociais, eu fujo de me posicionar ali, pois, inevitavelmente, a gente acaba sendo tachada disso ou daquilo antes mesmo de apresentar qualquer argumento para defender um ponto de vista. Prefiro escrever neste espaço que acessa só quem quer, sem forçar amigos, colegas e familiares a curtirem minha opinião para que eu descubra se ela (e, consequentemente, toda a minha pessoa) é válida ou não. Nada disso. Estou segura desde já de que construí uma posição sólida, porque pensei com seriedade sobre o assunto, permitindo-me mudar de ideia quando apareciam dados convincentes e, claro, continuo aberta a ouvir outras perspectivas que apresentem informações de fonte segura para respaldá-las.

Por muito tempo repeti: sou pessoalmente contra o aborto, não o praticaria em nenhuma circunstância nem incentivaria uma mulher próxima a cometê-lo, mas quem sou eu para determinar o que as outras devem fazer? Portanto, se uma mulher decidir isso para …

CEPíada (epopeia de uma jovem professora)

Imagem
Homenagem aos 170 anos do Colégio Estadual do Paraná
― Filha, não vá nesta jornada!
A luta é árdua –
                          chorou-me a mãe.
Súplica vã:
                          jovens são surdos.
― Mestre sou, eu sei, mudo tudo.

Pura arrogância, mudei nada.
Emudeci.
                          Faltou-me esteio,
fugi rasteira.
                          Estudo indigno
foi que aprendi a amar nos livros?

Após quimeras e ciclopes,
mais favoráveis
                          ventos sopraram.
Olhos pousaram
                          numa torre alva.
Depus as armas, vi-me salva.

Este Colégio Estadual
pede olhar alto,
                          vontade régia,
tomar a rédea
                          dos próprios medos:
saber, primeiro, ser si mesmo.

Sou passageira nesta escola
e neste mundo.
                          De sala em sala
(mais outra escada!),
                          num mar de alunos,
respiro, atiro-me ao profundo.

Águas revoltas, águas calmas,
marés humanas.
                     …

Discurso de formatura

Homenagem a Deus (discurso apresentado na colação de Letras da UFPR, turma 2/2015)
Como estudiosa da língua, estou ciente de que os discursos não são neutros, e sim marcados ideologicamente. Por mais que desejemos representar o todo, somos limitados por nossa história. Essa limitação humana provoca divergências até nas questões mais fundamentais. Por exemplo, a experiência do divino. Ao tentar expressá-la, acabamos nos desentendendo. O que é o divino? Onde ele se manifesta? Como devemos nos relacionar com ele? São muitas as respostas. Poderíamos passar eras discutindo, como muitos já fizeram e ainda fazem, sem descobrir qual é a certa. Deus se comunica conosco em diversas línguas, e mesmo que alguns de nós sejam poliglotas, muitas vezes somos incapazes de ouvir ou não sabemos o que fazer com aquilo que nos foi dito. Eu venho aqui numa postura humilde, assumindo a possibilidade de estar errada, e desde já peço desculpas se minhas palavras não derem conta (e certamente não darão) de exp…