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Comentários aleatórios sobre “Master of none” (poderia ser uma resenha se eu estivesse mais empenhada)

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Começo esclarecendo que não gosto de seguir séries. Já fiz muito isso no passado, mas não me sentia bem, pois sabia que, mais do que um hobby, era uma forma de evitar algum problema maior: eu só deitava no sofá e deixava o dia passar, entretida demais para ter pensamentos obsessivos. No fim das contas, ver séries não era muito diferente de me entregar a joguinhos de frutas, compras online, aplicativos de encontro... todos meios de dar asas à ansiedade e à compulsão, ainda que disfarçados de atividades felizes e produtivas.

Apesar dessa objeção, admito que há algumas poucas séries que ultrapassam a barreira do entretenimento compulsivo e conseguem ter um efeito mais duradouro sobre mim, flertando fortemente com o cinema de qualidade. Fazem isso não no atacado – como “Friends”, em que aqueles personagens se tornam tão presentes na nossa vida que a gente desenvolve uma bizarra familiaridade com eles –, mas no varejo, com episódios tão bem executados que a gente precisa de uns minutinhos…

Sobre não fazer sexo

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Outro dia, esperando meu ônibus, pratiquei o hobby favorito dos aspirantes a escritor – ouvir a conversa alheia. Uma mulher de 58 anos falava com a cobradora, que devia ter uns quarenta e poucos, sobre as sem-vergonhices que os homens vinham lhe propondo nos aplicativos de encontro. Casada por 30 anos, a primeira se orgulhava de nunca ter precisado fazer “aquelas coisas nojentas”, “pôr o negócio na boca”, “ali atrás” e assim vai (ela fazia uns sons de vômito ao mencionar isso, era meio triste, meio engraçado), e estava chocada por ter descoberto que hoje em dia a mulherada logo fazia tudo isso com qualquer um. A senhora concluiu seu raciocínio dizendo que era por esse motivo que os homens não as respeitavam, enquanto ela, que estava casta há três anos, desde a morte do marido, era desejada por vários, por ser “diferente” das outras.

Era noite de domingo, estávamos só nós três dentro da estação-tubo – nota contextual: em Curitiba, o cobrador fica dentro do ponto quando este é fechado,…

Do amor ao próximo

Vós vos amontoais junto ao próximo e tendes belas palavras para isso. Mas eu vos digo: vosso amor ao próximo é vosso mau amor por vós mesmos.

Fugis de vós mesmos em direção ao próximo, e desejaríeis fazer disso uma virtude: mas eu enxergo através de vosso “desinteresse”.

O Tu é mais antigo que o Eu; o Tu foi santificado, mas o Eu ainda não: assim, o homem se apressa para junto do próximo.

Eu vos aconselho o amor ao próximo? Aconselho-vos antes a fuga ao próximo e o amor ao distante!

Mais alto que o amor ao próximo está o amor ao distante e futuro; ainda mais alto que o amor aos homens está o amor a coisas e fantasmas.

Esse fantasma que corre à tua frente, meu irmão, é mais belo do que tu; por que não lhe dás tua carne e teus ossos? Mas tens medo e corres para teu próximo.

Não suportais a vós mesmos e não vos amais o bastante: por isso quereis induzir o próximo a vos amar, dourando-vos com seu erro.

Eu quisera que não suportásseis qualquer tipo de próximo e seus vizinhos; então teríeis de cri…

Coleção de vídeos para vivenciar e entender a deprê

Meus amigos já estão cansados de receber sugestões desta página, The School of Life, mas deixo aqui uma pequena coletânea que pode ser útil para quem estiver passando por um momento de crise parecido com o que estive/estou passando. A verdade é que eu me abri muito nos posts passados justamente imaginando essa pessoa que poderia estar precisando de ajuda, como eu também estava, mas sei lá... acho que está sendo um esforço inútil, só exposição gratuita, uma vontade grande de me fazer útil para alguém ou uma esperança muito tola de alguém sentir pena de mim e me acolher. Não quero mais fazer isso, quero voltar à programação normal, só publicar textos opinativos sobre temas interessantes, exercitar um pouco minha má literatura, essas coisas... Então, ficam abaixo os vídeos para acompanhar aquele que nunca cheguei a abandonar, porque a pessoa nunca nem soube da minha existência e sequer quis ser ajudada por mim.

Sobre sentir-se deprimido: https://www.youtube.com/watch?v=UoLWYhwROBI

Sobre …

Medeia

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"Medeia", de Evely de Morgan (1855-1919)

Você me chama de Medeia,
eu o chamo de Jasão.

Você espera que eu seja Medeia,
eu sei que você é Jasão.

Você diz que não é Jasão,
eu ameaço ser Medeia.

Eu admiro muito Medeia,
você teme ser Jasão.

Eu afasto de mim Medeia,
você é cada vez mais Jasão.

Eu não matarei os filhos de Jasão,
você viverá assombrado por Medeia.

***

Recomendo a leitura de "Medeia", de Eurípedes, uma peça incrível sobre uma mulher forte que sabe ferir, com as mãos e as palavras, aqueles que lhe foram desleais.

Gosto também desta representação pictórica de Medeia, um pouco menos etérea, mais perturbada:

"Medeia", de Anthony Frederick Augustus Sandys (1829-1904)

Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza
quem eu era,
onde eu estava,
para onde eu ia.

E sorri com serenidade.

Muita compaixão por mim
e por aqueles que cruzaram comigo,
afinal, o caminho não era o meu,
era o nosso
-- eu só não havia visto o tanto de gente
que rastejava, saltitava, corria, voava
ao meu lado, pois eu era um espectro faminto,
só enxergava o que parecia alimento
para saciar o meu vazio.

Entendi o valor dos 40
dias... anos...
demônios... ministros...
A tentação, a queda, a morte
que precedem
a luta, a ascensão, a vida.

Se estou viva foi porque morri.

Parei de lamentar a decadência do meu império.
Era lindo, sim, muito imponente
e me custou tanto trabalho,
mas em algum momento ele já não era mais
coisa alguma, senão uma lembrança.

Então eu própria meti fogo em tudo
e me permiti chorar enquanto ruía,
depois enxuguei o rosto com as cinzas
até eu mesma virar cinza.
Pó, terra, matéria disforme.
Nada, possibilidade, sonho.

Venci o deserto quando me entreguei a ele
e me tornei nada…

Poemas sobre o abandono

1- Geografia caseira da exclusão

A esta altura já perdi as contas
de quantos homens me abandonaram.
Os primeiros eram únicos, tinham nome e biografia.
Os mais recentes são legião, mosaico de
nomes e umbigos e vozes e modos de tomar o café,
vieram do além não lembro bem quando
e voltaram para esse lugar que não sei onde é.

Eu fiquei aqui pois não tenho para onde voltar.

Tem fotos minhas, bebê, dentro do cesto de roupas sujas,
um cesto alto e cheio, meias, cuecas, nhacas de todo mundo,
eu, nem um aninho, como fui entrar lá?
Por que bateram a foto em vez de me resgatar?
Quem me pôs lá? Por que não me tiraram de lá?
As perguntas que nunca ousei fazer para eles
pois a resposta seria óbvia e insuportável.

As mães só têm dois braços,
os pais não haviam sido inventados naquela época,
eu, a terceira, rastejava na rabeira da ideia de família.
Além de cestos de roupa suja,
também frequentei casinhas de cachorro,
poças de lama, abraços de pervertidos,
o tapete piniquento ao lado da cama onde os q…

Diário da crise existencial (os falsos aliados)

Só Deus sabe o quanto nesta vida resisti à tentação de dar indiretas nas redes sociais, mas esta mensagem será bem direta. Digo-a em prol da minha sanidade mental, não por algum tipo de vingança.

Uma breve contextualização. Quando a gente está passando por uma longa fase depressiva, lutando para reconstruir uma existência neste mundo, tende a buscar ajuda em vários lugares, até obsessivamente, porque a gente não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos -- eles são tão terríveis que precisamos nos distrair de nós mesmos. O problema é que, na hora do desespero, podemos recorrer a pessoas que não querem o nosso bem, são os falsos aliados.

Essas pessoas tentam tirar alguma vantagem da nossa vulnerabilidade e, após conseguirem ou porque não conseguiram e começa a ser muito trabalhoso insistir, desaparecem, fazendo a gente se sentir ainda mais abandonada do que já estava inicialmente. Felizmente, estou vacinada contra esse tipo de pessoa e, quando isso acontece, eu tento me desape…

Diário da crise existencial (a recaída)

Quando escrevi o post passado, lembro de estar me sentindo otimista, ainda bastante fraca, mas esperançosa de que a melhora não tardaria. Hoje venho para registrar que estou de volta à fase um, total desânimo. Como assim, né? Tinha voltado a me dedicar aos estudos, estava saindo com os amigos, empenhada numa busca mais espiritual... para onde foi tudo isso? Não sei e, no momento, não encontro forças para tentar explicar. Só me sinto um corpo sem vida, deixado de lado, sem ninguém a quem recorrer. Acho que é assim que funciona, não há um progresso linear, a gente fica sempre em torno das mesmas situações até conseguir superá-las de verdade. Felizmente tenho terapia amanhã de manhã, só preciso me aguentar até lá...

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

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Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário.

Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Nes…