Como encontrar um bom companheiro


“Melhores sites de encontro”, “Como conhecer homens”, “Sites de encontro para pessoas inteligentes”, “Experiências afetivas autênticas”. Acabo de confirmar que o Google não tem resposta para tudo, ao menos não conseguiu responder a essas pesquisas satisfatoriamente, por isso escrevo este texto. Quando vocês fizerem as tais buscas e também se frustrarem com os resultados, me encontrarão aqui, igualmente frustrada, então poderemos sentar e conversar sobre aquilo que nos chateia ou só ficarmos em silêncio, nos sentindo menos pressionados ao perceber que esse não é um problema exclusivo nosso. Talvez esta seja até uma das grandes questões do nosso tempo. Podem estranhar: encontrar namorado é a grande questão da atualidade? Não diretamente, mas tem relação, sim, já explico.

Não é segredo para ninguém que as redes sociais atingiram seu sucesso com base na solidão e nas inseguranças de seus usuários. Basicamente todos se sentem mal com relação à própria vida em algum momento (ou quase sempre) e querem provar para si e para o mundo que não é bem assim, logo havia aí um filão que alguns gênios souberam transformar num negócio lucrativo. Bom para eles. Felizmente ainda temos a escolha de nos inscrevermos nas tais redes ou não, portanto não ficarei reclamando de quem o faz, não agora.

O problema que eu percebo é muito mais abrangente, espero conseguir ser clara. Conforme vamos migrando para a vida digital, na tentativa de driblar o tédio e a mediocridade da vida real, as relações lá fora se tornam mais áridas. Quantos de nós passaram o fim de semana on-line vendo o que os outros estavam fazendo? Assim até parece que você efetivamente fez algo com seu dia e não percebe que gastou o tempo todo sozinho em casa e, mesmo se saiu, ficou concentrado num gadget. Alguém que não queira participar desse tipo de interação possui cada vez menos opções de rostos para olhar e interagir, de modo que a solidão se aprofunda e, consequentemente, nossa dependência das redes sociais. Já perceberam que é um ciclo vicioso, né, mas ele pode ser rompido a qualquer momento, quando o sujeito já não consegue controlar sua angústia e morre ou, mais drástico, desconecta-se (roubei essa piada de South Park, confesso). Para deixar as pessoas um pouco menos infelizes e impedi-las de se desconectarem, surgiram os tais aplicativos de encontro. Assim, renovamos os rostos da nossa lista de amigos no FB, postamos fotos de encontros incríveis na timeline e, até um benefício na vida real, nosso cérebro recebe um monte de endorfina e serotonina após o coito sem culpa e sem consequências.

Tudo vai bem na sua vida digital, você nem acha tempo mais para responder todas as mensagens que pululam na sua screen. Distraídos vamos seguindo, um tópico por dia para nos absorver a atenção e ao qual direcionarmos nossa paixão. No fim, estamos fazendo testes no buzzfeed, porque ainda é cedo demais para ir dormir e você não sabe o que fazer consigo mesmo quando desliga o computador ou larga o celular. Se você tiver dominado muito bem o meio virtual, ele vai te retribuir com um parceiro interessante, que você logo começará a negligenciar, ainda que ele esteja todo querido aí do seu lado, para atualizar sua vida digital. E aqueles que sequer conseguem ou não querem dominar as regras desse mundo? Como fazem para encontrar um parceiro para amar por um tempo até enjoar?

Estamos chegando ao ponto central da argumentação, mais um pouco de paciência.

Mas peraí, por que você precisa mesmo de um parceiro se mais cedo ou mais tarde a monogamia vai te cansar? Ah, são tantos os motivos, cada um sabe o seu. Precisamos de... Alguém que esteja quase sempre disponível (tipo um BFF com quem se faz sexo). Alguém que nos motive a ser melhor. Alguém que nos conheça profundamente e nos admire mesmo quando estamos usando aquele pijama de ursinho e máscara facial verde. Alguém que nos acompanhe nos rolês agora que nossos amigos estão todos comprometidos. Alguém com quem um dia constituiremos uma família. Alguém que testemunhe nossa vida e cuide de nós, e vice-versa, enquanto envelhecemos. Exceto pelo sexo e pela formação da família, me parece que tudo isso poderia ser perfeitamente satisfeito por amigos, vizinhos e colegas. Ah, sim, mas os colegas a gente já é obrigada a ver todo dia no trabalho, os vizinhos são enxeridos, e nossos amigos estão ocupados demais com suas vidas digitais para passarem na nossa casa sem avisar, para se fazerem presentes no dia a dia... Entenderam de onde vem a necessidade de “alguém especial”? Para garantir que pelo menos uma pessoa se importa com a gente, para aliviar um pouco a nossa solidão. Os relacionamentos hoje me parecem uma forma de mascarar que estamos cada vez mais sozinhos. Ora, se estamos sozinhos, o que seria o lógico a se fazer? Fortalecermos os laços comunitários, certo? Não, essa é uma heresia na modernidade. Não somos uma comunidade, somos indivíduos, usuários, consumidores, somos múltiplos, isso de coletivo soa como fascismo – é o que pensamos. Optamos por um contra-senso, apostamos toda nossa necessidade de conexão numa única pessoa, o namorado.

Está triste? Vá às compras, ou baixe o Tinder. Precisa conversar? Procure um psicólogo, ou baixe o Tinder. Sente falta de contato físico? Contrate um michê, ou baixe o Tinder. Sente-se vazio? Leia o novo livro de Martha Medeiros, ou baixe o Tinder. Entenderam agora? O modo como lidamos com nossas ausências e estabelecemos relações hoje só perpetua nosso estado constante de isolamento. Cada um com seus problemas, resolva-se!

Para resumir: a meu ver, ressentimos a falta de uma vivência comunitária (pode ser cívica, familiar, religiosa, não importa...), uma existência direcionada para algo maior do que nós próprios, e nos iludimos que seja possível substituir isso por comunidades virtuais, que não têm nada de comunitárias, pois fazem do “eu” algo tão importante que, mesmo no encontro com o “outro”, precisa estar bem claro quem é esse eu, o que ele quer, o que ele tem feito, todos os limites bem estabelecidos e visíveis. Assim, não nos entregamos, não nos dissolvemos numa unidade, que é justamente aquilo de que necessitamos para nos tornarmos felizes. Essa é só minha opinião, claro, não atingi ainda esse estado de plenitude para lhes confirmar meu palpite... infelizmente. Pelo visto, não há respostas fáceis, hein, Google?

Voltando à pergunta original, como encontrar um/ns bom/ns parceiro/s hoje? Queria que fosse assim fácil como sugerem alguns sites: vá a uma igreja, pratique um esporte em grupo, participe das reuniões de condomínio, convide seus colegas para almoçar, puxe conversa com a pessoa à sua frente na fila do mercado... Eu faço tudo isso e continuo me sentindo terrivelmente sozinha. Às vezes penso que eu não sou suficientemente interessante neste mundo em que a personalidade conta tanto, mas acho mais provável que as pessoas simplesmente não estejam tão interessadas em dividir comigo aquela experiência no mundo offline, não estejam realmente me vendo. Vai saber... A única coisa que posso fazer é continuar tentando estabelecer contato. Assim como o post anterior, cá estou tentando me mostrar mais vulnerável para ver que efeito isso provoca nas pessoas. Faço isso, porque não suporto mais ficar diante de uma tela esperando um apito que sinalize “alguém se importa”, “você está salva”, “você será feliz”. Algo precisa ser feito. Ironicamente, ajo justamente pelo tão hostilizado meio digital, mas vocês já repararam como a cidade fica deserta no domingo? Quem sabe amanhã, segunda, melhore...

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