Para que investir em humanidades e artes?


Grande dia! Hoje havia papel e sabonete no banheiro da biblioteca da UF**. É raríssimo haver os dois, ainda mais no masculino. Tenho usado o masculino, porque o feminino está interditado desde o começo do semestre, sem previsão de conserto. Saindo de lá, pude voltar toda minha atenção para a leitura de Richard Rorty, já que não precisaria gastar energia mental pensando nos germes que eu carregava após uma ida ao banheiro sem os utensílios básicos de higiene. Hoje não!

Com as retaliações, quero dizer, as contingências no Ensino Superior, muitos universitários têm ido a público para demonstrar a importância de suas pesquisas para a sociedade. Eu, como doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e bolsista da Capes, me sinto na obrigação de fazer o mesmo. Só temo não conseguir fazer isto tão rápido, angariar simpatias já à primeira vista. Tenham paciência para ler este texto e talvez, até o fim dele, quem sabe...

Durante a minha pesquisa, não uso jaleco, nem bisturi, nem pipeta, nem capacete... enfim, nenhum acessório que renda uma boa imagem de “o Brasil está progredindo”. Se fossem fotografar o que eu mais faço, a imagem seria de uma mulher sentada na biblioteca, lendo e escrevendo por horas a fio. Eu pesquiso sobre ficção experimental brasileira contemporânea e tento identificar uma linhagem de autores que praticam uma prosa na qual convergem literatura e filosofia. É um estudo bastante sofisticado, que exige que eu leia textos complexos de filosofia, linguística, antropologia, história, retórica, psicanálise, artes plásticas etc. Hoje estava lendo Rorty, semana passada era Herder, antes disso foi João Barrento e Maria Gabriela Llansol... e ainda sinto que estou tateando no escuro, tentando dar conta de fenômenos que atravessam diversas culturas e longos períodos históricos. Passo cerca de oito horas por dia lendo, mas raramente sinto-me entediada ou solitária, pois estou em constante diálogo com escritores que refletiram sobre a experiência de existir neste planeta. Eles me contam coisas impressionantes! Só posso fazer isso em quantidade e com qualidade porque recebo uma bolsa de estudos.

Como contrapartida da bolsa, neste semestre assumi duas turmas da graduação em Letras. Montei um programa que trata de literatura afro-brasileira, africana e portuguesa. A princípio não tem muita relação com o que pesquiso, por isso tive que passar vários meses me preparando para dar essas aulas. Não encaro esse período como perda de tempo, já que minha meta profissional é mesmo dar aulas e, a meu ver, os melhores professores são aqueles que conseguem estabelecer relações abrangentes e construir interpretações além do óbvio.

Mesmo que não use essas informações na minha tese, tudo isso me ajuda a entender os movimentos da literatura em suas diversas expressões. Além disso, vou aprimorando minha didática, fora que o contato com os graduandos me enche de energia e esperança quanto ao futuro. Eles são tão interessados, repletos de paixão no falar e no agir, que me sinto honrada de participar da formação profissional deles. Quando penso que amanhã discutiremos textos incríveis de Carolina Maria de Jesus e Mia Couto, sei que me levantarei animada, sem nem apertar o botão da soneca quando o despertador tocar às 6h.

Eu moro perto da Universidade, para gastar menos tempo e energia no deslocamento – isso faz toda diferença numa metrópole. Para ter esse privilégio, gasto metade da bolsa só no aluguel e, mesmo assim, como se trata de um campus grande, ainda preciso usar o transporte interno da instituição, que é gratuito, para chegar ao meu prédio. Nessa rota, que repito todos os dias, vou lendo. Esse é o momento das leituras “de lazer”, quando eu leio textos que não têm relação direta com a tese nem com as aulas. (No fim, sempre tem alguma relação, afinal, tudo que é humano nos diz respeito, não é?) Hoje li algumas cantigas de amor do antigo oriente. Considero esse momento importante para que eu própria mantenha o brilho nos olhos ao tratar de literatura em sala de aula. Estar animada é crucial no processo de mediação de leitura, pois incentiva os alunos a lerem mais e com alegria.

Aproveito todas as oportunidades de cursos oferecidos pela Universidade que encaixem na minha rotina de pesquisa. Além de frequentar palestras, bancas e outros eventos acadêmicos, já fiz um curso intensivo de inglês e, no momento, estudo Latim. A princípio, me matriculei por pura curiosidade, amor ao conhecimento gratuito, mas percebo que o curso está amadurecendo meu olhar sobre minha própria língua e a literatura vernácula. É fascinante. Posso falar sobre isso com colegas, já que tenho o privilégio de estar cercada de pessoas que também amam literatura e a estudam. São conversas não só instrutivas como divertidas, rendem várias piadas e causos.

Às vezes, temo que eu esteja estudando para me tornar uma mendiga erudita, já que os empregos modernos não valorizam esse tipo de conhecimento. Mas, se eu e outros corajosos não estivéssemos fazendo isso, o que seria feito desse conhecimento milenar? Certos saberes podem não ter uma aplicação imediata, mas manter o contato com eles é uma forma de honrarmos nossa cultura e até de nos tornarmos mais prudentes. É uma questão de aprender a viver melhor mesmo. Se sabedoria não é algo aplicável, o que mais é?

Quando eu dedico algumas horas para estudar declinações e conjugações latinas, como fiz ontem, é um tempo em que não estou nas redes sociais xingando ninguém, nem espalhando desinformação, nem consumindo itens nocivos para mim ou para o meio ambiente. Além disso, é um aprendizado enorme de paciência e humildade. Entendi na prática que não devo atropelar ninguém para obter vantagens, pois no Latim o que importa é a constância da dedicação. Aqui não há sobrenome, conta bancária ou padrinho político que propulsione o resultado, há apenas trabalho duro.

Porque estudo Latim, literatura, filosofia e todas essas coisas que certos gestores truculentos consideram supérfluas, ninguém vai me encontrar sendo bruta e autoritária. Se eu me sinto angustiada, retiro-me em busca de conselho nos livros ou tento expressar-me artisticamente, como fiz no aniversário do assassinato de Marielle, mas jamais vou descontar minhas frustrações gritando com quem quer que seja. Se eu erro, procuro entender o que houve e me redimir. Tendo uma visão ampla de como as coisas acontecem neste país, quem consegue desfrutar de banquetes internacionais sabendo que há gente passando fome aqui pertinho?

Ajo assim, pois minha trajetória de estudos humanísticos me levou a compreender as agruras humanas e a lutar por justiça social. Portanto, gasto minhas energias naquilo que pode me acrescentar. Por exemplo, conhecendo Latim, estou lendo os discursos de Cicero, que mostram como a corrupção e os abusos de poder não são exclusivos da nossa sociedade e apontam como combater essas práticas.

Já pensaram se todas as pessoas, independente de quais fossem suas profissões, tivessem um tempo diário para ler, pensar na vida, buscar autoconhecimento e sabedoria? Pensem no ganho emocional de termos conversas em que os interlocutores estivessem comprometidos com os fatos e com a lógica dos argumentos, sendo sinceros em vez de só humilharem quem pensa diferente! Quanto mais eu leio, mais percebo como a vida é múltipla e como é absurdo eu impor a minha moral a outrem. Desse modo, claro que não defendo a literatura como uma imposição (seria uma contradição minha, a escola é que insiste no erro), mas acredito que é uma oportunidade para as pessoas se tornarem versões melhores de si próprias a custos baixíssimos. Qual é o custo de manutenção de uma biblioteca em relação a um shopping center ou qualquer um desses monumentos de consumismo?

Em suma, meu ponto é que disponibilizar conhecimento de diversas fontes à população é uma forma de fornecer ferramentas para um viver pacífico, justo e, por que não, mais alegre. Ler um bom livro é uma dádiva, um bem duradouro e gratuito. Mas não achem que o brasileiro vai ler muitas coisas se estiver se estafando horas por dia para sobreviver, sem acesso a bons professores e a boas bibliotecas, sem um mínimo de silêncio e paz de espírito. Quando o governo me paga uma bolsa, eu estou ajudando a preservar uma parte do patrimônio cultural da humanidade e também, assim gosto de pensar, propiciando o espaço e o silêncio necessários para que possamos refletir sobre nossas vidas. Não é um ganho imediato, mas é essencial – esses minutos para pensarmos com calma e tomarmos boas decisões.

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Só para deixar bem claro, translúcido. Nas universidades federais, nosso único luxo é ter um espaço para conviver com excelentes professores e colegas, mas em questão de recursos materiais, já estamos vivendo com o mínimo há anos, e o orçamento só foi encolhendo. Cortar ainda mais seria inviabilizar instituições que não só são essenciais para a formação de profissionais, a pesquisa e a prestação de serviços à comunidade, como produzem milhares de empregos diretos e indiretos.

Já que o atual governo gosta tanto dos Estados Unidos, que tal seguir este exemplo: o presidente Roosevelt superou a crise de 1929 por meio de investimentos públicos que criaram empregos e reaqueceram a economia. Está tudo lá nos livros de história... Então, em vez de tirar verba do professor que ensina isso, por que não aprender com ele? Tenho certeza de que boas ideias não faltarão, temos brasileiros bastante inteligentes e bem informados nas universidades. Se algum desses bagunceiros de que tanto se fala por aí conseguir passar por graduação, mestrado, doutorado e concurso... meu Deus, essa pessoa precisa ser estudada, pois é um gênio! O que vejo mesmo é muito trabalho duro. Se duvidam, venham ver. Irão me encontrar lá na biblioteca.

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