mercoledì 13 aprile 2016

Discurso de formatura

Homenagem a Deus
(discurso apresentado na colação de Letras da UFPR, turma 2/2015)

Como estudiosa da língua, estou ciente de que os discursos não são neutros, e sim marcados ideologicamente. Por mais que desejemos representar o todo, somos limitados por nossa história. Essa limitação humana provoca divergências até nas questões mais fundamentais. Por exemplo, a experiência do divino. Ao tentar expressá-la, acabamos nos desentendendo. O que é o divino? Onde ele se manifesta? Como devemos nos relacionar com ele? São muitas as respostas. Poderíamos passar eras discutindo, como muitos já fizeram e ainda fazem, sem descobrir qual é a certa. Deus se comunica conosco em diversas línguas, e mesmo que alguns de nós sejam poliglotas, muitas vezes somos incapazes de ouvir ou não sabemos o que fazer com aquilo que nos foi dito. Eu venho aqui numa postura humilde, assumindo a possibilidade de estar errada, e desde já peço desculpas se minhas palavras não derem conta (e certamente não darão) de expressar a religiosidade de todos aqui presentes.

Comecei falando das diferenças, agora vou tentar destacar o que há de comum entre aqueles que creem: a fé. Esse é o aspecto mais humano da experiência divina – ou o aspecto mais divino da experiência humana. Citando um trecho da carta de Paulo aos Hebreus (com a licença daqueles que seguem outros textos sagrados), explico melhor esse conceito: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem” (Hb, 11:1).

Os românticos – nossos velhos conhecidos das aulas de teoria literária – leram essa tradição ao modo deles, elevando a imaginação e a fantasia, ambas forças criadoras, ao mesmo patamar do divino. E até que não soa absurdo se substituirmos, no trecho que acabei de citar, “fé” por “imaginação” ou mesmo por “arte”: A arte é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem. Sem corroborar o pensamento romântico, sob o risco cair em heresias, o que gostaria de apontar é a proximidade entre a experiência divina e a artística. As duas despertam o que há de mais sublime em nós: a beleza, o amor, a empatia, a compaixão, o desejo de justiça. Aristóteles, na Poética, nomeou essa experiência mais intensa e ampla da vida de catarse, algo que perdemos de vista quando nos limitamos aos fatos comezinhos. Essa proximidade entre arte e religião decerto não é gratuita. Entendo a arte como uma possibilidade de reencontrarmos o divino aqui e agora. A capacidade de imaginar, praticada pelos escritores que tanto admiramos e por nós mesmos em nossos momentos mais inspirados, é uma graça divina.

Deus precede o próprio tempo e está em tudo o que existe. Está no verbo que originou o mundo e no silêncio com que o contemplamos. Está na vida e na morte. Está no espírito e no corpo. Esses paradoxos da natureza divina são mistérios que só conseguimos acessar graças à imaginação e à linguagem, esses dons divinos pelos quais agradeço na ocasião de nossa formatura no curso de Letras. Obrigada, Deus, por ter nos criado seres à sua semelhança, isto é, indivíduos capazes de imaginar e conceber mundos fascinantes.

Em minha caminhada religiosa, muitas vezes me perguntei: “se Deus é perfeito e onisciente, para que verbalizar agradecimentos em público? Ele já não sabe o que se passa em nosso coração?”. Hoje entendo essa questão da seguinte forma. Não agradecemos nem louvamos para agradar a Deus. Ele não é como nós, que precisamos de elogios para nos alegrarmos. Se o louvamos é para nosso próprio bem, para nos tornarmos mais humildes e compassivos. Enquanto o mundo defende uma meritocracia quantificada pelo dinheiro, a adoração do divino nos lembra que nada do que possuímos hoje é nosso. Todas as oportunidades e as habilidades nos foram dadas de graça. Por isso, gostaria de dizer diante de todos: obrigada, Deus, pela a vida, pela inteligência e pela sensibilidade! Agradecemos para nos lembrarmos da nossa pequenez. Pequenos, sim, mas também munidos de fé. E é essa fé que nos possibilita a compreensão do infinito e nos aproxima daquele que nos concebeu.

Para encerrar, gostaria de pedir força e resiliência em nossa vida profissional. Como professores, pesquisadores, tradutores, revisores, editores ou em qualquer carreira que sigamos, precisamos da sua graça para investirmos nossas forças nas boas lutas. Que meus colegas e eu sejamos instrumentos de paz e justiça neste mundo, enquanto esperamos pelo reencontro definitivo com o divino.

Obrigada, obrigada, obrigada!

venerdì 1 aprile 2016

Mundo Chernobil

Agora em abril a Companhia das Letras lança “Vozes de Chernobil”, a tão esperada estreia de Svetlana Aleksiêvitch, a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, no Brasil. Tomei conhecimento pela revista piauí, que divulgou um trecho da obra na edição de março. Achei excelente essa prévia, tão excelente que, se eu ler o livro na íntegra, talvez nunca mais funcione. Explico melhor. A jornalista bielorrussa não apenas expõe o horror daqueles que testemunharam o desastre em 1986 como reflete sobre o abismo para o qual estamos todos caminhando. Nas palavras da autora: “Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro”.

Que abismo é esse? Um mundo construído por nós mesmos e que nos expulsa. Evoluídos, sofisticados, nós conhecemos os termos científicos que explicam todo o processo da enrascada, sem entendermos o que é essa nova realidade. Apenas seguimos e reagimos, fazendo o que temos que fazer. Construir uma redoma para isolar a fonte radioativa. Construir hospitais para isolar os homens que isolaram a fonte radioativa. Construir memoriais para isolar as saudades. Construir cidades modernas para isolar as pessoas. Construir arquivos para isolar o conhecimento.

O cenário de Chernobil é silencioso, bucólico, como o orco – vejam lá no ensaio da National Geographic. Já a cidade em que me encontro, com radiação dentro dos níveis de normalidade, é rumorosa. Corrigindo, porque rumor soa muito sutil, como o renc renc do fantasma no assoalho: Curitiba tornou-se estrondosa. O adjetivo é propositalmente ambíguo. Há quem festeje o acontecimento – até que enfim saímos do provincianismo! Eu, velha de espírito, sinto saudades do silêncio entre as 20 e as 8 horas e aos domingos o dia todo, mais ou menos como a Internet discada da minha adolescência. Esta cidade nunca cala a boca. E não estou falando de um carro solitário na madrugada, mas de uma legião que vai o tempo todo sei lá para onde. Para onde vão esses carros todos?, eu me pergunto todos os dias.

Após o desastre, a população de Chernobil foi evacuada por questão de segurança pública. Embora a minha cidade não seja radioativa, considero o êxodo como solução, pois aqui também fico doente de um modo que não sei explicar claramente – e sem palavras científicas nem parece algo real. Veja se você entende: sinto que ninguém está vivendo o tempo que lhe foi dado, todos parecem estar só correndo para um lugar que ninguém sabe bem qual é, e a vida se esvai sem que tenhamos sequer conhecido nós mesmos, quanto mais os outros. Este diálogo é um dos que mais ouço e pratico na rua: “como vai a vida?” “só na correria, e você?” “também” “preciso ir, tchau”.

O que me prende a Curitiba? Sequer tenho um carro para estar, junto com todo mundo, sempre indo a algum lugar que sei lá qual é. Há anos penso em partir, nunca mais voltar. Penso em vidas possíveis noutras cidades, comunidades menores e mais tradicionais. Cheguei a visitar alguns esses lugares para tomar uma decisão mais embasada. Descobri que lá também tem carros e gente indo sei lá para onde. Às vezes até encontrava pessoas que não estavam sempre correndo, que gostavam de conversar, que olhavam nos olhos, que viam graça no cotidiano, e eu me enchia de esperanças. Mas como começar uma vida nova sem dinheiro?

Aí está o combustível da nossa sociedade doente, o dinheiro. Nenhuma novidade, os românticos já identificaram isso lá no fim do século XVIII. Vamos lá, lição de marxismo em um parágrafo e meio. A gente precisa comer e morar, por isso, arruma um trabalho para custear a sobrevivência. Mesmo que a profissão seja de nosso gosto e para a qual nos preparamos com dedicação (isso se tivemos sorte de vir de uma classe abastada, senão é a primeira que surge), a rotina vai minando o prazer (se é que um dia ele existiu). A gente compensa a insatisfação do trabalho no tempo livre: compra muitas coisas bonitas, tem muitas experiências deslumbrantes, beija muita gente atraente e compartilha tudo pelo iPhone para acreditarmos nisso e fazermos inveja nos outros. Para sustentar esses pequenos luxos, é preciso trabalhar mais ainda, de modo que a gente exulta quando surge hora-extra, arruma bicos nos finais de semana e nas férias. A gente trabalha pensando na próxima coisa que vai comprar e assim se mantém motivada. Pior ainda: crê-se bem-sucedida quando recebe um aumento que possibilitará comprar ainda mais coisas.

Alguém, como eu, pode decidir que não vai mais trabalhar oito horas por dia (fora as duas de ônibus, não remuneradas). Acha que recuperou a dignidade até chegar o fim do mês, quando não sabe como pagar as contas. Não tem nem para a comida e a moradia, passa o dia todo pensando em dinheiro e descobre que precisa voltar a trabalhar, pega o primeiro serviço que surge. E a roda volta a girar, não tem como sair dela senão pela revolução social. Alguém conseguiu isso na prática? Não que eu saiba, porque o dinheiro corrompe aqueles que teriam condições de liderar a revolução. Não há salvação para um indivíduo se todos não se salvarem juntos, disseram os revolucionários românticos. Talvez não haja salvação para ninguém, nunca, disse Schopenhauer.

Oscilo entre uns e outro, tendendo mais para esse último. No fundo, o sistema proposto por ele me parece o mais possível, talvez até o mais otimista: não buscar uma salvação terrena, levar uma vida ascética, combater os desejos, diminuir o sofrimento. Depende só de a gente se disciplinar. A revolução, por sua vez, acaba sempre boicotada pela ganância de um ou outro. Enquanto o humano for volúvel aos seus desejos, haverá muitos que trocarão, sem hesitar, o bem-estar coletivo pelo individual.

Chernobil, nosso ponto de partida, é o maior exemplo da falta de escrúpulos do ser humano. Já fizemos uma vez isso de trocar o bem geral por um punhado de dólares e ainda faremos outras tantas, está aí o desastre da Samarco bem recente na memória nacional. A gente não presta, e não há educação humanista, religião, poesia ou filosofia que nos salve. Aleksiêvitch escreve que, poucos dias após o incidente de Chernobil, resquícios radioativos circulavam pela atmosfera, atingindo outros continentes. Em outras palavras, não há tecnologia que isole o mal, ele chega conforme mudam os ventos, e a gente o inala e vai reagindo. Você pode pegar o carro, buzinar até estourar os tímpanos e correr (se o trânsito permitir) para um lugar que não sei qual é. O mal é muito mais antigo e duradouro. Nas metrópoles ele está explícito na feiúra do cimento, no cheiro fétido, no gosto podre da água e dos alimentos, na dor de cabeça constante. Mas ele também está na cidadezinha, mais escondido, na ignorância, na raiva, no descaso. Não há para onde fugir: os ventos circulam, o mundo é o mesmo.

Depois dessas reflexões me digam: alguém tem estômago para ler “Vozes de Chernobil”?

mercoledì 30 dicembre 2015

Por uma alimentação melhor

Na infância, minha dieta se constituía de leite com Quick Morango e mais uma colherada de açúcar, gelatina do Bocão coberta de leite condensado, Tang, sopa instantânea Knorr, Choco Krisps. E essa era a parte nutritiva, conforme anunciavam os rótulos de que nunca duvidávamos: “fonte de vitaminas e sais minerais”. Depois ainda vinham os salgadinhos e as sobremesas, ingeridas pelo simples prazer gustativo: Cheetos, sorvete Kibon, bolacha Bono, bombons Nestlé. Os refrigerantes foram os únicos que não conseguiram enganar minha mãe e, felizmente, não entravam em casa.

Mais tarde, já adulta e influenciada pelo crescimento do discurso pró-alimentação saudável, substituí essas coisas por Chocolate em pó Dois Frades, pudim de aveia Quaker, suco de soja Ades, chá gelado Lipton, barra de cereais Nutry, bolo integral Nutrella, granola Kellogs. Achava que assim havia revolucionado minha alimentação, que me tornaria mais saudável. Eu havia sido uma criança meio adoentada, sempre a primeira vítima de epidemias, fora os sucessivos desmaios que os médicos nunca explicaram direito. Mas os novos exames de sangue me desiludiram: colesterol quase estourando, déficit de vitaminas, triglicérides alta. “Como pode isso, se só como coisas saudáveis?”, eu perguntei à médica. Ela culpou a genética da minha família, repleta de diabéticos e cardíacos.

Neste ano, a leitura de alguns livros me deu a resposta tão óbvia que os médicos por algum motivo continuam silenciando: o problema são os alimentos processados. Não importa se os rótulos vendem um estilo de vida saudável, a lista de ingredientes no verso não mente: açúcar, gordura, sal e uma série de aditivos sintéticos que a gente nem sabe direito o que é. Se passou por um processo industrial é impossível que seja realmente natural. Mesmo essa nova onda de sucos 100% fruta deve ser vista com desconfiança. As vitaminas das frutas se deterioram em poucos minutos quando perdem a proteção da casca, e as fibras se arruínam na liquidificação. Suco bom é aquele feito e bebido na hora. Melhor ainda é consumir a fruta direto.

Sinto muito, adeptos da praticidade, mas não há e talvez nunca haja alimentação saudável mediada pela indústria. O jeito é ir à feira e aos mercados hortifrútis (sorte a nossa que eles ainda existam!), escolher ingredientes de qualidade, chegar em casa, armazenar com cuidado e, cada vez que tiver fome, pôr a mão na massa, picar, cozinhar, assar, usar temperos frescos. Isso não significa um retorno à escravidão do fogão, afinal, somos uma sociedade diferente (ao menos, pensamos que sim). As mulheres não têm mais a obrigação de alimentar sozinhas toda uma extensa família, trabalhem elas fora ou não. Hoje é inaceitável que os homens se esquivem das atividades domésticas. Outra vantagem atual é haver menos filhos ou até nenhum. Mais ajuda, menos trabalho.

Cozinhar não precisa ser um martírio, pode até virar um hobby como vários programas televisivos vêm mostrando, um momento de conexão com os familiares. Se a gente só come coisas prontas, perde essa oportunidade de diálogo e depois investe o tempo poupado como? Em ver TV, jogar videogame, navegar na web ou qualquer outra atividade que nos isole. Ganhamos tempo e depois temos que encontrar atividades para nos distrair, caso contrário morreríamos de tédio. Um dos tantos paradoxos da modernidade.

Os livros que me ajudaram a repensar a alimentação foram:
- “O livro negro do açúcar” (2006), de Fernando Carvalho
- “Sugar blues” (1978), de William Dufty
- “Sal, gordura, açúcar” (2015), de Michael Moss

Eles oferecem reflexões e dicas mais preciosas do que eu, uma novata do slow food, poderia dar aqui. Só me arrisco a registrar um testemunho pessoal. Faz dois meses que cortei o açúcar (branco, demerara e mascavo), farinhas e grãos refinados; mantive apenas o mel e o melado em ocasiões raras, porque têm nutrientes e aumentam minhas possibilidades culinárias. A consequência mais imediata foi a perda de peso, mesmo sem ter eliminado a gordura (descendente de italiana, uso o azeite sem dó) ou diminuído as porções das refeições. Não foi nenhum milagre, isso aconteceu graças a um mecanismo natural muito importante no controle do peso, a saciedade. Devemos comer prestando atenção ao nosso corpo; quando ele nos diz “estou satisfeito”, é hora de parar. O açúcar, porém, é uma das tantas estratégias da indústria para enganar nosso organismo: em vez de satisfazer, ele aumenta o apetite. Sabe quando você se sente estufado, mas repete o prato só porque está bom? Pois é, isso dificilmente ocorre com frutas, saladas e grãos integrais, por mais que eles estejam saborosos, mas acontece com massas e doces. Não é gratuito, esses produtos foram pensados para ser assim: insaciáveis ainda que altamente calóricos.

Outras consequências do corte de açúcar foi a cura da minha rinite alérgica (em plena primavera! Agora posso parar de odiar essa estação do ano...), alívio dos incômodos físicos antes e durante a menstruação, mais energia à noite e aumento de produtividade em atividades físicas e intelectuais. A longo prazo, espero fugir do destino da família e não ser diabética nem cardíaca.

Outro dia, em uma entrevista, Bela Gil explicava por que não queria se enquadrar em um movimento específico (vegano, macrobiótico etc.). Ela come com moderação tudo aquilo que faz bem ao seu corpo e se, de vez em quando ingere algum quitute (um doce ou uma bebida alcóolica), é capaz de perceber o efeito disso. Nesse Natal, constatei que ela está certa. Quando a gente para de comer alimentos processados, as nossas papilas gustativas ficam mais sensíveis, não sentem falta de sal e açúcar e descobrem outros sabores. Aí, quando você come um doce numa ocasião especial, uma colherada que seja, é como uma explosão no seu organismo: primeiro um gosto muito forte, depois um aumento súbito de energia, seguido por uma sonolência. Em resumo, você fica tão desintoxicado que consegue se drogar até com um bombom! Nossa sociedade, pelo contrário, está tão embotada de estímulos, que os 32 quilos anuais de açúcar que cada pessoa consome não fazem nem cócegas.

E se me vierem com o argumento “não tenho tempo nem dinheiro para preparar comida saudável”, vou lhes apresentar à boa e velha fruta. Compre as da estação, que são as mais baratas, sendo que muitas não dão o trabalho nem de abrir a embalagem, é só morder.

Ficam pendentes ainda questões sobre o consumo de carne repleta de hormônios e vegetais cheios de agrotóxicos. É possível ter uma alimentação apenas orgânica? Quero dizer, é economicamente viável em larga escala ou apenas um luxo para minorias? Apesar de a oferta de produtos sem aditivos químicos ter aumentado, o preço ainda não cabe no meu bolso, mas acredito que, quando essa se tornar uma prioridade na alimentação do brasileiro, talvez se encontre a tal viabilidade econômica – sim, dinheiro manda na nossa vida mesmo quando a gente não dá muita bola para ele. No meio tempo, faço o que posso e vou percebendo a diferença de tratar o meu corpo com o respeito que ele merece.

domenica 4 ottobre 2015

Uma ideia para a educação

Outro dia me ocorreu que é preciso ter coragem para fazer mudanças radicais no sistema de ensino, coragem que ninguém teve até agora. Por enquanto, ficamos em timidezes como aumentar o repasse nacional de verbas (e, logo depois, cortar), implantar um currículo parcialmente unificado (ainda em discussão), incentivar professores a se afastarem para especializações, sendo que, quando voltam para a sala de aula, reencontram as mesmas condições de trabalho e precisam se readaptar a elas. Não é isso que vai criar uma pátria educadora.

Na verdade, essas pequenas mudanças são apenas um alívio de consciência para os gestores de educação – para não os acusarmos de não terem tentado. Sequer chegam a tocar no problema maior: nosso sistema de ensino básico, e até o técnico e o superior em muitos casos, é uma linha de produção. Às 7h15, uma dose de binômio de Newton; às 8h05, um toque de fenóis; às 8h55, uma amostra dos milhares de tipos de concordância verbal de sujeitos compostos; às 9h45, atualizar Whatsapp e Facebook; às 10h, pela milésima (mas não última) vez, uma pitada de Simple Past x Present Perfect; às 10h50, uma porção light de Durkheim; às 11h40, um bocadinho de campos elétricos. Pronto, às 12h30 sai o aluno acabado (em todos os sentidos), mais próximo da máquina brilhante que ele se tornará no fim do Ensino Médio.

Poucos realmente se moldam conforme os planos da escola. Esses são os alunos que entrarão nos cursos mais concorridos das boas universidades públicas, e é dessa minoria que eu sinto mais pena: mentes brilhantes (e tão persistentes, para terem aguentado aquilo tudo) moldadas para pensar sempre dentro da caixinha. A maioria dos estudantes, instintivamente, percebe que tem algo muito errado ali e vai se desencantando da escola ao longo da adolescência. Alguns, com sorte, criticarão o sistema por dentro, tentando implodi-lo. São os alunos que questionam os professores, expressam opiniões diferentes da maioria, se recusam a acreditar na receita de bolo da escola e determinam sua própria formação pessoal (por leituras, filmes, músicas, conversas, viagens etc.). Uma grande parcela, contudo, mesmo achando a escola “nada a ver”, atribui a falta de sucesso escolar a si própria e se conforma em trabalhar em profissões desprestigiadas e mal remuneradas. Por fim, um pequeno grupo, passa toda vida escolar away, não consegue se encaixar nas opções profissionais que a sociedade oferece a alguém com “instrução rasa” e, em vez de lutar pelo seu espaço, aceita viver na marginalidade.

Queremos mudar mesmo a educação do nosso país, ou só fingir que uma autoridade mais preparada está resolvendo a questão? Eu posso ser uma ninguém, mas tenho um cérebro, então gostaria de dar uma ideia para os senhores do MEC: chega desse sistema de ensino dividido em disciplinas! O conhecimento é múltiplo e se origina da curiosidade humana de querer saber mais sobre si e o mundo. A escola apresenta os resultados das investigações dos pensadores do passado, mas mata a possibilidade de os alunos seguirem seus próprios interesses, darem continuidade à história do conhecimento. Na minha opinião, o ideal seria usar o período escolar para que os jovens, em grupos pequenos orientados por um professor, desenvolvessem projetos de pesquisas interdisciplinares que durariam períodos médios de tempo.

Um exemplo de aula para o Ensino Médio: quatro meses para estudar fontes de energia. Nesse tempo, o professor (com formação em engenharia e especialização em educação) sugeriria leituras sobre a história dos meios de produção energética, analisaria o impacto econômico de cada uma, reforçaria conceitos de matemática e física que fossem necessários para entender o funcionamento desses mecanismos, levaria os alunos para conhecerem a Itaipu e outros sistemas de geração de energia, auxiliaria os estudantes na escrita de projetos e na concretização de protótipos.

Ideia maluca? Cara? Impraticável? Talvez. Mas, se a gente sabe que do jeito atual não está funcionando, ou admitimos que não queremos nada melhor ou mudamos – e não superficialmente, mas a partir da fundação do sistema. Tenhamos coragem, levantemos ideias ousadas, por mais que, na nossa época de estudante (e foram 12 anos sentados em bancos escolares!), nos tenham desestimulado a pensar diferente daquilo que estava escrito nos livros. Oras, escrevamos nossos próprios livros, então!

Alô, alô, elite do nosso país: não estou falando só de escola pública, onde estão os filhos dos seus empregados, estou falando também dos colégios privados, até daqueles caríssimos, que também adotam o sistema “linha de produção”. Eles colocam aulas de teatro, dança e atletismo no contra-turno para vocês acharem que seus filhos estão tendo um ensino muito inovador; você paga uma nota preta no fim do mês e dorme feito um anjo à noite, acreditando que é isso mesmo, que está garantindo o melhor para o seu filho. Eu vim para dar a má notícia: acorda, acorda, acorda!

martedì 1 settembre 2015

Para que servem os professores de português?

Examinando um site de concursos públicos, constatei que a demanda por professores de ramos técnicos e científicos é muito superior às vagas de língua portuguesa, justo essas que eu procuro. Após desistir do jornalismo, devido ao encolhimento da mídia impressa e ao meu desinteresse por comunicação empresarial, encarei uma segunda faculdade (Letras) e, às vésperas de me formar, levo esse baque de novo. Ora, eu tinha raciocinado quatro anos atrás, enquanto o ensino básico fosse obrigatório e o português integrasse o currículo, professores seriam sempre necessários!

Parece que não.

O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ideia da “solução” adotada. No ramo privado, o problema é outro: exigem indicação e/ou comprovação de experiência, um repelente aos novatos sem amigos ilustres feito eu.

Outra possível causa para a escassez de vagas na rede estadual foi a redução da carga horária de português após a entrada de novas disciplinas humanísticas no currículo: filosofia, artes e sociologia. No Ensino Médio, são apenas duas aulas de português por semana. Bom, se a grade ficou assim, certamente há quem veja vantagem nesse arranjo, e até imagino os argumentos: português não ensina nenhum conteúdo, apenas uma forma; todo mundo sabe português; qualquer um pode melhorar o português sozinho, basta ler mais; leitura é uma prática individual; todos os livros clássicos de literatura já estão explicados pela crítica, basta repetir o que ela diz.

Disso tudo, eu concordo apenas com uma coisa: todo mundo sabe português. Oras, somos falantes nativos! Muitas vezes, a escola, em vez de melhorar a proficiência nas várias modalidades da língua, convence o aluno de que aquilo que ele fala não é o “verdadeiro português”. Isso remete a uma ideia muito tradicional de professor de língua: aquele sujeito que sabe o significado de todas as palavras, que não erra uma concordância e que recita de memória os grandes clássicos da literatura nacional. Eu achava que isso já estivesse superado, dado que o Plano Curricular Nacional não incentiva mais o ensino de gramática normativa, e sim o estudo de variadas expressões da língua devidamente contextualizadas.

Parece que não.

Descobri que a gramática normativa ainda está com a bola toda quando comecei a dar aulas de reforço. Não tenho nenhuma reclamação contra o lugar onde trabalho (pelo contrário, adoro o ambiente!), até porque eles não trabalham com currículo próprio: as aulas são preparadas de acordo com a demanda da escola de origem do aluno. Assim, minha crítica se direciona aos colégios em si. Ao entrar em contato com o material didático das escolas mais conceituadas (e caras) de Curitiba, descobri que é tudo a mesma coisa: no sexto ano, os alunos têm que saber os tipos de pronomes; no sétimo, classificação de conjunções; no oitavo, a diferença entre sujeito e agente da passiva; no nono, os tipos de orações subordinadas etc. etc.

Há vantagem em pagar colégio particular se o currículo de português é tão retrógrado? Talvez as outras disciplinas compensem, com boas estruturas laboratoriais e esportivas, não sei. O fato é que, ricos ou pobres, a grande maioria dos alunos está recebendo uma formação precária de português. Sorte a deles serem falantes nativos, assim podem se virar na comunicação diária. Agora, eles vão ler bem? Vão escrever textos em que consigam dar forma para a riqueza de seus pensamentos e emoções? Vão se fazer entendidos na expressão oral? Não sei. Será que dá para contar com a sorte sempre?

Parece que não.

Afinal, qual é a função do professor de português? Se for só para ensinar um monte de nomenclatura gramatical, o que contribui muito pouco para a melhoria da leitura, da fala e da escrita, então concordo que somos desnecessários – duas aulas são até demais! Do jeito que se ensina o português, estamos aqui só para aborrecer e silenciar os alunos. Tudo isso já foi melhor discutido por Bagno e Perini (informem-se). No meio acadêmico é até uma questão superada, a escola é que a mantém viva. Só consigo pensar em um motivo para essa resistência: em turmas que variam de 30 a 200 alunos, é mais fácil ensinar e avaliar regras gramaticais do que leitura e escrita.

Já na escola pública, não há a exigência curricular de se ensinar gramática, mas muitos professores (os ruins) entendem isso como “vamos sentar aqui e conversar sobre qualquer coisa, afinal, na prova é só interpretar os textos, e não tenho como ensinar isso”. Os alunos leem pouco, escrevem menos ainda – basta ver a letra da maioria: grande, desajeitada, indicando a falta de intimidade com a caneta – e, quando escrevem, os professores só dão um visto ou atribuem uma nota, sem qualquer comentário que ajude no aperfeiçoamento.

O caminho ideal, aquele que, a meu ver, resgataria a serventia do professor de português, seria a prática intensa de leitura, debates e escrita. O professor, com a ajuda de monitores (condição essencial, já que o volume de trabalho é muito grande), conheceria intimamente as características de cada aluno e lhes daria feedbacks personalizados. Nas aulas, se fortaleceria a noção de que a língua é uma construção coletiva e de que os textos discutidos em comunidade, em especial os literários, adquirem mais valor – não são apenas um prazer solitário, dizem respeito a todos nós. Ao fim da vida escolar, o jovem teria intimidade com textos de diversas modalidades e teria condições de responder (a atitude responsiva dos gêneros, tão enfatizada por Bakhtin) usando a expressão mais adequada para a situação. Ele sairia proficiente em uma grande quantidade de “portugueses” e munido de estratégias de leitura que o habilitasse a continuar aprendendo sozinho na vida adulta.

Bom, mas cá estou eu repetindo coisas que já estão no PCN. Vivemos num país em que se tenta promover justiça e igualdade por meio de despachos oficiais. “A partir de hoje, todos serão ótimos leitores, oradores e escritores”, decidiu algum doutor a respeito da massa de iletrados – problema resolvido! Pronto, agora todos já dominam as diversas modalidades da nossa língua! É por isso que não há vagas para professores de português, está explicado! Talvez seja o caso de arriscar minha terceira graduação. Desta vez, preciso ser esperta, nada dessas futilidades de Humanas, talvez alguma Engenharia. O país precisa é de tecnologia, produtos inovadores, facilidades, modernidades, toda essa geringonça que nos mantenha ocupados, para não pensarmos quem somos, quem é o outro, o que queremos, do que precisamos, para onde vamos etc. etc. Deixemos que o Google decida por nós: você quis dizer Candy Crush?

Autoconhecimento? Oxe, tem tudo sobre mim lá na minha página do Facebook, vê lá, curte lá.

PS: Nem tudo vai mal. Eu agradeço à gramática por dar um nó na cabeça da molecada, assim eles solicitam as aulas que põem o pão na minha mesa. Quando algum aluno ou pai mais sensato percebe o problema é a redação, eu tenho que explicar para que uma aula não vai transformá-lo em Rui Barbosa (quem, a praça?), mas que é preciso anos de prática. Aí ele pode pensar que eu estou sendo gananciosa, que quero forçá-lo a marcar mais aulas. Problemão, né? Gramática não tem erro, tem gabarito, dá para ensinar em uma hora.

PPS: Desabafo escrito no clima de “Como ficar sozinho”, ótima coletânea de ensaios sobre os tempos atuais escritos por Jonathan Franzen.

venerdì 28 agosto 2015

Os Arnolfini


Mulher vestida de azul e lenço branco, 
Não fossem manto de veludo verde, 
Metais no punho e no pescoço, rendas, 
Na Renascença, a virgem Mãe seria –
Adolescente com tão dura sina.
Toma-lhe a mão o homem que compra tudo.

Noiva amorosa a se entregar inteira
A tal sujeito, Carniceiro-Mor. 
E o troco dele? Nem sorriso volta. 
Rico não sofre culpa: pilha ouros, 
Assina acordos, tranca em cofre todos. 
Cada estação, o homem só veste luto.

N’águas vermelhas, ela nasce Vênus.
Promessas velhas renovadas sempre –
Todo o poder e a glória, a prole e o nome.
Nem assim fica satisfeito, o rico
Não ri. Até afeto poupa o rídico.
Salve esta bela união: bens conjuntos.

Graça da casa, o cachorrinho dela, 
Atrevidinho vem, amor da moça. 
Mete-se à frente de qualquer humano, 
Hierarquia interespécie ignora.
“Nojo me dá tanto xodó, senhora”.
Nada suporta um homem tão casmurro. 

A dama brilha no pincel do intruso, 
O que vê tudo, e tudo dá a ver. 
O artista cria perfeição, decoro 
De academia foi o senhor que quis, 
mas grita o gênio atrás: “estive aqui!”
Um homem posa; o outro ri ao fundo. 

“Ali no canto, é seu tamanco, musa?” 
Pobre pintor! Onde está pé desnudo, 
Bem precioso que o veludo encobre?
O admirador, por fim, diz: “Venha, amiga!
Ao carrancudo cansam obras-primas. 
Se ele não olha, você ganha o mundo”.

PS: Já tive a oportunidade de visitar alguns museus fabulosos, mas a National Gallery provavelmente é meu favorito. Ali naquele acervo no centrão de Londres, a gente encontra essa pequena (em sentido literal) joia de Jan van Eyck, The Arnolfini Portrait. Nunca soube explicar por que o quadro me fascina tanto, até que eu decidi tentar. Foi daí que veio este poema, infelizmente muito inferior à tela.

mercoledì 19 agosto 2015

O estranho

Dentro de uma galeria comercial, dessas que cortam prédios ligando duas avenidas, descobri uma pequena lanchonete. Deve ser suja – não era. Então deve ser cara – também não era. Fiquei. Pedi pão-de-queijo e laranjada e me acomodei numa mesa de canto, de frente para a porta.

O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas.

Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam sozinhos e encaravam o vazio, ruminando esfihas, bolinhos, mistos, sanduíches sortidos. Logo, porém, fui flagrada nessa posição indiscreta e, como não me responderam com sorrisos amistosos, baixei meus olhos para o pão-de-queijo e laranjada, que tinham finalmente chegado.

Sentia, por dentro, a massa gordurosa preenchendo a barriga e, por fora, a clientela me envolvia indistinta. Ouvi passos vindo direto para minha mesa. Alguém parou bem atrás de mim, eu intuía um par de olhos fixos nas minhas costas, decerto era um amigo que me pregaria uma brincadeira. Nada aconteceu, comecei a ficar tensa. O sujeito avançou para a cadeira à minha frente, também parecia tenso, sentou-se e disse:

― Eu sempre sento aqui – e se entregou ao seu x-salada.

Atestei que não se tratava de um conhecido, apesar de se parecer com as pessoas com quem convivo: trinta e poucos anos, cabelo loiro-ninho, óculos Lennon, mochila de escalada a tiracolo. Esperei que ele fizesse algo louco, como me encarar ou até mesmo conversar. O fato é que ele não ligava para mim, apenas comia seu lanche muito satisfeito.

Matei meio copo de suco num gole, paguei a conta e saí pensando naquele homem esquisito. Esquisito por quê? Por sentar na mesa de uma desconhecida quando havia outras disponíveis? Não. Esquisito por fazer o que fosse preciso para manter um hábito. Que importava a cadeira? Tinham que importar, isso sim, as pessoas, o afeto que desenvolveríamos uns pelos outros. E, no entanto, quando alguém se destaca da massa-corrente, chega bem perto, parece estranho, fica difícil amá-lo assim.

Saí da galeria, a luz da rua me cegou por uns instantes, relembrei os assuntos que tinha para resolver.

venerdì 14 agosto 2015

Corpo corpo corpo corpo corpo corpo corpo porco porco porco

Testando, testando. asdfg asdfg asdfg. Tem alguém na linha? Oi! Hoje vou fazer um post mais pessoal (o que não é muito a regra deste blog, e nem pretendo que seja, mas o assunto exige uma honestidade completa), então puxa uma cadeira, chega aqui pertinho e finge que minha vida te interessa. Vai que, no fim das contas, algo da minha experiência tem a ver com a coisa que tá te grilando no momento.

Por exemplo, você já digitou no Google “dieta sem sofrimento”, “exercícios para afinar cintura”, “dicas para emagrecer rápido” ou similares? Meu histórico virtual denuncia tudo isso. Os amigos se irritam quando conto para eles, mandam eu largar de ser besta e olhar no espelho, porque eu sou magra. Sim, sou magra, mas a custo de autocontrole alimentar e exercícios, não aquele tipo naturalmente magra que come de tudo (odeio as modelos que dizem isso em entrevistas, não pode ser verdade!). E, como mulher comum, vivo o drama diário de, se der uma descuidada, a calça já aperta. Daí corro para o Google com suas receitas mágicas. (A propósito, nenhuma fórmula rápida funcionou para mim até hoje, e olhe que passei mais tempo da minha vida adulta em dieta do que comendo tudo o que realmente gostaria.)

Escrevo este post para refletir sobre o sofrimento de a gente querer ter um corpo diferente, mesmo sabendo que nunca vai atingir esse objetivo. Pessoalmente, acho que já estou lidando melhor com a questão – daqui a pouco conto como me resolvi –, mas ainda acho pertinente tratar francamente da questão, porque tantas outras mulheres (sim, somos as mais pressionadas pelos padrões de beleza) se martirizam por isso.

A esta altura do campeonato, acho que a maioria de nós já sacou que o desejo de magreza é despertado desde cedo devido ao bombardeio midiático de figuras esquálidas. São as magrelas que dominam TV, cinema, revistas, vitrines, outdoors (e não só aqueles anunciando produtos de beleza, mas até os de empréstimo pessoal, farmácia, Prever etc.), dando a entender que gordos são uma anomalia. Racionalmente a gente sabe que ser magra não é necessariamente melhor – oras, existem magras bonitas e feias –, mas quando sai às compras, se o corpinho não estiver enxuto, você logo percebe que as lojas mais elegantes só vestem silhuetas mínimas. É aí que você pensa como seria bom trocar o seu perfil exclusivíssimo por um esqueletinho-padrão. Se você passa do 44 (dependendo da loja, o limite é 42), você vai perceber que as últimas tendências da moda não são para o seu bico, e alguma vendedora cretina vai te sugerir aquela loja de tamanhos grandes, cuja vitrine você nunca se deu ao trabalho de examinar, porque os modelos são horríveis.

Esse é apenas um engodo de sair do padrão corporal, nem é o maior. Com o aumento do movimento plus-size, acho que ele tende até a desaparecer, até porque a indústria não vai recusar grana de um mercado potencial. Nós sabemos que a discriminação é bem mais ampla, mas não é bem disso que eu gostaria de tratar aqui. Eu nem seria a pessoa mais indicada para testemunhar sobre marginalização social dos gordos, dado que nunca recebi um xingamento relacionado ao meu corpo que não viesse de mim própria.

Maldita autocrítica. Sobre isso, a filosofia zen alerta: a gente tende a achar que a nossa condição atual nunca está tão boa, cremos que a felicidade só virá se obtivermos algo a mais. Somos tão insatisfeitos que chegamos ao extremo de às vezes obter exatamente o que queríamos e nos frustrarmos por não ser “tudo aquilo”. O modo como vemos nosso próprio corpo, com julgamentos e até rejeição, é um exemplo do que já fazemos com a maioria dos aspectos da nossa vida: desejamos o que não somos/temos. Solteiros querem casar, casados querem putiar, desempregados querem trabalhar, trabalhadores querem relaxar, gordos querem emagrecer, magros querem emagrecer mais ainda etc. etc. A consequência dessa lógica é que você se mata em nome de um ideal autoimposto, seja para realiza-lo (tantas horas maçantes na academia, tantas situações em que você passou vontade de uma comida), seja para se punir por ter falhado (analisar todas as roupas bonitas que não servem mais, se vestir como um saco de batata para esconder as gordurinhas, passar fome e logo depois se entupir de comida).

Voltando ao meu relato pessoal (vocês ainda têm saco?), vou contar como estou lidando com a minha noia corporal. Na infância, eu vivia à base de guloseimas (e minha mãe cozinhar maravilhosamente também não ajudava), então lembro de ter uma pancinha que, quando eu sentava, se dobrava em três camadas. Claro que, exposta desde o nascimento ao elogio geral da magreza, eu já me sentia feia e desejava ter cinturinha de pilão. Minha maldição foi que eu cheguei a tê-la sem nenhum esforço, graças aos genes “altões” do meu pai. Dos 10 aos 13 anos cresci 35 cm, aí a massa corporal se distribuiu tanto que eu virei um palito. Me sentia ótima por ter o mesmo IMC da Gisele Bündchen, e isso comendo só bobagens – literalmente, a “piece of cake”.

Ao longo da adolescência, consegui manter bem o peso sem qualquer disciplina, praticava esportes por pura diversão, fora o metabolismo rápido dessa fase. Fiquei confiante demais, achando que era uma dessas magras que podiam comer qualquer coisa. Uma vez, a professora de Educação Física mediu nossas gorduras corporais, e meu índice foi um dos mais altos da turma, mesmo eu pesando apenas 50 kg. Nem liguei, eu parecia magra, e era isso que me importava. Ah, a arrogância de estar por cima da carne seca (ou, no caso, ser a carne seca), é o que me faria desabar de um ponto mais alto quando perdesse o controle do meu peso e surgissem pequenos problemas de saúde (gastrite, colesterol alto, falta de ar). O problema começou quando entrei na faculdade. Parei com todos os esportes (por que não tem Educação Física no Ensino Superior?), virei uma nerd sedentária e, desde então, ganhei quase dez quilos.

Como eu era absurdamente magra antes, os primeiros quilos foram bem-vindos, mas nos últimos tempos me dei conta de que eu continuava a engordar numa progressão constante, um quilo por ano, e sem justificativa nenhuma – hoje em dia já não extrapolo na comida, ando muito a pé e de bike, faço yoga. Pensei: meu Deus, neste ritmo, daqui a dez anos quanto vou pesar? E daqui a cinquenta? O que vai estourar primeiro quando eu envelhecer, os joelhos ou o coração (dois problemas típicos da família)?

Como podem ver, minha situação é bem diferente de ser gorda. O pânico foi descobrir que minha genética altona também possuía os genes bundudos, coxudos e braçudos (a tal gordura localizada, que perturba a maioria das mulheres), e eles estão se manifestando bem italianamente, crescendo feito massa de pão em dia quente. Várias vezes me desesperei quando as roupas não serviam, tentei dietas loucas que só me estressavam e me desesperavam. Passava uma semana inteira sem ingerir açúcar, descontando a abstinência em todo mundo, e nada de aquela saia lápis de lãzinha, que nem era tão justa assim, entrar. Meu vestido tubinho não passa pelo meu quadril desde 2013. O jeans skinny, se fechar com sorte, não me permite mais dobrar a perna para caminhar. Foi então que eu percebi que meu incômodo maior não era apenas o corpo atual, com suas inéditas celulites e dobrinhas, mas ter que me disciplinar sem, no entanto, recuperar o corpo que eu tinha antes sem me esforçar. No fundo, eu preferia ser magra do que saudável. Eu não tinha mais nem uma coisa nem outra, mas só estava obcecada em recuperar a primeira.

Se era a estética que me motivava, então seria ela que me salvaria. Peguei as roupas que não me serviam mais e enfiei tudo num saco fora da vista. Ninguém merece abrir um guarda-roupa cheio de roupas lindas, sabendo que pelo menos 20% daquilo não serve – minha sorte é que sempre preferi cortes mais soltos, senão essa percentagem seria bem maior. Ficaram as peças mais básicas. Eu tinha que me resignar a ser modesta porque tinha engordado? Revoltada, fui ao shopping e comprei umas roupas bem deslumbrantes: saias e shorts com tecidos mais estruturados e cortes triangulares, para não marcarem o bumbum-é-o-tchan (105 de bundinha é fichinha, Sheila!).

Com a recauchutada no guarda-roupa, me senti mais aliviada, pois conseguia me pôr de novo elegante. Larguei a bobeira de achar que, porque estava acima do peso desejado, não podia me vestir bem, chamar a atenção para o meu corpo. Os outros podem me achar ridícula, apontarem pro culote, pra celulite, pro mexe-mexe, pois que fiquem com essa secura, com essa fome! Eu estou saudável, elegante e plenamente saciada – não só de comida, mas de bons pensamentos. E foi assim que caiu a ficha da autoaceitação: oras, se eu acho tanta gente gorda bonita, por que não aplico o mesmo conceito positivo a mim? Já avisei meu namorado que vou ser uma mamma bem italiana – “são meus genes, não vou entrar na faca e nem me internar em academia pra fingir que sou diferente, você vai ter que me amar assim!” –, não quero saber de frases como “você relaxou na dieta, não era assim quando nos conhecemos”, outra cretinice sem-fim: exigir que a gente tenha corpo de 18 anos para sempre. Graças a Deus que não tem mais! Todas aquelas espinhas, o mau gosto para roupas, a inabilidade para ajeitar o cabelo, a deselegância dos gestos...

(Um parêntese importante. Do começo ao fim do meu texto, tenho reforçado a questão da beleza. Esses dias eu li uma colunista feminista do NY Times que denunciava como a tendência “beleza plus-size” também é problemática, já que continua reforçando a exigência de as mulheres serem lindas. Fiquei intrigada. Por um lado, fazia sentido o que ela dizia, pois é mesmo um tipo de pressão social, por outro, me parece que a busca da beleza não é algo tão fútil assim. A busca por ornamentação é um elemento fundamental nas mais diversas culturas, de modo que combinações criativas de formas, texturas e cores se aplicam nos mais diversos lugares: construções, vestimentas e até ao rosto humano. Também é algo que identificamos quase instintivamente na natureza sem que alguém tenha racionalmente arranjado aquilo (a beleza de um animal, uma flor, um rio, uma montanha, o pôr-do-sol etc.). Agora, se alguém determinar que há mais beleza em Monet do que numa pintura ioruba, daí talvez esse conceito esteja sendo empregado de modo problemático. Fora isso, a necessidade de se cercar de beleza me parece perfeitamente aceitável.)

Um epílogo deste relato pessoal cheio de frases afirmativas, mas sem uma única resposta prática. Nas últimas semanas, venci a preguiça e voltei a praticar yoga com determinação. Como eu estava mais pesada e flácida, tive dificuldade em alguns asanas que antes me eram fáceis, mas persisti para recuperar minhas habilidades anteriores e até superei algumas. Recentemente, percebi que a barriga, os braços e as pernas ficaram mais rijos e que minha coluna doía menos, eu respirava melhor, sentia-me mais ativa, disposta e ereta (ah, que diferença isso faz na elegância), tinha menos vontade de ingerir açúcar branco, fritura e carnes gordas. Era disto que eu precisava para ficar bem com meu corpo: me sentir forte, estar em plena posse de mim. Uma coisa que eu gosto do yoga é que a gente não vê de cara um resultado superficial – meu peso é o mesmo, as medidas não diminuíram –, mas a gente tem um resultado direto na qualidade de vida.

E o que isso tem a ver com a gordura? Finalmente me convenci de que não faz mal ganhar tamanho e peso (é só um número, a noia tá toda na nossa cabeça), desde que isso não esteja minando minhas capacidades física e mental. Quando me vem aquela vontade de me entupir de chocolate e eu cedo a ela, isso não é sinônimo de liberdade, mas um sinal de que minha ansiedade tá descontrolada. Depois o estômago dói (gastrite), e me sinto numa prisão tão terrível quanto fazer uma dieta de 800 kcal por dia. O yoga me ensinou a alimentar meu corpo com coisas boas, sem precisar contar calorias. É evidente a diferença entre comer pão branco com queijo cheddar e uma banana com aveia e canela. Caloricamente, dá na mesma, mas, no primeiro caso, a gente se sente mais pesada e indisposta. Nem comer demais, nem viver de dieta: acho que está aí a medida para uma relação saudável com o nosso corpo.

O que é o corpo, afinal? É a forma de nosso eu existir no mundo, a única que conhecemos com certeza. E isso não é pouca merda, embora haja gente aí fazendo parecer que é, dizendo que existiriam corpos mais ou menos dignos devido a padrões que sabe-se-lá-quem determinou. Tipo medir tamanho de crânio para dizer que uma raça é inferior a outra, sabe como? Esse tipo de absurdo que a gente corrobora! A gente reafirma isso cada vez que odeia o próprio corpo, que o deixa passando fome ou que o entope de alimentos ruins, que o entalha na mesa cirúrgica ou que o deixa definhar num sofá.

Se você é gorda, e o único mal-estar que isso te causa é se ver na expressão “gorda”, para que sofrer com uma imagem tão superficial de si? Se você é magra e se acha melhor do que as outras por isso (já estive lá), prenuncio que a velhice não vai ser fácil para você. Todo corpo tem suas limitações, ou melhor, suas peculiaridades – uns mais alongados, uns mais robustos, uns mais flexíveis –, e o negócio, a meu ver, não é exigir a igualdade entre todos, mas buscar o melhor de cada um sendo fiel a si próprio.

PS: a expressão do título foi chupada de Hilda Hilst, escritora deslumbrante que não se prendeu às identidades fixas. Ela foi uma loiraça nas rodas chiques de São Paulo, mas também vestiu bata, deixou o cabelo branquear e viveu sozinha num sítio com mais de 90 cachorros. Entre essas metamorfoses, ela se fez uma grande artista.


lunedì 20 luglio 2015

Lugar de

Esses dias, visitando meus pais, tive minha cota anual de TV Globo. Fiquei impressionada ao perceber que as demandas dos movimentos sociais não estão restritas às universidades, mas também chegaram à maior veiculadora de cultura de massa. As novelas agora têm personagens gordas, negras e gays em posições protagonistas, não só nos núcleos cômicos. Elogiável a decisão de finalmente parar de esconder essa grande parcela da população. Por outro lado, nós bem sabemos que não será a Globo que implantará uma revolução real, ela só está reproduzindo um pedacinho das mudanças promovidas a altos preços lá fora por agentes sociais.

Além disso, acho importante frisar, ainda são poucos esses personagens, seguindo mais ou menos um modelo de cotas para atingir o politicamente correto, e não para representar a proporção real dessas pessoas na sociedade brasileira. Duas mulheres negras bem-sucedidas (uma advogada, outra psicóloga) numa mesma novela já é um recorde! Acho que isso é em I (coração) Paraisópolis, uma novela que não me parece ter nenhum outro mérito. Retratar os bandidos da favela como atores brancos – e nem precisa dizer “bonitos”, porque no mundo das novelas todo mundo é impressionantemente bonito – é uma tentativa de driblar um preconceito (“negros são bandidos”), mas que acaba mascarando um dado gritante: a maioria da população encarcerada no Brasil é negra. Não adianta esconder, os negros no geral vivem em condições piores do que os brancos e, por isso, têm mais entrada no crime. Não é uma questão moral, é uma questão econômica.

Enfim, há tanto mais para comentar, mas essa não é a intenção deste post, mesmo porque criticar a Globo é tipo chutar cachorro morto. Minha opção é não assistir a TV, pra não ser bombardeada com tanto absurdo, já me basta o que vejo ao vivo. Na verdade, eu gostaria de dar minha contribuição à atual mobilização midiática para enfrentar os preconceitos contra as minorias no Brasil. Pensei em uma campanha publicitária composta de frases preconceituosas sobre mulheres (causa a que sou, obviamente, mais sensível) seguidas de imagens que as desconstruiriam. Por exemplo:

Lugar de mulher é em casa.
* Foto de mulher fazendo um reparo técnico na casa de outra pessoa.

Lugar de mulher é na pia.
* Foto de mulher em posição sacerdotal batizando uma criança na Igreja Católica.
(Meu sonho!)

Lugar de mulher é no tanque.
* Foto de mulheres dirigindo ou construindo um tanque de guerra.
(Não tenho especial simpatia pelas forças armadas, mas gosto da ideia de uma mulher exercendo este nível de engenharia ou de pilotagem)

Lugar de mulher é em todo lugar. Chega de restrições machistas!

Pensei que poderia haver uma variação desse mesmo modelo de propaganda tratando dos clichês sobre negros no Brasil. Com relação aos termos politicamente corretos, ainda tenho dúvida do que seja mais adequado, por isso me desculpem se minhas escolhas ofenderem alguém. Se eu tiver trocado as bolas, me ensinem como devo fazer. Justifico as minhas opções lexicais: ouço a palavra “preto” muitas vezes em frases racistas, do tipo “serviço de preto”, por isso as mantive no discurso preconceituoso. Já “negro”, embora também possa ser usado de forma pejorativa – tudo depende da intenção de quem diz, né –, me parece a opção mais corrente em discursos não ofensivos, logo, é a que eu uso normalmente.

Lugar de preto é na cozinha.
* Foto de pessoa negra na posição de dona de restaurante chique fiscalizando o trabalho de seus funcionários.

Lugar de preto é na cadeia.
* Foto de pessoa negra trabalhando como delegada.

Lugar de preto é na rua.
*Foto de pessoa negra a) distribuindo panfletos de conscientização política; b) criando uma obra de arte (escultura, pintura, instalação etc.) numa praça; ou c) na posição de presidente, desfilando no Rolls Royce no dia de posse.

A ideia é essa. Executá-la está além de minhas habilidades, por isso, a ofereço a quem quiser usar. Se der certo, divulguem aqui nos comentários pra eu ver.

PS: Aproveito o tema do post para indicar duas obras artísticas sobre preconceito que me comoveram muito recentemente. Uma é a série Mildred Pierce (2011), com Kate Winslet – nada a ver como o péssimo filme protagonizado por Joan Crawford (1945)! Não trata apenas da dificuldade feminina de se estabelecer economicamente pelos próprios esforços, mas da relação complicada entre mãe e filha. A crueldade de Veda (a filha) é algo que me gela o sangue até hoje. Outra indicação é o filme Selma (2014), menos comentado do que deveria. Gostei desse Martin Luther King tão humano, nos faz acreditar que coisas dificílimas podem ser realizadas por qualquer um de nós.



PPS: Ainda sobre estas duas questões, a luta das mulheres e a dos negros, gostaria de sugerir também uma excelente autora de ficção, Flannery O’Connor, escritora americana sulista e grande fã de Martin Luther King. Estou impressionada com a capacidade dela de criar imagens literárias tão reais e dinâmicas quanto cenas de cinema! Nunca li nada parecido. Se ela fosse homem, talvez fosse mais lida e comentada. Vai saber. O fato é que seus contos completos estão publicados pela Cosac Naify, portanto, disponíveis para quem tiver o interesse de conhecer uma excelente ficcionista.

mercoledì 18 marzo 2015

Como me tornei elitista

A partir da polêmica que meu artigo “Antiantielitismo” provocou recentemente (leiam o texto original aqui), gostaria de, neste post, pôr mais lenha na fogueira.

Quanto às acusações de ser elitista e dos comentários de ódio em geral que recebi, prefiro não responder, porque: a) aceito e até espero que discordem da minha opinião, dado que é só uma opinião e não a verdade absoluta; b) escrevi aquele artigo já com o propósito deliberado de provocar polêmica e estou ciente de que, se eu não mexesse com cachorro grande, ninguém se incomodaria e não estaríamos discutindo esse tema que eu julgo tão importante; c) discursos de ódio costumam se calcar em preconceitos, e quem os pratica não está disposto a escutar argumentos alheios, então não vou gastar meu tempo falando ao vento; d) as ofensas só ofendem quando a gente ama demais o próprio ego; e) se eu tiver que explicar o que quis dizer com o meu texto, isso significa que ele foi um fracasso do ponto de vista da comunicação e é melhor deixarmos que ele seja esquecido.

Agora vamos às provocações extras, porque o debate, quando é fecundo, precisa continuar.

- Abordar obras do cânone literário, o que se convencionou a chamar de “alta cultura”, com estudantes da rede pública é sinônimo de passar por cima da cultura deles?

- Por que ninguém reclama que se ensine “alta cultura” em colégios particulares? Acaso só os alunos de colégios públicos têm uma cultura própria a ser valorizada?

- Não é tão difícil para o adolescente rico quanto para o pobre ler obras complexas? Por só condenamos isso em um dos casos?

- Aliás, que cultura do aluno é essa? O professor, que passou por uma formação acadêmica bastante teórica e até “elitista”, para usar o termo polêmico, está apto para falar em nome do outro?

- Não é papel do professor discutir a multiplicidade? Ou seja, ele não deveria ensinar sobretudo aquilo que o aluno não conhece para que este compare com o que conhece e experimente a diversidade social?

- Como podemos incluir a cultura, ou melhor, as tantas culturas dos alunos às aulas de literatura sem adotar um discurso simplista sobre a identidade do outro?

- Por que se condenam traços “elitistas” num colega de curso, mas os elogiamos nos professores da universidade? Ao fazer isso, nós próprios não estamos sendo conservadores sobre o lugar de determinada cultura?

- Por que ninguém se revolta, com a mesma força, contra as aulas burocráticas e tantas vezes inúteis da licenciatura que não nos dá uma mínima luz de como sermos bons professores?


 São questões difíceis e, se queremos nos formar uma geração de bons professores, deveríamos pensar sobre elas. Se as aulas da licenciatura não nos têm ajudado muito nesse aspecto, por que não fomentamos nós mesmos o debate? De preferência publicamente, para que todos possam se beneficiar, e sem ofender os colegas que pensam diferente da gente.

Poemas publicados na coletânea da Flupp 2014

Ano passado participei de um evento muito interessante chamado Flupp Brasil. Sinceramente, ando bem cansada dessas palestras em que você ouve sempre os mesmos debates e reencontra as figurinhas blasées de sempre, mas fui atraída pela oportunidade de no final ter um trabalho publicado em livro. Outro aspecto curioso era ter que cortar a cidade todo dia de ônibus, levava duas horas nos períodos de rush, para chegar à Vila Verde. Naqueles dois dias vivenciei a periferia da minha cidade e tive a prova cabal de que a desigualdade social está intimamente ligada à desigualdade racial. Curitiba é uma cidade caucasiana? Vá para a periferia e você vai descobrir em que condições vivem os milhares de negros curitibanos.

Nesta semana recebi as edições a que os autores selecionados têm direito: dez exemplares. Bom, dado o cenário de publicação de escritores neófitos, já estou bem feliz de não ter tido que pagar para ter um trabalho meu impresso. O que mais lamento é que a circulação seja tão restrita, não só dos meus trabalhos, que nem são grandes coisas (poesia não é meu forte), mas é uma perda pelo conjunto da obra. Pois é, tive a sorte de sair numa coletânea ao lado de muita gente competente, que orgulho!

Bom, numa tentativa de divulgação desse trabalho, copio abaixo os poemas de minha autoria, com algumas pequenas edições, e enfatizo a necessidade de em edições futuras do projeto aumentar a tiragem e a distribuição gratuita dos livros em espaços públicos, como bibliotecas e faróis do saber.

Retratos do Brasil

I – Negativos

Tem cidade onde nunca anoitece.
Tem cidade onde o sol não aparece.
Tem cidade onde nada acontece.
Tem cidade onde ninguém adoece

em leito decente, só perece
morte dolente que não merece.
Sem pressa, sem prece, se esvanece
sem nunca ter sido o sonho: esse

tão agigantado herói agreste.

II – Revelação

Tem brasileiro que passa o Réveillon jogando em cruzeiro
cheirado de pó, doidão de bala,
a mão na bunda de gatas da Playboy.

Tem brasileiro que não passa do Réveillon, jogado em cruzeiro,
chamado ao pó, ímã de bala,
a cara na macumba de galinhas carijós.

III – Álbum

Tem história de senhor e escravo
e traficante.

Tem história de senhora e escrava
e amante.

Tem história de sonhar e escrever
agonizante.

Agora e antes
tem senhor, escravo e traficante.

***

Curitiba

Ofereço o frio.
O preço? Mil
noites gripadas,
coices, baforadas,
caretas em vez de bons-dias,
carteiras pra sempre idas
pra as mãos de menores,
pois bancos escolares
são aquecidos por traseiros
brancos, ricos, herdeiros
de bens e cultura.

Débeis estruturas
prendem a maioria à vida,
podam a maioria ávida
pela ascensão social,
prensada no busão matinal.
Funk bombando no smartphone,
fome apertando, hoje um não come.
Ou dois.
Ou dúzias.
Estudam e trabalham,
se afundam, se atrapalham.
Prestação pra pagar,
redação de vestibular.
Um beque seria maneiro.
Pileque com que dinheiro?
Sauna dos infernos
saúda os internos.
Fora, vento de navalha
faz arrebento na cara.
Fora, sim, é o destino.

Frio ruim de desatino.
É sempre hora de cruz e punhais
em Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

***

Cemitério sob Capricórnio

Em memória de Rafaela Franzoni

As lavadoras de túmulos
reais robustas solenes
vassoura e dois braços gordos
tão boas quanto pão quente

cacarejos nem fofocas
nem sussurros não titilam
ouve elas cantam silêncio
mão e água as pedras limam

além da força dos braços
água farta nada mais
boas como camponesas
bons como os campos gerais.

Bom como o que não há mais
algo que mora em memórias
histórias de noite preta
na varanda com a viola

lá aguardávamos a vida
nova sem ansiedade
só uma firme certeza
tudo morre tudo nasce

mudanças eram bem-vindas
mas naquelas noites não
era o tempo antes do tempo
tempo de contemplação.

Depois caos por que chorei
nem lembro mais o motivo
ranger dente em noites claras
viradas dias a fio

louvei ouro rococó
ridiculamente oco
maculado pelo barro
lavado por braços gordos

das lavadoras de túmulos
que nos velam nos expõem
a veleidade do brilho
o fim de reis e peões.

Velhas aram manhã fresca
chapéus brilham sol em nuvens
lavam os olhos das coisas
perdoam os que se movem

vida é curta e morte é certa
seus olhos em paz ensinam
o que nunca perguntamos
o que lembrar deveríamos

olhar pra trás tantas vezes
recordar o que seremos
a grama dançando sempre
o vento já não é o mesmo.