Crise existencial acadêmica

Alguém se reconhece no desabafo abaixo? Pensei em dividir estas angústias para lhes dizer: não estamos sozinhos em achar que estamos sozinhos. Porém, mesmo não estando sozinhos, a sensação de solidão é imensa, então não acaba sendo verdade que estamos mesmo sozinhos? Bem-vindos ao clube da eterna crise da pós-graduação! E olhe que nem comecei o doutorado ainda...

Diálogo mental com meu escritor favorito (preencha aqui o nome de sua preferência):

Você que chegou lá, que eu tanto admiro por publicar livros de verdade, me diz como se faz para atingir um ponto em que você se sente seguro de que sabe muitas coisas ou pelo menos sabe muito bem poucas coisas? Quanto mais eu leio e penso, mais evidente fica minha ignorância sobre tudo. Isso na boca de um Sócrates, cujo valor intelectual está bem provado, parecem palavras de sabedoria, mas num contexto de modernidade, em que você é um novato precisando provar para pessoas capacitadas a sua capacidade quando você mesmo duvida da mesma, é assustador. Se eu ainda soubesse fazer algo prático, como plantar ou construir coisas com minhas mãos... mas sou mais uma dessas inúteis produzidas em série nas universidades de Ciências Humanas: tenho uma vaga ideia da existência de muitas coisas, mas não conheço nada bem. Acho que é isso que você chama de papagaio de pirata, não? Tomar consciência de que somos isso melhora nossas chances de salvação?

Com essa mentalidade, não vou sobreviver muito tempo na academia, se é que vão me deixar ingressar desta vez. O problema é que comecei a pensar o que eu sei fazer na prática e cheguei à conclusão de que nada. Aquilo em que consigo investir minhas energias obtendo algum prazer é ler. Estava tudo bem quando era um hobby e eu não tinha que prestar contas disso a ninguém; o problema é ter que alcançar excelência nesse negócio e ainda tirar dinheiro e valor social disso. Eu devia ter me casado enquanto era nova e menos feia. Até há pouco tempo, essa ideia, ainda que absurda, era um plano B para o caso de tudo dar errado, agora estou velha demais até para fazer algo que nunca me interessou de fato. É o desespero de se perceber sem nenhuma “rede de segurança” quando você só tem o plano A, que é basicamente abraçar o abismo. Hoje ficou muito claro para mim que só tenho umas frases de segunda-mão que as pessoas no mundo lá fora não conseguem entender nem apreciar e as de dentro nem chegam a ouvir, porque não estou lá dentro para lhes dizer. Nessas circunstâncias, sendo a rainha da mediocridade sem, contudo, poder voltar à completa ignorância, melhor lapidar um pouco essas frases de segunda-mão: são tudo o que tenho agora.

Como alguém consegue passar anos estudando Filosofia e ainda encontrar tranquilidade na vida? A vida parecia um pouco mais fácil quando eu confiava na sabedoria daqueles que haviam vindo antes de mim e organizado os procedimentos. Cheguei a um ponto em que percebi que os procedimentos só servem para te distrair do fato de que não há procedimentos, e uma vez perdida a inocência... bye bye!

Não entendo nada do que esse Heidegger fala e tampouco consigo aceitar a incompreensão como se fosse natural, o tal "mito da racionalidade". Quero entender, sim! Alguém me passa o gabarito desta questão chamada vida! Filosofia não é para as pessoas de nervos fracos. Alguém me diga UMA verdade, isso de procurar A verdade não está dando certo, eu não consigo suportar o que vejo... Cala a boca, Zaratustra!

Gostaria de dizer "seja o que Deus quiser", mas o idiota matou Deus, então estamos só nós aqui, tão débeis, diante desta imensa responsabilidade. Muito obrigada, Sr. Filósofo!

Caro escritor, agradeço se me disser algumas palavras amenas. Sei que não é sua praia, mas seria legal da sua parte, como uma exceção, um favor mesmo. Estou cansada de buscar a coisa primeira, talvez ela nem exista (melhor nem pensar nisso!), só quero me sentir bem um instante. Depois a gente vê o que faz...

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Agora um quadrinho deste ótimo site (http://existentialcomics.com/) para a gente rir um pouco da nossa tragédia na tentativa de não cair em desespero niilista...



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