Comentários aleatórios sobre “Master of none” (poderia ser uma resenha se eu estivesse mais empenhada)


Começo esclarecendo que não gosto de seguir séries. Já fiz muito isso no passado, mas não me sentia bem, pois sabia que, mais do que um hobby, era uma forma de evitar algum problema maior: eu só deitava no sofá e deixava o dia passar, entretida demais para ter pensamentos obsessivos. No fim das contas, ver séries não era muito diferente de me entregar a joguinhos de frutas, compras online, aplicativos de encontro... todos meios de dar asas à ansiedade e à compulsão, ainda que disfarçados de atividades felizes e produtivas.

Apesar dessa objeção, admito que há algumas poucas séries que ultrapassam a barreira do entretenimento compulsivo e conseguem ter um efeito mais duradouro sobre mim, flertando fortemente com o cinema de qualidade. Fazem isso não no atacado – como “Friends”, em que aqueles personagens se tornam tão presentes na nossa vida que a gente desenvolve uma bizarra familiaridade com eles –, mas no varejo, com episódios tão bem executados que a gente precisa de uns minutinhos de digestão antes de passar para o próximo, na contramão do modo Netflix de ser, que já emenda uma coisa na outra. Exemplos desse segundo tipo, a meu ver, são “Black mirror”, “Mad men”, “Twin Peaks”, “Breaking bad”... não todos os episódios dessas séries, mas alguns deles.

No gênero da comédia, acho que “Master of none” também consegue produzir esse efeito. No geral, pode parecer apenas uma sitcom mais moderninha: a velha fórmula “nova-iorquinos trintões neuróticos com seus relacionamentos” só que encenada por representantes de minorias étnicas e sexuais. Há boas tiradas com hábitos da contemporaneidade, como na abertura do primeiro episódio, em que a camisinha estoura e Dev e sua parceira desistem do ato sexual para pesquisar no Google se há chance de gravidez, ou o episódio “First date” da segunda temporada, ao acompanharmos simultaneamente vários péssimos encontros do protagonista com garotas que conheceu no Tinder. Mas só isso não seria o suficiente para destacar a série, afinal “Seinfeld”, “Sex and the city” e “How I met your mother” já fizeram o mesmo em relação às práticas de seu tempo; é o cuidado no modo de narrar certos episódios que faz a diferença na série produzida por Aziz Ansari e Alan Yang.

Não à toa, “Master of none” ganhou o Emmy em 2016 justamente pelo episódio “Parents”, em que as histórias dos pais de Dev e Brian (indiano e coreano) se entrelaçam com a narrativa da segunda geração, já aculturada. Esse “entrelaçar” é usado em várias outras ocasiões, um modo de narrar bem característico dessa série e que me agrada muito. Também aparece no mencionado episódio “First date” (permanece o Dev em cena, entrelaçam-se diversas mulheres que com quem ele saiu, formando um Frankenstein que não chega nem perto da tão idealizada amada), no fofíssimo “Thanksgiving” (passagem de vários Dias de Ação de Graça na mesma casa ao longo de duas décadas, o que leva à compreensão da relação de Denise com sua mãe), em “New York, I love you” (encontro de breves narrativas de nova-iorquinos geralmente invisíveis, o porteiro latino-americano, a balconista muda, o taxista africano etc.).

Além desse narrar mais amplo, acompanhando não apenas o protagonista, mas criando pontes entre as várias histórias que se passam diariamente na cidade de Nova Iorque (e, sendo sobre minorias, muitas delas ignoradas pela indústria cultural), me agrada também a trilha sonora da série, sobretudo da segunda temporada, com tantas músicas italianas antigas, e sua fotografia, bastante colorida contrastando com as ironias sutilmente retratadas (algo inspirado em Wes Andersen, talvez?) – exceto pelo episódio “The thief”, ousadamente todo em preto e branco, pena que a narrativa nesse caso não tenha nada de tão espetacular...

Também é bacana ver uma série mainstream, direto da Netflix, em que as minorias são maioria. Dá aquela mesma sensação de assistir a “Moonlight”, quero dizer, a experiência de estar num mundo em que nós, brancos, finalmente percebemos como é ser diferente e, portanto, não somos aqueles que tomam a frente, mas escutamos quietinhos o que os outros têm a dizer, dando-nos conta de que o mundo é amplo e como o nosso olhar viciado nos impedia de notar certas questões.

Nos meus momentos mais piegas, que ultimamente têm sido sempre, me identifico bastante com o protagonista Dev, tão “sem caráter” no sentido de Macunaíma: não tem uma identidade fixa, dominante, impositiva. Responde com humor para não bater de frente com ninguém, mas chega em casa e fica deprimido. Também me sinto assim nesta capital, buscando um ideal que é o deste ambiente, uma certa ideia de trabalho, relacionamento e diversão, mas sempre caindo e caindo, porque esse ideal é o de um passado romântico, totalmente incompatível com este mundo e talvez até comigo (se eu tivesse uma identidade certa, poderia dizer com certeza). Dev diz, quando mais um relacionamento deu errado por motivo algum, “sinto falta não dela, mas daquela sensação, daquela conexão” (é uma paráfrase, não lembro a citação certinha, sorry). Todos nós sentimos esse desenraizamento e, ainda assim, continuamos procurando a resposta no Tinder. Quando é que vamos mudar essa estratégia?

Estou ficando monotemática.

Comentários

  1. Não tenho esse tipo de relacionamento há tanto tempo que nem me lembro direito.

    E mesmo lendo sua mini resenha, não me animei de ver essa série não.

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    1. Acho que vai ficando mais fácil lidar com a solidão conforme a gente vai esquecendo aquela sensação de amar e ser amado com entrega, até só lembrar as últimas experiências, todas bizarras e dolorosas. É como tem sido para mim, depois de um ano (ou mais? nem lembro...) vivendo "like a rolling stone".

      Ah, e não precisa ver a série, não. Deus me livre de fazer as pessoas saírem de suas atividades cotidianas para verem seriados, queria ter o poder de fazer justamente o contrário.

      :)

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