Extra! Extra! Bolsonaro veio para trazer paz aos povos


Não é piada. Depois deste ano extenuante, buscando um sentido para a coisa toda, cheguei à conclusão de que Jair Bolsonaro é o maior mestre zen de todos os tempos. Precisávamos desesperadamente dele para despertar. Não bastava um liberal ou um banqueiro qualquer, tinha que ser o sujeito mais tosco já nascido nesta terra para nos libertar da cegueira em que nos encontrávamos acerca dos problemas de nosso país.

O caminho para a iluminação não é fácil. Primeiro ficamos reativos, apegados aos pequenos prazeres. Ficamos presos num papo assim: "Ei, lembra a bonança de 2010? PIB padrão chinês, todo mundo comprando carro e tomando iogurte grego feito água, viagens de avião se democratizando, as universidades distribuindo bolsas de pesquisa e extensão, o Brasil emprestando ao FMI em vez de pegar emprestado, nosso maior problema era decidir onde aplicar a bolada do pré-sal... Bons tempos... O problema veio depois Foi a recessão mundial. Não, foi a corrupção do PT. Não, foi o golpismo do PMDB e do PSDB."

As explicações são muitas, basta escolher a mais compatível com sua ideologia. Eu prefiro acreditar que o problema é o de sempre, isto é, somos um país profundamente desigual e pouco fizemos para sanar esse problema, mesmo na época de bonança econômica. Durante o governo do PT, muitos brasileiros saíram da extrema miséria, o que não é um feito para se ignorar, mas simultaneamente os ricos ficaram exponencialmente mais ricos. Enquanto se criava a ilusão de aumento da classe média, o que estava acontecendo era o empobrecimento geral desta e o alargamento do abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

Para entender isso, basta observar como o imposto de renda esgana as classes mais baixas e favorece as grandes fortunas. Hoje, um trabalhador que ganha R$ 1.903,99 por mês (menos de dois salários mínimos) já precisa declarar seus rendimentos, pagando uma taxa de 7,5%, e alguém que recebe R$ 4.664,68 (menos de cinco salários mínimos) já paga a taxa máxima, 27,5%. Ou seja, um gerente na área de vendas, que ganha em média R$ 4.998,14 (fonte: www.salario.com.br), paga a mesma percentagem de imposto que um deputado federal, que recebe R$ 33.763,00, fora benefícios não tributados como passagens, diárias, auxílio-moradia e muito mais (para mais informações: https://www.camara.leg.br/transparencia/gastos-parlamentares). A tabela de alíquotas do imposto de renda não é reajustada desde 1996, e nós bem sabemos que quatro mil reais hoje não valem o mesmo que valiam há 23 anos. E o Lula vem me dizer que seu único arrependimento foi não ter regulamentado a imprensa? E a reforma tributária, minha gente? Não vou nem falar de Belo Monte, senão este vai virar um texto sobre o desenvolvimentismo petista e sua contribuição ao projeto de genocídio indígena cujos frutos tanto alegram Bolsonaro hoje.

Este se elegeu com a promessa de, com a política liberal de Paulo Guedes, retomar o crescimento econômico. Mesmo que isso aconteça, num surto de otimismo, o que será feito com os ganhos? Alguém sabe? Eu não sei! Nunca houve um projeto de país, e estamos já há um ano no escuro, sem saber qual é o plano. Bom, pelo menos o projeto do PT era conhecido – incluir os pobres no mundo do consumo, a despeito da destruição de culturas tradicionais – e podemos fazer críticas concretas. A única e admirável exceção nesse projeto de desenvolvimento, admito, foram as cotas universitárias, que aumentaram o acesso de cidadãos marginalizados à educação superior. Muitos jovens sendo os primeiros diplomados da família, coisa bonita de se ver, mas daí eu me lembro do Prouni, que só fortaleceu o grupo Kroton, e já fico triste de novo. Que pavor deste mundo dos monopólios!

Desculpem falar coisas tão dispersas e óbvias. Só gostaria de deixar mais palpável o nível da nossa cegueira. Meu ponto é que continuamos achando que o superávit vai resolver tudo. Não ignoro que haja uma grande dívida pública e que permitir o colapso econômico tampouco vai resolver coisa alguma – olhemos o exemplo do Chile, da Argentina, da Venezuela... –, mas para mim está muito claro, translúcido, que o problema é o sistema produtivo como um todo. Comprar um tênis de 500 reais em vez de um de 50 não torna uma pessoa mais feliz, apenas mais comprometida a ganhar dinheiro a qualquer custo para manter esse padrão de vida. Por outro lado, sabemos que tanto um modelo de tênis quanto o outro é produzido às custas da exploração do trabalhador e do meio ambiente, portanto, mais importante do que incentivar o consumo para "salvar a economia" é repensar que tipo de relações econômicas queremos.

Claro, precisa haver um sistema produtivo que gere trabalho e produtos necessários à subsistência humana, mas ele precisa ser tão predatório e materialista? Será que a produção de conhecimento e cultura ou mesmo a recuperação ambiental não poderiam ser lucrativas? Aliás, tem como um PIB crescer infinitamente se os recursos do planeta são só estes que estão aí? De quantos carros e apartamentos e roupas e joias e iphones um sujeito precisa? Vale a pena aumentar o poder de consumo à custa de aumentar o medo em relação aos demais, quero dizer, à grande maioria que passa fome e humilhações generalizadas? Ou à custa de viver numa cidade barulhenta, fétida, tórrida como estão se tornando as metrópoles do mundo? Mais obviedades. Melhor ouvir um discurso da Greta Thunberg, que ela diz tudo isso muito melhor.

Bolsonaro, com sua violência multidirecional, que inclusive dispara contra uma garota que apenas está tentando nos alertar para a tal cegueira, só deixa mais óbvio que não há um presidente que tornará o Brasil um país mais agradável de se viver enquanto o modelo de produção for o do consumismo. Ele me faz perceber que mesmo quem está ganhando rios de dinheiro está se sentindo cada vez mais ameaçado e paranoico e, por isso, "necessita" de armas para proteger seu patrimônio contra a horda de famintos. No fundo, esta é a única solução apresentada pelo governo: o projeto Mad Max.

Para mim, uma cena que resume bem o contexto político e econômico foi ver que, hoje sendo Natal, tem caixas de mercado trabalhando chateadíssimos para garantir um bocadinho a mais de lucro para seus patrões milionários. E não tem nada a ver com o estado ser laico, mas é porque este está se lixando para o trabalhador, que, sendo ou não cristão, bem que gostaria de estar em casa descansando e enchendo a pança como faz quem pode. E o pobre ainda tem que dar graças a Deus por ter um emprego mal remunerado para, no fim do mês, pagar a prestação do bem de consumo que fez seus olhos brilharem por uns instantes.

Me dispersei, é muita coisa errada, mas vou voltar ao assunto principal para concluir. Com a ajuda de Bolsonaro, descobri que a paz de espírito não será comprada com um PIB maior, até porque esses ganhos materiais só devem chegar a uns poucos. Descobri também que não adianta culpar o coitado que votou nele, como aconteceu em 2018 (a.k.a. o pior Natal de todos), pois somos todos igualmente vítimas. Descobri ainda que o brasileiro não tem nada de cordial, nem eu mesma. Somos, isso sim, umas bestas egoístas e agressivas. Passei um ano inteiro sentindo ódio, e foi péssimo.

Bolsonaro é o espelho que reflete o que todos nós temos de pior e, bem por isso, é o maior mestre zen. Tomados pelo horror desta imagem, vem a urgência de mudar. Ele fez com que tudo se tornasse tão odiável – até as praias, o futebol, o almoço em família, o céu de primavera (tomado pela fumaça das queimadas) – que enfim consideramos fazer diferente. Foi preciso que ele existisse para começarmos a pensar as relações econômicas e humanas com mais seriedade. Não se trata mais simplesmente de votar neste ou naquele partido, é preciso repensar tudo, tudo do zero.

Para 2020, eu desejo menos incêndio, menos óleo, menos lama, menos bala, menos textão de ódio, menos desinformação, menos ganância, menos político bosta, menos Bolsonaro. Ele não é nosso pai, seu sangue não é o nosso, portanto, não precisamos carregar sua herança maldita – Flávio, Carluxo e cia que lidem com esses genes. Esse não precisa ser nosso fardo se não quisermos. Em vez disso, sugiro que nos ocupemos de virar alguém de que sentimos orgulho, um povo generoso. Cordiais não, porque o excesso de paixão foi que nos meteu nessa cilada, mas que tal relembrar o caminho do bom senso? Em vez de berrar, vamos valorizar o silêncio e a paz, começando por nós mesmos, pois só sairemos do lodaçal pelas próprias pernas. Não busquemos messias, sejamos heróis de nós mesmos.

Clichês, clichês. Fazer o que se esquecemos até o básico?

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