Discurso de premiação do Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Clève 2017

Nota preliminar:

Meu conto "O chiqueiro" foi classificado em quarto lugar no Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Cléve deste ano. Eu descobri que não teria direito a publicação quando anunciaram o resultado e que eu apenas receberia um certificado na cerimônia Mulheres Paranaenses, tirariam uma foto minha (aqui: http://www.unibrasil.com.br/noticias/detalhes.asp?id_noticia=14523) e era só isso. Então comecei a imaginar como seria bom se eu pudesse me fazer ouvida naquele evento por cinco minutos que fossem. A partir desse cenário hipotético, escrevi o discurso que se segue, imprimi-o e levei-o na bolsa. Claro que não tive direito à palavra, por isso posto o texto abaixo para conhecimento amplo.


Para não dizerem que eu sou muito intransigente com os organizadores do evento da Unibrasil, devo confessar minha emoção ao ver uma mesa de homenageadas composta apenas de mulheres ilustres em suas áreas de atuação. Gostaria que aquela não fosse uma exceção devida às comemorações do 8 de março, ainda espero entrar em algum ambiente de alta influência e me deparar com uma mesa como aquela... Fora isso, a palestra de Izabel Liviski sobre fotógrafas pioneiras foi muito interessante, e o discurso de Luciane Merlin Clève, pertinente. Minha fala talvez só comprometeria essa beleza e esse sucesso...


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Caríssimas, caríssimos, boas noites!

É um privilégio estar aqui na condição de escritora premiada, e aproveito a ocasião para dizer algumas palavras que considero pertinentes à ocasião. Trata-se de uma interferência motivada pela necessidade, uma vez que o cerimonial sequer prevê um discurso para a quarta colocada do concurso, e eu nem sei se ele chegará a ser lido publicamente nesta noite [de fato não foi, só uma homenageada, uma juíza federal, teve direito à palavra]. Divulgado certamente será, porque são, repito, palavras necessárias.

Sinto-me grata e otimista por haver oportunidades como este concurso promovido pela Unibrasil que valorizam a produção literária feminina. Como estudiosa e professora de literatura, sempre me incomodou a escassez de autoras nos currículos e, como resposta, eu me esforçava para resgatar em minhas aulas nomes e textos ausentes dos livros didáticos. Depois, recapitulando as leituras que eu havia feito além da escola e da universidade, me dei conta de que a participação feminina era minoritária até fora do cânone acadêmico, inclusive constatei, com muita perplexidade, que os nomes das escritoras que eu conhecia cabiam em dois tuítes e meio – não porque eu lesse pouco, mas por serem minoria mesmo. Há poucas mulheres escrevendo? As que escrevem não são publicadas? As que são publicadas não são divulgadas? As que são divulgadas não são viram tópico de interesse e discussão? Eram perguntas que eu me fazia para tentar entender aqueles números desfavoráveis, e ainda não encontrei respostas satisfatórias.

Essa reflexão coincidiu com a época em que conheci a campanha “Leia Mulheres”, que foi um incentivo decisivo para eu lidar com aquele incômodo de modo mais concreto. Logo comprei a ideia e tivesse excelentes surpresas: Zadie Smith, Marie Ndiaye, Elena Ferrante, Charlotte Perkins Gilman, Maria Valéria Rezende, Alice Munro, Marguerite Duras, Flannery O’Connor, Christa Wolf... Todas elas passaram a compor meu repertório e, consequentemente, suas vozes passaram a habitar em mim. Essas mulheres passaram a existir e ter importância para mim.

Mas por que é importante ler mulheres? Bom, para uma aspirante a escritora, nem preciso dizer como esses exemplos fortalecem minha convicção de continuar produzindo ficção. Se elas atingiram um nível de excelência no ato de dizer aquilo ninguém mais poderia ter dito senão elas, também eu me sinto na obrigação de insistir nesta busca, que não é fácil, pela forma mais adequada de expressar as ideias que eu própria tenho a dizer. Por que digo que essa é uma obrigação? Porque desejo que as meninas das gerações futuras conheçam uma história da literatura em que a presença de mulheres seja abundante e natural, e não meras exceções. Enquanto as mulheres forem exceções, continuaremos crendo que só podem se tornar escritoras aquelas raras mulheres geniais e monstruosas, as Virginias Wolf e as Clarices Lispector. Não, a literatura não deveria ser produção de exceção, ela precisa de ser caudalosa para que os leitores possam criar repertórios diversificados e condizentes com seus interesses e questões pessoais.

Certamente não posso ignorar a importância de tantos homens na minha formação, tanto é que meu ingresso na literatura adulta foi por meio de Machado de Assis, cuja influência sobre mim se estende até hoje. Só para se ter uma ideia, meu texto premiado neste concurso é uma clara paródia de “O espelho”. Numa aula em que li esse conto antológico com meus alunos, o texto se revelou tão poderoso que eles e até eu, que julgava conhecê-lo suficientemente bem, atingimos uma espécie de êxtase coletivo. Desde então, “O espelho” ficou martelando na minha cabeça por dias, até eu me dar conta de que aquela era a forma mais interessante para uma história que eu queria contar há mais de um ano e não sabia como.

Aliás, já que estou falando sobre meu conto, gostaria de comentar meu maior receio quando o enviei para o concurso. “O chiqueiro”, esse é seu nome, é um conto predominantemente masculino. As raras personagens femininas (Dona Terência, a esposa de Pai dos Burros e as adolescentes também sem nome que disputam o título de Miss Safrinha) se comportam como meras sombras e apoiadoras dos homens, esses sim os atores principais. Dona Terência muda-se para a fazenda para viver o sonho do marido, entretanto não sabemos nada sobre os sonhos dela. A esposa de Pai dos Burros tenta controlar o marido com o olhar, mas em nenhum momento ela é sequer notada por ele. As adolescentes, então, são puro deleite para os olhos viciados dos nossos personagens centrais. Que modo horrível de se retratar as mulheres! Já que estamos afirmando a importância do papel feminino, talvez fosse mais interessante dar mais relevo a mulheres admiráveis... Apesar disso, a história que eu queria contar era aquela, e infelizmente aquelas mulheres eram dóceis, não eram protagonistas nem reivindicavam essa posição para si, mulheres como tantas que ainda encontramos neste nosso mundo real. O papel do escritor não é expressar a verdade, mesmo quando usa as imagens mais mirabolantes? Pois bem, a verdade nesse caso não é agradável, mas eu precisava contá-la.

Eu temia que considerassem meu conto masculino de mais e, assim, inadequado para um concurso de jovens escritoras. O que me consolou foi o próprio Machado, que, sendo neto de escrava, foi tão criticado pela posterioridade por não colocar a escravidão no centro de sua obra. Ora, os escravos estão sempre lá em suas narrativas, só que à margem, sem voz. Ele não poderia ter sido mais verossímil em seu retrato do Segundo Império do que reconstruir essa marginalização. Sem querer me pôr à altura desse escritor sendo eu ainda tão jovem e inexperiente, achei que ele me dava respaldo para eu fazer um conto tão masculino e ainda assim falar como mulher e para mulheres. Quando eu soube que meu trabalho constava entre os dez selecionados, fiquei muito satisfeita por perceber que a comissão do concurso tinha um entendimento amplo do que seja “literatura feminina”.

O que caracteriza a literatura feminina, a meu ver, não são os temas, afinal, somos livres para escrevermos sobre o que bem entendermos, mas a perspectiva. E não digo apenas que nós mulheres experimentamos situações que não são familiares aos homens, mas que nós vivenciamos até as mesmas situações de modo diferente. Para tomar um exemplo muito próximo e até bem óbvio, em cerimônias de premiação, as mulheres não só têm que ter realizado um excelente trabalho para estarem ali, como devem apresentar uma aparência e uma índole agradáveis. Se não cumprirem esses dois últimos quesitos, serão tachadas de porcas, bruxas, mal-amadas. Um homem que seja competente, mas feio e antipático, será excêntrico, intelectual, autêntico ou, na pior das hipóteses, antissocial. Esse tipo de exigência não é só uma pressão que percebo de fora para dentro, mas algo com que convivemos desde a mais tenra idade achando que é nossa própria opinião. Quando nos damos conta disso, percebemos quanta energia dispendemos sendo duras conosco mesmas, em vez de nos dedicarmos a questões mais importantes para o bem-estar individual e social.

Outro exemplo: para mim estava claro que eu queria ser escritora desde os 7 anos de idade, quando escrevi minha primeira narrativa sem ser exigência de escola. Com isso em mente, sendo eu uma pessoa muito racional, para não dizer calculista, dediquei-me a ler e escrever muito para aprimorar as habilidades necessárias para atingir meu objetivo. Ainda assim, na minha trajetória, tive que ouvir comentários que sugeriam que eu fosse fracassada por ter certa aparência ou por não ter um namorado. E, para piorar, não eram comentários de pessoas que queriam me fazer mal, mas de familiares e amigos que achavam que estavam me dando conselhos preciosos. Um ex-namorado chegou a me perguntar se eu ia tanto para a universidade durante o meu mestrado porque eu estava interessada em algum homem por lá. Acredito que nunca tenha passado pela cabeça dele que eu tivesse um gosto genuíno pelos estudos, e o pior é que eu própria demorei a entender que ele não tinha o direito de falar comigo daquela forma. Certas questões só ficaram claras para mim através da leitura de textos escritos por mulheres. Daí a importância de essa perspectiva feminina, seja ela explicitamente militante ou não, ser mais publicada e lida. Sinto que todas nós precisamos descobrir que mulheres queremos ser e aprender a sê-las. Além disso, muitas vezes, também nos falta saber reconhecer a existência de outras mulheres que muitas vezes ignoramos ou repudiamos, sem nem pensar por que fazemos isso. Aqui entram questões de classe e etnia que eu não me sinto apta para comentar, mas cuja importância gostaria de assinalar.

Para finalizar, gostaria de fazer uma sugestão à comissão deste concurso. Já elogiei a proposta de incentivar a produção literária feminina. Eu mesma só me inscrevi, porque parecia que teria alguma chance de ser classificada se não competisse com homens – não porque eles sejam necessariamente mais competentes do que eu, mas porque vejo muitos rapazes da minha idade já estabelecidos no meio literário, enquanto não percebo o mesmo com as escritoras de minha convivência. Esse incentivo significa muito, contudo gostaria de enfatizar uma incoerência no modo como o concurso se estrutura. Dá-se o reconhecimento à autora por meio do certificado, mas não se dá o espaço para que todas as dez classificadas sejam publicadas. Em outras palavras, honra-se a imagem da escritora, mas não aquilo que ela tem a dizer, de modo que continuamos sendo essas figuras decorativas, presentes nas fotos, mas silenciadas.

É uma postura perigosa da minha parte criticar aqueles poucos que reconhecem a existência de um problema em nossa sociedade – a marginalização da mulher na literatura –, mas acredito ser ainda mais perigoso achar que qualquer ação simbólica seja suficiente para sanar o problema. Minha reivindicação é que todos os textos cuja qualidade foi atestada pela comissão do concurso tenham a oportunidade de serem publicados e divulgados. Ao fazer esse pedido, corro o risco de parecer ingrata, ambiciosa, briguenta em relação àqueles que nesta noite estão me homenageando. Dispensaria a homenagem se isso se convertesse na oportunidade de ser lida. Como não há essa opção, aproveito os 15 minutos de holofote para dizer estas palavras necessárias.

Ao falar além do que é esperado de mim, uma jovem escritora premiada neste concurso, o que tenho a perder? Sobretudo minha reputação. No entanto, trata-se de uma reputação atribuída por uma sociedade que desvaloriza e destrói a autoconfiança de mulheres. Ora, nesse caso, abro mão dessa reputação de bom grado, serei ingrata, ambiciosa e briguenta de acordo com os valores desta sociedade machista, e faço isso na esperança de ser ouvida, de o meu apelo tocar outras mulheres e, assim, construirmos uma sociedade nova, com outros parâmetros do que seja uma boa reputação: honestidade, dedicação, conhecimento, solidariedade e coragem para tomar o caminho correto. Em resumo, quero afirmar que devemos nos orgulhar das pequenas conquistas sem nos acomodarmos, achando que elas sejam suficientes. Tenhamos a audácia de dizer aquilo que incomoda, de abrir mão da aparência segura, de sermos dolorosamente honestas e verdadeiras em cada palavra e ação.

Obrigada pela atenção e tenham uma boa noite!

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Leiam o conto “O chiqueiro”: http://sularien.blogspot.com.br/2017/03/o-chiqueiro-esboco-de-uma-nova-teoria.html

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