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Regras de boa vizinhança

Resumo: um post com um quê de autoajuda, além uma indiretinha para o meu vizinho de cima e para todos que se instalaram em andares elevados como se estivessem acima da carne seca, o que também pode ser lido como metáfora social.

Quem mora no andar de cima não pode se esquecer dos que estão abaixo. Com efeito, essa pessoa que pode pagar um aluguel mais caro para morar no alto tem a obrigação moral de ser a mais altruísta de todas, pois tudo o que ela fizer interferirá na vida dos demais. Os mimos ela crê merecer, já que pagou por eles, têm um preço altíssimo na vida dos que não puderam ou não quiseram ter essas coisas. Cada desfile de salto alto para empinar o bumbum em frente ao espelho, cada móvel arrastado para melhorar o feng shui, cada aspirador ligado de madrugada porque estava com insônia, cada bolinha arremessada para seu filho (humano, animal, ou humano-animalesco), cada birra de criança à meia noite porque ela passou o dia todo ingerindo açúcar em doses cavalares e nunca ouvi…

Janelas provisórias

Eu tenho duas janelas, enormes, pelas quais o sol da manhã inunda meu quarto-apartamento. Esse foi o principal motivo para eu ter me mudado para cá. A vista anterior, um muro e uma gaiola com uma calopsita berrando, quando penso nela, nas raras vezes em que faço isso, parece irreal, como um pesadelo que se dissolveu no momento em que abri os olhos, despertada por este sol que me toca todas as manhãs.

Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo, seu favorito é o de mexerica. Ela aceita qualquer oferta e volta a dormir.

Esta é uma janela provisória. É boa, mas não sei por quanto tempo poderei continuar aqui. Me preocupa deixar quase todo o meu salário nas mãos do se…

Para que investir em humanidades e artes?

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Grande dia! Hoje havia papel e sabonete no banheiro da biblioteca da UF**. É raríssimo haver os dois, ainda mais no masculino. Tenho usado o masculino, porque o feminino está interditado desde o começo do semestre, sem previsão de conserto. Saindo de lá, pude voltar toda minha atenção para a leitura de Richard Rorty, já que não precisaria gastar energia mental pensando nos germes que eu carregava após uma ida ao banheiro sem os utensílios básicos de higiene. Hoje não!

Com as retaliações, quero dizer, as contingências no Ensino Superior, muitos universitários têm ido a público para demonstrar a importância de suas pesquisas para a sociedade. Eu, como doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e bolsista da Capes, me sinto na obrigação de fazer o mesmo. Só temo não conseguir fazer isto tão rápido, angariar simpatias já à primeira vista. Tenham paciência para ler este texto e talvez, até o fim dele, quem sabe...

Durante a minha pesquisa, não uso jaleco, nem bisturi, nem p…

MCK - Te odeio 2016

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Descobri esse rapper angolano maravilhoso, o MC Kappa. Dois mil e crise e dois mil e escassez continuam rolando. Quando vai acabar, meu Deus?


Letra: TE ODEIO, 2016

Refrão:
Quero regressar pra dois mil e Katrogi (2014)
Dois mil e crise (2015) foi horrível
O que será de dois mil e escassez (2016)?

1 verso
2015 foi um ano pra esquecer
Osso duro de roer
Arca sem Noé, cortes no OGE
Quadra sem Moet, Tugas tiraram o pé, cenas falidas bué...
O novo ano não trará nada de novo
Além de desespero e mais tristeza pra esse povo
Orçamento revisado, ano de exercício
Subiram os combustíveis logo no início
Divisas na dibinza, o dólar só dispara
Água está mais cara
Comida está mais cara
Energia está mais cara
A propina está mais cara
A linha está mais cara
Farinha está mais cara
O preço inflama a cara, tara
TPA 1 e 2, só mascará...
Tudo subiu, salário nem já
Meus manos estão na Kuzú, liberdade já!
Domiciliária nah...
Liberdade Já!
São multas, são taxas, impostos e alfândegas
O Estado está dar palmatória…

Domingo de Ramos

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É preciso explicar que eu não suporto multidões e passei a vida toda criando estratégias para sobreviver às situações em que não pudesse evitá-las. A missa dominical é uma dessas ocasiões. Costumo chegar uns dez minutos antes para garantir um bom lugar, o que, no meu caso, significa sentar perto do corredor e da porta. Assim eu tenho a sensação de que, se as pessoas saírem do controle, conseguirei escapar correndo, mas não pode ser tão ao fundo a ponto de eu ver toda aquela gente diante de mim. É uma operação que exige certo cálculo.

Então vocês podem imaginar minha reação quando, estando eu tão bem acomodada, uma ministra anunciou que a missa começaria do lado de fora e que entraríamos todos juntos em procissão. A igreja não é muito grande, quem chega atrasado sempre fica em pé. Saí bufando, mas fui. Recomecei os cálculos. O ponto de encontro ficava na calçada a uns 100 metros da igreja, procurei ficar mais ao fundo e próxima ao meio fio, para que eu pudesse escapar pela rua se nece…

Ouves o grito dos mortos?

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Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada.

O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentivando qu…

Quizz: qual é o padrão?

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E a lista poderia continuar, mas acho que vocês já entenderam a ideia, e todos nós temos mais o que fazer, né.




O discurso da universidade e a democracia

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Entrei na moda da autocrítica:

"O intelectual deseja geralmente ser um porta-voz, mas ele confisca a palavra que pretende representar. [...]

Rancière denuncia, no seio da elite, um certo ódio pela democracia, uma recusa ao que ela teria de escandaloso: o reconhecimento de um igual valor potencial de cada voz. [...]

Mas será que o povo tem necessidade das explicações dos universitários para pensar sua condição e sua ação? A universidade deve pensar 'para' ou deve pensar 'com'? E pensar significa somente saber?

[...]

Será que ainda podemos escutar, aprender e falar em comum?"

Esses trechos foram tirados do prefácio de Jean-Luc Moriceau ao livro "Diálogos e dissidências: Michel Foucault e Jacques Rancière", de Ângela Cristina Salgueiro Marques e Marco Aurélio Máximo Prado, publicado pela editora Appris neste ano.

Veludo vermelho

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Dizem que os italianos falam com as mãos. Faço, porém, duas correções. Primeira, todas as nossas experiências, não só a fala, são pelo toque. Segunda, não tocamos apenas com as mãos, mas com cada pedaço do nosso corpo. Sensoriais até as pontas dos fios de cabelo, não é à toa que nós, italianos, somos amantes e místicos inveterados, os êxtases nos arrebatam sem trégua.

Logo cedo, quando o gole de espresso fervendo amarra a língua e, logo depois, a cremosidade do canolli a desenrola, eu canto, as cordas vocais aplaudindo delirantes. É preciso cantar após uma boa refeição, senão nem o mais eloquente elogio convencerá o cozinheiro de que não foi schiffo (nojo) o que eu senti. Meu corpo também vibra quando visto seda, que o vento levanta para cair úmida sobre as costas e as coxas.

O que para uns é luxo, para os italianos é sobrevivência. Que remédio melhor para o desespero senão receber um cafuné de caxemira ou ter as mãos aquecidas por couro bem curtido? O mármore está lá em vias pública…

Mantra

Repita até soar natural e razoável:
"No Brasil, o novo teto salarial dos juízes é 18 vezes a média salarial da população."

E, na sequência:
"Isso vai aumentar em mais de 5 bilhões as despesas da União, enquanto usam a justificativa da dívida pública para cortar direitos do trabalhador."

Por fim, pra atingir o Nirvana:
"Ó, Pátria amada, idolatrada, salve, salve!"