Odeio comédias românticas, mas, não sei se acontece também com vocês, adoro assisti-las na Sessão da Tarde quando eu estou atolada de coisas para fazer. Só pelo gostinho de fazer o que não deveria, sabem? Num desses dias, quando o TCC ainda me assombrava, vi "O casamento do meu melhor amigo". Filmezinho ruim, quase totalmente previsível, só que me atraiu em alguns aspectos. Vou pontuar em tópicos, porque são duas da manhã e isso não me deixa garantir a qualidade do texto:
1. Julia Roberts estava no auge de sua beleza e, caracterizada como uma jornalista durona e desleixada, me provoca uma simpatia imediata (por que será?);
2. Cameron Diaz, em compensação, está sem graça. Isso faz um bem danado para o ego de mulheres comuns como nós;
3. o macho disputado é bonito, mas um verdadeiro mala. Como a Julia pode gostar dele? É interessante como ela perde a racionalidade por causa desse besta. Mesmo as mais poderosas estão sujeitas a tal recaída. O desfecho disso, que me agrada bastante, é que não há futuro possível para os dois. Amém, porque ele é um machista!
4. o amigo gay é o mais engraçado, bonito e inteligente. Quando ele entra em cena, todos se apagam, exceto a Julia. Esse é o casal mais perfeito, não fosse pelo fato de eles serem super-amigos (isso nunca dá certo) e ele gostar de homens.
Duas cenas memoráveis:
--
Não quero falar de futebol até dia 17/01, quando começa o Paulistão.
martedì 8 dicembre 2009
domenica 6 dicembre 2009
É tudo culpa do Palmeiras
Fui assistir à final do Brasileirão em um boteco perto de casa. No meio de um monte de ursos coxas-brancas, lá estava eu com a minha camisa marca-texto, acompanhada de um amigo paranista e outro atleticano – só que estes não revelaram seus times em prol da segurança pessoal.
O Grêmio abre pontuando. Opa! Coisa boa: tira o Flamengo-Marrentinho do título e dá a esperança ao Palmeiras de chegar lá. Se não desse para nós, pelo menos seria o Inter, que é uma perspectiva não tão má de campeão.
Conforme os próximos gols saíram, a tabela mudava totalmente. São Paulo chegou ao segundo lugar (desespero), Coritiba caiu para o 17º e, o pior, então, acontece: Palmeiras cai para o quinto, perdendo de 2X0 para o Botafogo, e passa a depender do Santos (!) para ir à pré-Libertadores.
No bar, tensão geral. Naquela situação, o que mais me surpreendeu foi que os coxas-brancas ali presentes, desde o primeiro minuto do primeiro tempo, torciam mais para o Palmeiras massacrar o Botafogo do que para o time deles. Com isso, eu vi que eles próprios não tinham fé de que ganhariam do Fluminense, apesar de estar jogando em casa. Estranho, porque, mesmo o alvinegro carioca ganhando do Palmeiras, não seria o fim para o Coritiba, pois cair ou não para a segunda divisão dependeria apenas dele. Era só ganhar que o fodido da história seria o Fluminense. Oras, isso não é muito melhor do que depender de resultados alheios?
Com essa torcida curitibana pelo Palmeiras, a cada gol que este levava, os bruta-montes olhavam torto para mim e diziam “É tudo culpa do Palmeiras”. Aqui segue a minha resposta para os coxas-brancas:
― Cada um faz a sua parte. O Palmeiras não fez a dele e se ferrou, vai ter que assistir os bambis na Libertadores, mesmo estes não tendo a tradição que nós temos nesse campeonato. Agora, se o coxa caiu, a culpa é unicamente deles. Oras, não venha aumentar a nossa responsabilidade. Já está ruim pela merda que fizemos para nós mesmos.
Esse campeonato ainda vai dar muito o que falar. Por parte dos palmeirenses, talvez levantem que o gol que roubaram no jogo contra o Fluminense teria feito toda a diferença entre estar ou não na Libertadores. Mas não vou chorar sobre o leite derramado, porque todos os outros jogos perdidos contra timecos – como esse último – foram inteira responsabilidade do time. Vou fazer o que? Igualar-me aos torcedores do coxa que invadiram o campo hoje destruindo tudo, atacando jogadores, diretoria e policiais?
Fiquei ainda uns 30 minutos após o final da partida no bar, digerindo a informação; só o meu amigo atleticano (ah, e esqueci de mencionar que ele também é corintiano) estava radiante. Então, entra no bar um coxa-branca sangrando. Havia levado dois tiros de borracha na cabeça e cinco nas costas. Machucados bem feios.
Percebi que esse era um sinal de que estava na hora de irmos embora. Mas fui com uma lição aprendida: um time de futebol não vale o nosso sangue. Nem uma gota. Agora, lágrimas a gente oferece à vontade – fazer o que.
O Grêmio abre pontuando. Opa! Coisa boa: tira o Flamengo-Marrentinho do título e dá a esperança ao Palmeiras de chegar lá. Se não desse para nós, pelo menos seria o Inter, que é uma perspectiva não tão má de campeão.
Conforme os próximos gols saíram, a tabela mudava totalmente. São Paulo chegou ao segundo lugar (desespero), Coritiba caiu para o 17º e, o pior, então, acontece: Palmeiras cai para o quinto, perdendo de 2X0 para o Botafogo, e passa a depender do Santos (!) para ir à pré-Libertadores.
No bar, tensão geral. Naquela situação, o que mais me surpreendeu foi que os coxas-brancas ali presentes, desde o primeiro minuto do primeiro tempo, torciam mais para o Palmeiras massacrar o Botafogo do que para o time deles. Com isso, eu vi que eles próprios não tinham fé de que ganhariam do Fluminense, apesar de estar jogando em casa. Estranho, porque, mesmo o alvinegro carioca ganhando do Palmeiras, não seria o fim para o Coritiba, pois cair ou não para a segunda divisão dependeria apenas dele. Era só ganhar que o fodido da história seria o Fluminense. Oras, isso não é muito melhor do que depender de resultados alheios?
Com essa torcida curitibana pelo Palmeiras, a cada gol que este levava, os bruta-montes olhavam torto para mim e diziam “É tudo culpa do Palmeiras”. Aqui segue a minha resposta para os coxas-brancas:
― Cada um faz a sua parte. O Palmeiras não fez a dele e se ferrou, vai ter que assistir os bambis na Libertadores, mesmo estes não tendo a tradição que nós temos nesse campeonato. Agora, se o coxa caiu, a culpa é unicamente deles. Oras, não venha aumentar a nossa responsabilidade. Já está ruim pela merda que fizemos para nós mesmos.
Esse campeonato ainda vai dar muito o que falar. Por parte dos palmeirenses, talvez levantem que o gol que roubaram no jogo contra o Fluminense teria feito toda a diferença entre estar ou não na Libertadores. Mas não vou chorar sobre o leite derramado, porque todos os outros jogos perdidos contra timecos – como esse último – foram inteira responsabilidade do time. Vou fazer o que? Igualar-me aos torcedores do coxa que invadiram o campo hoje destruindo tudo, atacando jogadores, diretoria e policiais?
Fiquei ainda uns 30 minutos após o final da partida no bar, digerindo a informação; só o meu amigo atleticano (ah, e esqueci de mencionar que ele também é corintiano) estava radiante. Então, entra no bar um coxa-branca sangrando. Havia levado dois tiros de borracha na cabeça e cinco nas costas. Machucados bem feios.
Percebi que esse era um sinal de que estava na hora de irmos embora. Mas fui com uma lição aprendida: um time de futebol não vale o nosso sangue. Nem uma gota. Agora, lágrimas a gente oferece à vontade – fazer o que.
giovedì 3 dicembre 2009
Il film più triste che abbia mai guardato
Complete o texto
Na segunda série do Ensino Fundamental, tínhamos um caderno só para redação. Era bacana, ele era grande, com uma página de 30 linhas, o tamanho ideal para um bom texto, e, ao lado, havia outra em branco para a gente desenhar. A professora nos pedia diversos gêneros textuais (exceto poesia; difícil demais para a cabeça dos pequenos), mas o desenho nunca era obrigatório, uma pena. Às vezes, líamos um livro e precisávamos resumi-lo, outras, era dado só o tema, como "minhas férias", e havia também o famigerado "complete o texto".
Eu odiava, porque, por mais que eu tenha sempre sofrido para introduzir uma ideia por escrito, o início é a parte mais (masoquistamente) deliciosa de se fazer. Será ela que dará o tom ao resto da produção. É uma responsabilidade e tanto. Oras, como julgar um escritor que já começa lá do meio? Não há jeito de ele ser bom. A professora desse jeito nos condenava à mediocridade. (Condenar os outros é sempre mais fácil, diz minha consciência.)
Lembro que as minhas redações desse tipo nunca tinham coerência. Eu me sentia mal de assumir como meu um começo que eu não escrevera. Daí eu simplesmente o ignorava e começava uma história nova. Exemplo de algo que eu poderia ter feito no longínquo ano de 1996:
ERA O ANIVERSÁRIO DE FLÁVIA. A MENINA SAIU DA CAMA COM UM PULO E CORREU PARA O QUARTO DE SEUS PAIS. ELA DISSE:
- ONDE ESTÁ O MEU PRESENTE?
(complete o texto)
Tinha alienígenas por todos os lados. A Terra foi invadida bem no dia do aniversário de Flávia. Os pais dela estavam mortos, e os vermes já tinha devorado metade do corpo deles. Essa menina não tem sorte mesmo!
(FIM)
Para completar o círculo de horrores do "complete o texto", nós ainda tínhamos que pensar no título! Desculpem a metáfora, mas fazer título é que nem cagar. Há pessoas que o fazem tranquilamente, com hora marcada, sem sofrimento. Outras atendem a essa necessidade fisiológica com extrema dor. Não raras vezes, eu sou uma escritora de intestino preso. Se a coisa em si já é complica, agora, dar um título a um texto cuja parte principal nem é sua é um incentivo ao plágio! Você se sentiria bem assinando a Monalisa? Ok, eu me sentiria. Mas se tivesse que assinar um daqueles quadros de flores produzidos por tiazonas aposentadas na aula de pintura básica? Grande constrangimento!
Mas vamos lá, tem que fazer, façamos. Em 1996, eu acreditava que estava na moda fazer títulos sucintos, de preferência um artigo, um substantivo e um adjetivo, nessa ordem.
Duas horas depois, eu estava deitada no tapete com vontade de morrer, babando sobre o precioso caderno de redação. Minha mãe passava, olhava torto e ordenava que eu levantasse dali e me comportasse feito uma menina "direita". Ela estava certa, não podia gastar minha vida com aquele título! O que viesse na cabeça eu colocaria. À caneta, para não me arrepender (na época, eu ainda não conhecia errorex).
A CIDADE INVADIDA.
Pronto, genial. Eu poderia, então, ver desenho se a TV Colosso ainda não tivesse acabado. Às 13h15, começava minha aula. Os professores culpam seus alunos adolescentes de sempre procrastinar o trabalho. As crianças, por mais fofinhas que pareçam, não são menos culpadas.
Aos 7 anos, era um conforto pensar que alguns problemas acabariam junto com a escola. Errado. A tendência é se agravarem. Quando a gente descobre isso, desbiroca de vez.
Eu odiava, porque, por mais que eu tenha sempre sofrido para introduzir uma ideia por escrito, o início é a parte mais (masoquistamente) deliciosa de se fazer. Será ela que dará o tom ao resto da produção. É uma responsabilidade e tanto. Oras, como julgar um escritor que já começa lá do meio? Não há jeito de ele ser bom. A professora desse jeito nos condenava à mediocridade. (Condenar os outros é sempre mais fácil, diz minha consciência.)
Lembro que as minhas redações desse tipo nunca tinham coerência. Eu me sentia mal de assumir como meu um começo que eu não escrevera. Daí eu simplesmente o ignorava e começava uma história nova. Exemplo de algo que eu poderia ter feito no longínquo ano de 1996:
ERA O ANIVERSÁRIO DE FLÁVIA. A MENINA SAIU DA CAMA COM UM PULO E CORREU PARA O QUARTO DE SEUS PAIS. ELA DISSE:
- ONDE ESTÁ O MEU PRESENTE?
(complete o texto)
Tinha alienígenas por todos os lados. A Terra foi invadida bem no dia do aniversário de Flávia. Os pais dela estavam mortos, e os vermes já tinha devorado metade do corpo deles. Essa menina não tem sorte mesmo!
(FIM)
Para completar o círculo de horrores do "complete o texto", nós ainda tínhamos que pensar no título! Desculpem a metáfora, mas fazer título é que nem cagar. Há pessoas que o fazem tranquilamente, com hora marcada, sem sofrimento. Outras atendem a essa necessidade fisiológica com extrema dor. Não raras vezes, eu sou uma escritora de intestino preso. Se a coisa em si já é complica, agora, dar um título a um texto cuja parte principal nem é sua é um incentivo ao plágio! Você se sentiria bem assinando a Monalisa? Ok, eu me sentiria. Mas se tivesse que assinar um daqueles quadros de flores produzidos por tiazonas aposentadas na aula de pintura básica? Grande constrangimento!
Mas vamos lá, tem que fazer, façamos. Em 1996, eu acreditava que estava na moda fazer títulos sucintos, de preferência um artigo, um substantivo e um adjetivo, nessa ordem.
Duas horas depois, eu estava deitada no tapete com vontade de morrer, babando sobre o precioso caderno de redação. Minha mãe passava, olhava torto e ordenava que eu levantasse dali e me comportasse feito uma menina "direita". Ela estava certa, não podia gastar minha vida com aquele título! O que viesse na cabeça eu colocaria. À caneta, para não me arrepender (na época, eu ainda não conhecia errorex).
A CIDADE INVADIDA.
Pronto, genial. Eu poderia, então, ver desenho se a TV Colosso ainda não tivesse acabado. Às 13h15, começava minha aula. Os professores culpam seus alunos adolescentes de sempre procrastinar o trabalho. As crianças, por mais fofinhas que pareçam, não são menos culpadas.
Aos 7 anos, era um conforto pensar que alguns problemas acabariam junto com a escola. Errado. A tendência é se agravarem. Quando a gente descobre isso, desbiroca de vez.
martedì 1 dicembre 2009
Poemas pornográficos

Hilda Hilst foi uma das maiores poetisas brasileiras. Por mim, diria até que a maior. Só que, no começo da década de 90, ela já estava com seus 60 anos, e o público em geral mal conhecia sua obra. Ela ficou tão frustrada por não receber reconhecimento proporcional à dedicação que depositava em seu trabalho que desistiu de tentar fazer tudo certinho. Em 1992, então, ela lança "Bufólicas", coletânea de poemas pornográficos ilustrados por Jaguar. (Informações do site da Editora Globo.) São histórias leves, descompromissadas e muito divertidas. Até nessa tentativa de ir contra a corrente, a danada não perde a qualidade.
Em homenagem à querida Hilda, colo dois poemas deste livro e os convido para conhecer o resto do trabalho dela. Tem produções para todos os gostos. Ela criou contos, novelas, poemas, teatro... Tem uma coleção que saiu pela editora Globo no começo nos anos 2000 bem boa. Livros de preço acessível e muito bem editados. Fica a dica.
(Sobre a falta de reconhecimento, tenho uma teoria de que era puro preconceito pelo fato de ela ser bonita. No fundo, as pessoas julgam como se o gene da beleza inibisse o da inteligência. Mas isso é assunto para um outro post...)
O reizinho gay
Mudo, pintudão
O reizinho gay
Reinava soberano
Sobre toda nação.
Mas reinava...
APENAS...
Pela linda peroba
Que se lhe adivinhava
Entre as coxas grossas.
Quando os doutos do reino
Fizeram-lhe perguntas
Como por exemplo
Se um rei pintudo
Teria o direito
De somente por isso
Ficar sempre mudo
Pela primeira vez
Mostrou-lhes a bronha
Sem cerimônia.
Foi um Oh!!! geral
E desmaios e ais
E doutos e senhoras
Despencaram nos braços
De seus aios.
E de muitos maridos
Sabichões e bispos
Escapou-se um grito.
Daí em diante
Sempre que a multidão
Se mostrava odiosa
Com a falta de palavras
Do chefe da Nação
O reizinho gay
Aparecia indômito
Na rampa ou na sacada
Com a bronha na mão.
E eram os agudos
Dissidentes mudos
Que se ajoelhavam
Diante do mistério
Desse régio falo
Que de tão gigante
Parecia etéreo.
E foi assim que o reino
Embasbacado, mudo
Aquietou-se sonhando
Com seu rei pintudo.
Mas um dia...
Acabou-se da turba a fantasia.
O reizinho gritou
Na rampa e na sacada
Ao meio dia:
Ando cansado
De exibir meu mastruço
Pra quem nem é russo.
E quero sem demora
Um buraco negro
Pra raspar meu ganso.
Quero um cu cabeludo!
E foi assim
Que o reino inteiro
Sucumbiu de susto.
Diante de tal evento...
Desse reino perdido
Na memória dos tempos
Só restaram cinzas
Levadas pelo vento.
Moral da história:
a palavra é necessária
diante do absurdo.
--
A cantora gritante
Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os homens maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Malidizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tantas tão claras
Na garganta alva.
Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
cuida que não seja um grito.
lunedì 30 novembre 2009
Minha namorada
― Pai, mãe, esta é a minha namorada, Billie.
Na véspera, nós duas havíamos apostado o que eles criticariam primeiro – o fato de ela ser negra, mulher ou estar morta. Ao ver uma foto do meu pai, aquela carona de fazendeiro texano, ela colocou suas fichas na cor. Não, como típica família de classe média, que assiste todo dia à novela do Manoel Carlos, eles posariam de moderninhos e a acolheriam bem. Foi o meu palpite. Além do mais, quando ela colocava aquele vestido rodado branco parecia um quitute de casamento, linda e deliciosa. Era impossível não gostar dela.
― Mas, filha, vocês duas são mulheres. Como pretendem se casar e ter filhos? – disse meu pai num fio de voz. Ele estava tão chocado que não conseguia nem gritar, como sempre fazia por qualquer coisa, tipo, um livro fora do lugar ou a comida fria.
― Eu já lhes disse há anos que não quero ser nem esposa nem mãe. Não estudei tudo o que estudei para acabar derrotada por esse ideal capitalista e machista.
― Você e essas ideias feministas. Depois que você veio com aquela tal de Beauvoir pra dentro de casa, até sua mãe se recusa a lavar as louças. Eu trabalho a minha vida toda, dou tudo para vocês e é assim que me retribuem?
― Viu, mãe, eu disse para você que deveria voltar a estudar e procurar um trabalho o quanto antes. É assim mesmo que os machistas agem: ‘eu te dei tudo e agora você me abandona’. Não, mãe, ele só lhe deu o dinheiro dele e, em troca, quer a sua vida. É justo?
Minha mãe me puxa de lado, dizendo que quer me mostrar algo na cozinha. Eu digo a Billie que espere no meu quarto.
― Sabe a minha coleção de gibis de que sempre falo? Veja lá! - na verdade, quero me assegurar de que meu pai não pulará no pescoço dela enquanto eu estiver afastada.
Minha mãe então começa seu apelo:
― Filha, eu não estou contra você. Tenho muito orgulho de que seja independente e tudo o mais. Aliás, quando você dizia que adorava um negão, sempre te dei a maior força. Mas agora você aparece com uma NEGONA? Pense bem, se for mulher não tem a vantagem que nos atrai nos negões, hein? – ela, então, pisca e dá uma risadinha. Minha mãe tentando se fazer de malandra era muito engraçado. Ela me prefere ninfomaníaca a contar às amigas que tem uma filha lésbica. Vai entender esses valores cristãos.
― Eu já tenho um negão de borracha! – e copio a piscada dela.
Adoro fazer piadas que choquem os meus velhos. Se um dia eles caírem duros, podem me prender. Não me canso disso.
Chamo Billie de volta à sala e pergunto o que terá de almoço, para ver se a situação volta à normalidade. Impossível. Nessa altura do campeonato, minha mãe está chorando na cozinha e meu pai, roxo, prestes a explodir. Olho para minha bela namorada e ela me olha de volta, em solidariedade. Eu adoro isso nela: não se envergonha por ser negra e mulher (por que o faria?) e ainda tem dó daqueles que a humilham por conviver mal com a aparência dela.
― Chega desse teatrinho. A Billie é uma mulher maravilhosa, e nenhum de vocês sequer cogitou conhecê-la melhor. Se o fizessem, saberiam como she’s got soul.
Billie limpa a garganta, põe a mão sobre o peito, como se o coração lhe doesse, e canta “Strange Fruit”.
Meus velhos infelizmente não entendiam a letra dessa música, um dos mais belos poemas em língua inglesa, mas se percebia que estavam profundamente comovidos. Também, se não estivessem, seria sinal de que haviam perdido toda a humanidade.
― Sinto muito, Billie. – disse minha mãe, limpando as lágrimas.
― Já passou para o lado delas, é? Bem típico de você. – atacou meu pai – Eu só estou preocupado com o seu futuro, filha, e vocês me tratam como se eu fosse o vilão dessa história. Afinal, de que vocês duas pretendem viver? De alma, de música? Você precisa é de um homem que te sustente, que te pague um belo vestido e entradas na primeira fila do Carnegie Hall. Você não precisa se casar com essa daí para ouvir a música dela. É só ter dinheiro.
― De fato, dinheiro é o melhor consolo para uma vida infeliz. Pode parecer ingênuo querer viver de poesia e amor, mas é o que eu mais quero agora. Talvez eu me estrepe daqui a uns anos. Mas, se abandonar isso antes mesmo de tentar, estarei me igualando a vocês, uns frustrados. Eu só tenho 20 anos, e vocês querem me condenar a uma vida de tédio! O tédio virá mais cedo ou mais tarde, já me ensinou Camus, mas enquanto ele não chegou, eu quero viver, viver e ouvir música até me acabar. Quando a juventude chegar ao fim e eu não suportar mais acordar de manhã, quando o melhor momento do meu dia for fazer compras no shopping, daí eu volto aqui e digo que vocês estavam certos, mas esse dia não é hoje.
― Desde criança essa menina é assim, adora um discursinho emotivo. Vamos ver quanto tempo você vai aguentar, Billie. – resmungou meu pai.
― Vamos, gente, sentem à mesa antes que o almoço esfrie – disse minha mãe – Você gosta de suflê de espinafre, Billie? Espero que sim, porque aqui em casa a gente é muito natureba, sabe.
Na véspera, nós duas havíamos apostado o que eles criticariam primeiro – o fato de ela ser negra, mulher ou estar morta. Ao ver uma foto do meu pai, aquela carona de fazendeiro texano, ela colocou suas fichas na cor. Não, como típica família de classe média, que assiste todo dia à novela do Manoel Carlos, eles posariam de moderninhos e a acolheriam bem. Foi o meu palpite. Além do mais, quando ela colocava aquele vestido rodado branco parecia um quitute de casamento, linda e deliciosa. Era impossível não gostar dela.
― Mas, filha, vocês duas são mulheres. Como pretendem se casar e ter filhos? – disse meu pai num fio de voz. Ele estava tão chocado que não conseguia nem gritar, como sempre fazia por qualquer coisa, tipo, um livro fora do lugar ou a comida fria.
― Eu já lhes disse há anos que não quero ser nem esposa nem mãe. Não estudei tudo o que estudei para acabar derrotada por esse ideal capitalista e machista.
― Você e essas ideias feministas. Depois que você veio com aquela tal de Beauvoir pra dentro de casa, até sua mãe se recusa a lavar as louças. Eu trabalho a minha vida toda, dou tudo para vocês e é assim que me retribuem?
― Viu, mãe, eu disse para você que deveria voltar a estudar e procurar um trabalho o quanto antes. É assim mesmo que os machistas agem: ‘eu te dei tudo e agora você me abandona’. Não, mãe, ele só lhe deu o dinheiro dele e, em troca, quer a sua vida. É justo?
Minha mãe me puxa de lado, dizendo que quer me mostrar algo na cozinha. Eu digo a Billie que espere no meu quarto.
― Sabe a minha coleção de gibis de que sempre falo? Veja lá! - na verdade, quero me assegurar de que meu pai não pulará no pescoço dela enquanto eu estiver afastada.
Minha mãe então começa seu apelo:
― Filha, eu não estou contra você. Tenho muito orgulho de que seja independente e tudo o mais. Aliás, quando você dizia que adorava um negão, sempre te dei a maior força. Mas agora você aparece com uma NEGONA? Pense bem, se for mulher não tem a vantagem que nos atrai nos negões, hein? – ela, então, pisca e dá uma risadinha. Minha mãe tentando se fazer de malandra era muito engraçado. Ela me prefere ninfomaníaca a contar às amigas que tem uma filha lésbica. Vai entender esses valores cristãos.
― Eu já tenho um negão de borracha! – e copio a piscada dela.
Adoro fazer piadas que choquem os meus velhos. Se um dia eles caírem duros, podem me prender. Não me canso disso.
Chamo Billie de volta à sala e pergunto o que terá de almoço, para ver se a situação volta à normalidade. Impossível. Nessa altura do campeonato, minha mãe está chorando na cozinha e meu pai, roxo, prestes a explodir. Olho para minha bela namorada e ela me olha de volta, em solidariedade. Eu adoro isso nela: não se envergonha por ser negra e mulher (por que o faria?) e ainda tem dó daqueles que a humilham por conviver mal com a aparência dela.
― Chega desse teatrinho. A Billie é uma mulher maravilhosa, e nenhum de vocês sequer cogitou conhecê-la melhor. Se o fizessem, saberiam como she’s got soul.
Billie limpa a garganta, põe a mão sobre o peito, como se o coração lhe doesse, e canta “Strange Fruit”.
Meus velhos infelizmente não entendiam a letra dessa música, um dos mais belos poemas em língua inglesa, mas se percebia que estavam profundamente comovidos. Também, se não estivessem, seria sinal de que haviam perdido toda a humanidade.
― Sinto muito, Billie. – disse minha mãe, limpando as lágrimas.
― Já passou para o lado delas, é? Bem típico de você. – atacou meu pai – Eu só estou preocupado com o seu futuro, filha, e vocês me tratam como se eu fosse o vilão dessa história. Afinal, de que vocês duas pretendem viver? De alma, de música? Você precisa é de um homem que te sustente, que te pague um belo vestido e entradas na primeira fila do Carnegie Hall. Você não precisa se casar com essa daí para ouvir a música dela. É só ter dinheiro.
― De fato, dinheiro é o melhor consolo para uma vida infeliz. Pode parecer ingênuo querer viver de poesia e amor, mas é o que eu mais quero agora. Talvez eu me estrepe daqui a uns anos. Mas, se abandonar isso antes mesmo de tentar, estarei me igualando a vocês, uns frustrados. Eu só tenho 20 anos, e vocês querem me condenar a uma vida de tédio! O tédio virá mais cedo ou mais tarde, já me ensinou Camus, mas enquanto ele não chegou, eu quero viver, viver e ouvir música até me acabar. Quando a juventude chegar ao fim e eu não suportar mais acordar de manhã, quando o melhor momento do meu dia for fazer compras no shopping, daí eu volto aqui e digo que vocês estavam certos, mas esse dia não é hoje.
― Desde criança essa menina é assim, adora um discursinho emotivo. Vamos ver quanto tempo você vai aguentar, Billie. – resmungou meu pai.
― Vamos, gente, sentem à mesa antes que o almoço esfrie – disse minha mãe – Você gosta de suflê de espinafre, Billie? Espero que sim, porque aqui em casa a gente é muito natureba, sabe.
Questões raciais, i barboni, jazz, punks em Veneza e um Power point
Haveria tudo isso no texto que eu tinha em mente para hoje. Mas aí as coisas aconteceram e os tênues laços entre esses elementos se desmancharam feito pele de bebê em ácido. Perda total.
Fico sem ar quando relembro a rodada do Brasileirão deste domingo.
Fico sem ar quando relembro a rodada do Brasileirão deste domingo.
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