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Medeia

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"Medeia", de Evely de Morgan (1855-1919)

Você me chama de Medeia,
eu o chamo de Jasão.

Você espera que eu seja Medeia,
eu sei que você é Jasão.

Você diz que não é Jasão,
eu ameaço ser Medeia.

Eu admiro muito Medeia,
você teme ser Jasão.

Eu afasto de mim Medeia,
você é cada vez mais Jasão.

Eu não matarei os filhos de Jasão,
você viverá assombrado por Medeia.

***

Recomendo a leitura de "Medeia", de Eurípedes, uma peça incrível sobre uma mulher forte que sabe ferir, com as mãos e as palavras, aqueles que lhe foram desleais.

Gosto também desta representação pictórica de Medeia, um pouco menos etérea, mais perturbada:

"Medeia", de Anthony Frederick Augustus Sandys (1829-1904)

Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza
quem eu era,
onde eu estava,
para onde eu ia.

E sorri com serenidade.

Muita compaixão por mim
e por aqueles que cruzaram comigo,
afinal, o caminho não era o meu,
era o nosso
-- eu só não havia visto o tanto de gente
que rastejava, saltitava, corria, voava
ao meu lado, pois eu era um espectro faminto,
só enxergava o que parecia alimento
para saciar o meu vazio.

Entendi o valor dos 40
dias... anos...
demônios... ministros...
A tentação, a queda, a morte
que precedem
a luta, a ascensão, a vida.

Se estou viva foi porque morri.

Parei de lamentar a decadência do meu império.
Era lindo, sim, muito imponente
e me custou tanto trabalho,
mas em algum momento ele já não era mais
coisa alguma, senão uma lembrança.

Então eu própria meti fogo em tudo
e me permiti chorar enquanto ruía,
depois enxuguei o rosto com as cinzas
até eu mesma virar cinza.
Pó, terra, matéria disforme.
Nada, possibilidade, sonho.

Venci o deserto quando me entreguei a ele
e me tornei nada…

Poemas sobre o abandono

1- Geografia caseira da exclusão

A esta altura já perdi as contas
de quantos homens me abandonaram.
Os primeiros eram únicos, tinham nome e biografia.
Os mais recentes são legião, mosaico de
nomes e umbigos e vozes e modos de tomar o café,
vieram do além não lembro bem quando
e voltaram para esse lugar que não sei onde é.

Eu fiquei aqui pois não tenho para onde voltar.

Tem fotos minhas, bebê, dentro do cesto de roupas sujas,
um cesto alto e cheio, meias, cuecas, nhacas de todo mundo,
eu, nem um aninho, como fui entrar lá?
Por que bateram a foto em vez de me resgatar?
Quem me pôs lá? Por que não me tiraram de lá?
As perguntas que nunca ousei fazer para eles
pois a resposta seria óbvia e insuportável.

As mães só têm dois braços,
os pais não haviam sido inventados naquela época,
eu, a terceira, rastejava na rabeira da ideia de família.
Além de cestos de roupa suja,
também frequentei casinhas de cachorro,
poças de lama, abraços de pervertidos,
o tapete piniquento ao lado da cama onde os q…

Diário da crise existencial (os falsos aliados)

Só Deus sabe o quanto nesta vida resisti à tentação de dar indiretas nas redes sociais, mas esta mensagem será bem direta. Digo-a em prol da minha sanidade mental, não por algum tipo de vingança.

Uma breve contextualização. Quando a gente está passando por uma longa fase depressiva, lutando para reconstruir uma existência neste mundo, tende a buscar ajuda em vários lugares, até obsessivamente, porque a gente não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos -- eles são tão terríveis que precisamos nos distrair de nós mesmos. O problema é que, na hora do desespero, podemos recorrer a pessoas que não querem o nosso bem, são os falsos aliados.

Essas pessoas tentam tirar alguma vantagem da nossa vulnerabilidade e, após conseguirem ou porque não conseguiram e começa a ser muito trabalhoso insistir, desaparecem, fazendo a gente se sentir ainda mais abandonada do que já estava inicialmente. Felizmente, estou vacinada contra esse tipo de pessoa e, quando isso acontece, eu tento me desape…

Diário da crise existencial (a recaída)

Quando escrevi o post passado, lembro de estar me sentindo otimista, ainda bastante fraca, mas esperançosa de que a melhora não tardaria. Hoje venho para registrar que estou de volta à fase um, total desânimo. Como assim, né? Tinha voltado a me dedicar aos estudos, estava saindo com os amigos, empenhada numa busca mais espiritual... para onde foi tudo isso? Não sei e, no momento, não encontro forças para tentar explicar. Só me sinto um corpo sem vida, deixado de lado, sem ninguém a quem recorrer. Acho que é assim que funciona, não há um progresso linear, a gente fica sempre em torno das mesmas situações até conseguir superá-las de verdade. Felizmente tenho terapia amanhã de manhã, só preciso me aguentar até lá...

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

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Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário.

Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Nes…

Uma questão de método

Depois de inúmeras crises existenciais nos últimos meses, cheguei a um dilema que, acredito, é a base de todos os outros. Alguém tem um palpite de como resolvê-lo a fim de levar uma vida menos sofrida e mais significativa?

Segue. O melhor método para se viver é: a) assumir nossa fragilidade e excessiva dependência do afeto alheio, estabelecendo o maior número de conexões com as pessoas para se cercar de uma rede de proteção emocional, ou b) cortar de vez todos esses vínculos, viver radicalmente a solidão para se fortalecer fora da ilusão de que haja uma possibilidade de salvação individual?

(Como os últimos, imagino que os próximos posts devem seguir nesta linha, estão avisados.)

Como encontrar um bom companheiro

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“Melhores sites de encontro”, “Como conhecer homens”, “Sites de encontro para pessoas inteligentes”, “Experiências afetivas autênticas”. Acabo de confirmar que o Google não tem resposta para tudo, ao menos não conseguiu responder a essas pesquisas satisfatoriamente, por isso escrevo este texto. Quando vocês fizerem as tais buscas e também se frustrarem com os resultados, me encontrarão aqui, igualmente frustrada, então poderemos sentar e conversar sobre aquilo que nos chateia ou só ficarmos em silêncio, nos sentindo menos pressionados ao perceber que esse não é um problema exclusivo nosso. Talvez esta seja até uma das grandes questões do nosso tempo. Podem estranhar: encontrar namorado é a grande questão da atualidade? Não diretamente, mas tem relação, sim, já explico.

Não é segredo para ninguém que as redes sociais atingiram seu sucesso com base na solidão e nas inseguranças de seus usuários. Basicamente todos se sentem mal com relação à própria vida em algum momento (ou quase sempr…

Crise existencial acadêmica

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Alguém se reconhecerá no desabafo abaixo? Pensei em dividir estas angústias para lhes dizer: não estamos sozinhos em acharmos que estamos sozinhos. Porém, mesmo não estando sozinhos no sofrimento, a sensação de solidão ainda é imensa, então não acaba sendo verdade que estamos mesmo sozinhos? Bem-vindos ao clube da eterna crise da pós-graduação! E olhe que nem comecei o doutorado ainda...
Diálogo mental com meu escritor favorito (preencha aqui o nome de sua preferência):
Você que chegou lá, que eu tanto admiro por publicar livros de verdade, me diz como se faz para atingir um ponto em que você se sente seguro de que sabe muitas coisas ou pelo menos sabe muito bem poucas coisas? Quanto mais eu leio e penso, mais evidente fica minha ignorância sobre tudo. Isso na boca de um Sócrates, cujo valor intelectual está bem provado, parecem palavras de sabedoria, mas num contexto de modernidade, em que você é um novato precisando provar para pessoas capacitadas a sua capacidade quando você mesmo…

Minha súdita

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Outro dia assisti ao filme “Meu rei” por indicação de um amigo. Perguntei de que se tratava, ele disse que era um drama francês sobre relacionamentos. Com essas indicações vagas, comecei a vê-lo. As primeiras cenas mostram uma mulher fazendo tratamento para recuperar o joelho (são cenas fortes, demos graças a Deus pelos ligamentos sãos que evitam nosso joelho de dobrar para frente...) e essa mesma personagem cerca de dez anos antes, quando ainda não era mãe. Seu nome é Toni, ela é advogada, parece divertida e segura de si. Na fase da juventude, ela conhece Georgio, formando aquele casal autêntico, cujos encontros iniciais são meio doidos e que a gente acompanha com um sorriso no rosto. Assim segue a narrativa, intercalando o presente (tratamento ortopédico) e o passado, que vai avançando ao encontro do momento atual. O espectador rapidamente entende que essa é a história de como aquele relacionamento começou e se deteriorou. Não posso reclamar de propaganda enganosa, de fato, trata-s…